Afinal como nasce uma língua? A resposta a esta questão é complexa e nem sempre consensual. Sabemos que começa sempre por uma tradição oral, disseminada num determinado território, mas que pode demorar séculos até se fixar em forma de escrita. Nesse processo, no entanto, vislumbram-se, por vezes, as mais variadas modificações e a verdadeira origem perde-se no caminho.

Não obstante, sabemos que a história de uma língua está indelevelmente ligada à história de um povo, cuja própria origem assenta numa narrativa mitológica nem sempre fácil de explicar. Ora no caso português, a língua começa a sua viagem muito tempo antes de existir um território chamado Portugal, por volta de 600 d.C., quando nem o Condado Portucalense existia. Uma história que começa no latim e passa pelo galego, de onde o português vai retirar uma boa parte da sua génese.

Esta história de séculos é contada por Fernando Venâncio, que em 2019 nos presenteou com Assim Nasceu Uma Língua/ Assi Naceu ũa Lingua, um livro culto, mas simultaneamente didático, sobre as origens da língua portuguesa, com chancela da Guerra & Paz. Em entrevista ao Gerador, o linguista fala-nos da sua investigação que o levou às origens do galego na península ibérica, passando pelo começo da história de Portugal até aos dias de hoje. Uma história contínua a que a língua e as suas transformações não são indiferentes.

Gerador (G.) – Conhecermos e confrontarmo-nos com uma língua que desconhecemos obriga-nos a ir ao seu passado?
Fernando Venâncio (F. V.) – Não necessariamente. Agora num cenário presente, o que é que eu faria perante uma língua que desconhecesse? Eu tive essa própria experiência aos 25 anos com o holandês. No momento em que fui para a Holanda, desconhecia o holandês, embora tivesse alguma imagem da escrita da língua. Qual é a atitude a ter? É aprender o mais depressa possível, compreender as estruturas e, depois, num segundo momento, examinar as atitudes dos falantes.

G. – Foi essa saída para a Holanda e a necessidade de aprender outra língua que o levou a querer debruçar-se sobre as origens da língua portuguesa?
F. V. – Não o posso negar, porque tem que ver com essa distância e também com o facto de nunca ter estudado aqui. Fiz aqui o curso de Filosofia e Teologia, mas nunca estive uma só hora como estudante numa universidade portuguesa, sendo que as minhas relações a esse nível são todas posteriores.

G. – Quando é que toma essa direção de descobrir o português e o seu passado?
F. V. – Para além do Ivo Castro que percorre todo o meu livro, há uma outra figura importante que foi António José Saraiva, que me falou no galego e na proximidade que o português tinha com essa língua, o que eu desconhecia. Apesar de ter vivido oito anos em Braga, pertíssimo da Galiza, nunca tive perceção, nem sequer curiosidade. Só em Amesterdão, com o António José Saraiva, é que eu percebo essa ligação linguística muito forte à Galiza, sendo aí que começa a minha história com o galego e com o português antes de ser o português.

G. – O seu livro desmistifica inúmeras conceções linguísticas.
F. V. – Não necessariamente erradas. Todos os povos têm a sua mitologia. Até o povo holandês tem a sua mitologia de um príncipe que veio do leste e que encontrou uma terra enlameada em que não havia distinção entre terra e água. Essa história foi contada no século XVII e é uma projeção, uma história inventada sobre a origem daquele povo. A nossa história como povo também é inventada porque nós nos habituamos muito cedo a conceber Portugal como qualquer coisa já preparada. Habituámo-nos a conceber Portugal como uma necessidade vinda até da própria divindade. Ora bem, Portugal, como qualquer país do mundo, podia não existir e, como conto no livro, há uma história onde se demonstra como a essência de Portugal esteve por um fio. Refiro-me àquela em que um cavaleiro francês que veio em ajuda do rei castelhano e que, ao não conseguir combater os mouros, se apresta a voltar para França mas, de repente, lembra-se de que há um mosteiro na Galiza onde estava uma tia. E então, antes de voltar para França, o cavaleiro vai despedir-se da tia e é aí que há dois companheiros dele, Henrique de Borgonha (pai de D. Afonso Henriques) e Raimundo de Borgonha, que por já não haver guerra decidem ficar neste território. Henrique é encarregado do condado portucalense e o resto é história. Portanto, se não tivesse havido esse episódio da tia, provavelmente não existiria Portugal.

G. – E quando é que entra a língua nessa narrativa mitológica?
F. V. – Todos os povos têm uma mitologia e inventaram as suas origens. Para os portugueses, só depois da Batalha de Aljubarrota é que esse cenário mudou completamente, é que houve uma reconstituição de como Portugal começou. Nessa altura, a Galiza já não interessava e muito menos se concebia que a língua falada fosse o galego. E como Lisboa, a partir de 1385, se torna o centro e a capital do reino, tudo é pensado a partir dali e o resto é passado. Até certo ponto, Portugal, nesse momento, recomeça, reelabora-se e reinventa a sua própria pré-história.

G. – Portanto, sabemos dessa reconstrução, mas como é que nasce então o português?
F. V. – O português nasce como uma língua que se descola do latim e esse descolar-se, centro-o eu por volta de 600 d.C. A história do “L” e do “N” que caem em palavras como “salire” que se tornou “sair” e “luna” que ficou “lua”é importantíssima. Não é isso que define a língua, mas é aquilo que mais a transforma. Nesse momento, a língua não tem um nome e é preciso recordar que a língua portuguesa também só teve nome em 1430. Até aí, não se falava em língua portuguesa, embora se perguntasse aos portugueses – «qual é a vossa língua» – e a resposta fosse – «é o português» -, mas nunca houve necessidade de dar nome. Só a partir da ínclita geração é que há necessidade de chamar língua portuguesa à nossa língua. Mas o começo, esse descolar de que falo do latim, dá-se numa altura em que não existe Portugal nem nada que indique que um dia haverá Portugal.

G. – E onde é que aí entra o galego?
F. V. – Entra aqui, porque esse descolar dá-se na Galiza e num território que apanha o distrito de Braga, descendo um pouco até à ria de Aveiro. Tudo isto era Galiza e, como o Ivo Castro diz, o português nasceu fora de Portugal, numa província chamada Galiza, sendo que a ideia de galego-português é uma invenção muito posterior de 1890. Antes disso, essa expressão nunca existiu. Atualmente, tudo vale para que nunca o galego tenha sido uma língua nossa.

G. – E o galego, de onde é que surge?
F. V. – Surge do latim assim como leonês, o castelhano, o occitano e o francês. Mas é preciso não esquecer que a Galiza foi, desde ainda antes de Cristo, uma realidade cultural distinguível de tudo o resto. Era a região mais longínqua onde chegaram as tropas romanas, região mais populosa, mais chuvosa e mais verde da península e aquela gente tinha, tem e há-de ter, durante muito tempo, uma noção de que «nós somos nós, e os outros são os outros».

G. – Uma ideia que é válida mesmo para aquilo que é a Espanha contemporânea?
F. V. – Sim e neste momento a situação é muito confusa. Quantos são os galegos que se consideram não espanhóis? São uma minoria, mas é muito falante e fazem-se ouvir. Agora quando tudo começa, por volta de 600 d.C., não há uma noção de península. Há um ramo do latim que foi introduzido e esse latim foi-se diversificando territorialmente e quando a nossa língua, que ainda não se chamava português, se começa a definir não há qualquer noção de que aquilo seja uma língua distinta.

G. – E os primeiros textos em português quando surgem?
F. V. – Os primeiros textos escritos na nossa linguagem são do tempo em que Portugal se torna independente, depois de 1143, mas surgem por pura coincidência, só que é uma coisa tão feliz para a nossa mitologia que se torna muito difícil pôr em causa. O francês já começa, claramente, por volta de 800 d.C. e, se a Galiza tivesse tido um rei nesse período, de certeza que haveria também uma escrita e uma língua. Só que como não há necessidade de escrever sobre o porquê de o latim ser tão importante, só mais tarde, por volta de 1170, é que se começa a escrever, sendo que essa libertação do galego só começa a existir a partir de 1400. Mas é preciso não esquecer que até cerca de 1820 não havia a mínima noção da existência dessa literatura que depois se chamou galego-portuguesa, porque esses textos eram desconhecidos.

G. – No seu livro fala depois de um período de grande influência do castelhano. Em que momento é que este fenómeno se dá?
F. V. – O castelhano entra em Aljubarrota.

G. – É o momento em que esquecemos o galego?
F. V. – Não só esquecemos, como este já não conta para nós. Só no século XVI é que um linguista, o Duarte Nunes de Leão, diz que houve uma altura em que o galego e português eram quase a mesma língua. Mas Aljubarrota é absolutamente crucial em toda esta história.

G. – Mas porque é que nos aproximamos do castelhano?
F. V. – Porque estamos à vontade, porque ganhámos. Agora é preciso perceber que, sobretudo em Toledo, havia uma civilização bastante adiantada, onde já em 1250/60 Afonso X de Castelo tinha praticamente criado uma ortografia fixa. Ora, os portugueses e as portuguesas vão-se vestir em Toledo e é então que civilização castelhana toma conta disto, nas vestimentas, na linguagem e na cultura, onde inclusive recebemos no nosso território os sábios castelhanos que vêm dar aulas. Além disso, sabemos que as principais traduções que foram feitas pelos príncipes de Avis foram feitas com a ajuda das versões castelhanas existentes. Mais tarde, quando no fim do século XV chega a imprensa, os oito primeiros livros impressos em Portugal são traduções do castelhano. Portanto, veja até que ponto nós nos ‘castelhanizámos’, sendo por isso concebível que também o idioma se abrisse a essa influência.

G. – Em muitos países europeus também se fala da influência de figuras que acabam por ser precursoras de uma língua. Em Portugal devemos atribuir esse papel a Camões e a Vieira?
F. V. – Sim e com muita razão, só que nós damos uma importância a Camões que ele nunca teve. Nós dizemos que ele é inventor da língua portuguesa, etc. Ele realmente fez muito pela língua portuguesa, isto é, ele “castelhanizou-a” e ele fê-lo – algo que deve fazer muita confusão a algumas pessoas – patrioticamente, que foi o que fez o Padre António Vieira e, depois, José Saramago. Estes três grandes “castelhanizadores”, fizeram-no não por causa do castelhano, mas por causa do português. Quiseram internacionalizar o português. Se hoje quiséssemos internacionalizar o português seria através do inglês. Agora, temos que compreender que o castelhano era o inglês dos séculos XVI e XVII.

G. – E a partir de que momento é que diria que o português estava, de alguma forma, estabelecido?
F. V. – Diria que quem escreve no princípio do século XVII, como por exemplo João de Lucena ou Frei Luís de Sousa (Manuel de Sousa Coutinho), utiliza uma língua a que podemos chamar português, mas, uma vez mais, muito castelhanizada.

G. – Se nós olharmos para estas contínuas modificações, parece que quando olhamos para o português hoje não existem grandes mudanças ao longo do último século. Diria que as línguas hoje já não se modificam tão rapidamente?
F. V. – Estão padronizadas e uma pessoa, hoje, praticamente não tem dicionários ou gramáticas à disposição. Nesse sentido, talvez haja um relentar, mas só isso, porque, de resto, estamos continuamente a criar palavras novas. Nos anos 80 e 90 tomava notas de todas as novas palavras que lia nos jornais ou livros. Nós estamos em contínuo movimento. Agora, que esse movimento possa estar um pouco mais tranquilo, talvez, mas sou muito cuidadoso a esse respeito.

G. – Em todo o caso, já disse numa entrevista que nós escrevemos melhor e falamos melhor do que no passado.
F. V. – Eu acho que sim. Nós estamos a escrever muito bem.

G. – Mas existe quem diga o contrário.
F. V. – Há umas almas penadas que vivem do fantasma da destruição. Só são felizes num mundo em deterioração.

G. – É um opositor convicto do Acordo Ortográfico (AO90). A unificação é contrária ao desenvolvimento natural de uma língua?
F. V. –Se o Acordo Ortográfico tiver algum efeito sobre a língua, esse efeito é negativo. Tenho receio de que daqui a 30 anos haja uma imensa hesitação, por exemplo, na pronúncia do “A” em certas palavras. Nós hoje ainda temos a memória; sabemos onde é que o “A” é aberto e onde é que é fechado, mas daqui a algumas dezenas de anos essa memória está perdida e, portanto, acredito que vai haver uma grande hesitação. Os avós é que ainda vão ser a referência e isso é tremendo. A hipótese que nem sequer se realizou de haver maior intercâmbio literário entre Portugal e o Brasil, mesmo que tivesse realizado, não vale aquilo que se fez à língua. Estou-me a referir às chamadas consoantes etimológicas que no Brasil não tem importância, isto é, só interessam se são articuladas ou não. Para nós, sejam articuladas ou não sejam articuladas, abrem ou não,e isso é fundamental. Nós estamos a criar uma confusão futura que é indesmentível e só poderia ser evitada se amanhã se voltasse atrás com o acordo.

G. – Hoje em dia fala-se também muito do valor da língua portuguesa no mundo. Concorda com essa representação que se faz de língua?
F. V. – A realidade é bastante diferente dos sonhos dos nossos gurus que nos querem animar numa espécie de pep talk para manter o ânimo. São constructos ideológicos. A gente vê em toda a parte que o ensino de português está a diminuir de uma maneira catastrófica. Mas não é só o português.Quando eu fui para a Holanda, a língua mais importante estrangeira era o francês. Rapidamente se tornou o inglês. Neste momento, o francês e o alemão praticamente não são estudados nas universidades e o português está para lá desses predadores.

G. – Sendo assim, o que é que pode acontecer ao português?
F. V. – Isso vai depender de nós, está nas nossas mãos, mas temos razões para estarmos otimistas. Quando leio autores de hoje que têm 40 anos e fico surpreendido com o uso de expressões que achava que estavam esquecidas, isso é um sinal positivo. E achar que outros autores daqui por 20 anos podem ter um português, como por exemplo,o do Bruno Vieira do Amaral ou Ana Margarida de Carvalho, é fabuloso.

G. – Portanto é nas letras que ainda reside o legado da língua?
F. V. – Creio que sim. E deve ser essa a nossa esperança.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia da cortesia da editora Guerra & Paz

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