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Festival Hans Otte : Sound of Sounds leva-nos a um mergulho na obra multiforme do pianista

O Festival Hans Otte : Sound of Sounds decorre de outubro de 2021 a abril de 2022 com um ciclo de concertos, teatro musical, exposições e ainda conferências no âmbito académico. Lisboa, Évora, Guimarães e Viseu são as cidades escolhidas pela curadora e pianista Joana Gama para homenagear o pianista alemão Hans Otte.

O compositor, pianista, artista intermedia e editor de programas de rádio alemão Hans Otte, é ainda quase desconhecido em Portugal, mas a sua obra é uma influência na divulgação e criação de música contemporânea na Europa Ocidental do pós-guerra. A pianista portuguesa Joana Gama, que se desdobra em múltiplos projetos quer a solo quer em colaborações, conheceu a música de Hans Otte em 2010 e, desde aí, o caminho foi-se traçando até chegar ao ciclo para piano O Livro dos Sons de Hans Otte - apresentado na Culturgest, em 2020.

Joana Gama, curadora do Festival Hans Otte : Sound of Sounds contou ao Gerador, que "a construção do festival tem uma história longa". O seu fascínio inicial foi complementado com "o estudo da obra do compositor a partir de um livro escrito pelo eu assistente", Ingo Ahmels, com quem se cruzou e com quem também assina a curadoria deste festival. Após uma troca de emails entre dois estranhos que tinham um gosto em comum, nasceu um festival, numa co-produção com o Goethe-Institut Portugal.

Dando seguimento ao primeiro momento de 2020 (no qual Joana Gama apresentou O Livro dos Sons de Hans Otte), o festival cruza públicos e abordagens, e "dá a conhecer várias facetas do compositor, em contextos diversos, em quatro cidades portuguesas: Lisboa, Évora, Guimarães e Viseu", conta Joana Gama. Segundo a pianista, o festival vai "passando de cidade em cidade, e é composto por uma exposição itinerante, conferências no âmbito académico, concertos e a estreia de uma peça de teatro musical".

Joana Gama desdobra-se em múltiplos projetos quer a solo quer em colaborações nas áreas do cinema, da dança, do teatro, da fotografia e da música. | Fotografia de Vera Marmelo

Com arranque a 23 de outubro, a abertura do Festival Hans Otte : Sound of Sounds coincide com a inauguração da exposição homónima na Brotéria, em Lisboa (até 27 de novembro), que apresenta as duas instalações sonoras arquetípicas Ich -Atemobjekt (1970) e Namenklang (1995) de Hans Otte, assim como uma seleção representativa de partituras e desenhos, complementados por fotografias biográficas, nomeadamente as da autoria da filha do compositor, a fotógrafa Silvia Otte. A exposição contará ainda com a obra Air – Hommage an Hans Otte, John Cage und den Klang der Klänge Und Einen Baum (2019/20) de Ingo Ahmels, que parte de um texto que Hans Otte escreveu em homenagem a John Cage, dois compositores unidos por uma boa amizade e uma admiração mútua. A exposição segue depois o percurso realizado pelo festival, com inaugurações em Évora a 3 de dezembro, Guimarães a 8 de janeiro e Viseu a 4 de março. À inauguração da exposição segue-se a conferência, no dia 4 de novembro, no Goethe-Institut, que antecipa o concerto na Culturgest, em estreia em Portugal, Oriente:Ocidente-Cage:Otte. Nesta conferência, realizada em colaboração com o Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM - NOVA FCSH), a pianista Margaret Leng Tan junta-se a Joana Gama e Ingo Ahmels, para uma reflexão sobre os percursos tão singulares quanto distintos de Hans Otte e John Cage. A conferência segue também viagem, com datas marcadas para Évora a 2 de dezembro e Guimarães a 7 de janeiro.

A 6 de novembro tem então lugar Oriente:Ocidente - Cage:Otte, um concerto para dois pianos numa “sala de concertos preparada”, idealizado por Ingo Ahmels em homenagem a Hans Otte, e que teve a sua estreia em 2006, tendo sido editado pela WERGO em 2008. Na altura, a peça contou com a interpretação de dois pianistas masculinos - Elmar Schrammel e Philipp Vandré - sendo agora interpretada, intencionalmente, por duas mulheres pianistas - Margaret Leng Tan interpreta uma seleção da obra seminal para piano preparado Sonatas e Interlúdios do compositor norte-americano, enquanto Joana Gama, interpreta uma seleção dos ciclos O Livro dos Sons e O Livro das Horas de Hans Otte.

Ainda no seguimento do festival, a RTP2 fará (no dia 24 de outubro) a difusão de uma gravação inédita do ciclo O Livro dos Sons de Hans Otte, realizada na renovada estufa fria do Jardim Botânico de Coimbra com a pianista Joana Gama. O concerto será depois apresentado em Évora a 3 de dezembro, em Guimarães a 8 de janeiro e em Viseu a 4 de março. Juntamente com a estreia deste concerto em 2020, a Culturgest promoveu ainda o lançamento de um microsite com informação sobre o compositor e fez uma encomenda de peças musicais a seis músicos portugueses - Bernardo Álvares, Helena Espvall, Joana Da Conceição, Norberto Lobo, Pedro Melo Alves e Violeta Azevedo - um tributo em forma de peças-concerto destinadas ao formato online, intitulado Abrindo o Livro dos Sons.

A programação do festival fica completa com a apresentação, em estreia mundial,no dia 8 de abril no Teatro Viriato, em Viseu, e no dia 11 de abril no Goethe-Institut, em Lisboa, da peça de teatro musical J-CHOES, J'ai faim, com música de piano de John Cage, Hans Otte, Erik Satie e Arnold Schoenberg, interpretada ao vivo, que vem transmitir a cumplicidade artística entre os intervenientes, as personagens e certas peças de piano dos compositores referidos. A peça, com direção artística de Lou Simard e Ingo Ahmels, destina-se a três atores pianistas e conta com a interpretação de Margaret Leng Tan no papel de John Cage, Joana Gama no papel Hans Otte e do próprio Ingo Ahmels no papel de Erik Satie.

Questionada sobre o que podemos esperar desta ode a Hans, a pianista e curadora do festival conta-nos que, "a exposição é um convite à paragem, é para ser sentida, devagar, para escutar; nas conferências falaremos sobre Hans Otte de um ponto de vista mais pessoal, no fundo para falar sobre o porquê de a sua obra ser como é, sendo que na conferência em Lisboa, no dia 4 de Novembro,  contaremos com a presença de Margaret Leng Tan que partilhará a sua experiência com John Cage e Ingo Ahmels, que trabalhou de perto com Hans Otte. Do ponto de vista pessoal, o concerto na Culturgest é imperdível já que partilharei o palco com Margaret Leng Tan, uma pianista que muito admiro, há muitos anos. Nesse concerto - em que Margaret Leng Tan interpretará excertos da obra seminal de John Cage "Sonatas e Interlúdios" para piano preparado e eu interpretarei peças de Hans Otte - ouvir-se-á a música dos dois compositores de forma alternada, um simbolizando o Oriente e outro o Ocidente, num "concerto para dois pianos para sala de piano preparada", idealizado e supervisionado por Ingo Ahmels. A peça de teatro musical J-CHOES, j'ai faim é outro momento imperdível por reunir, em placo, um trio que muito admiro: John Cage, Hans Otte e Erik Satie que serão interpretados, respectivamente por Margaret leng Tan, por mim e por Ingo Ahmels."

Festival Hans Otte : Sound of Sounds propõe assim "um mergulho na obra multiforme de Hans Otte, onde todos os eventos se complementam", por isso, a pianista portuguesa e curadora do festival deixa o convite a todos os amantes e curiosos do trabalho de Hans, "a irem aos diferentes eventos para que, dessa forma, possam sentir a obra deste compositor de formas diferentes."

Programação completa, aqui.  

Retrato de Hans Otte

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia da coleção privada da família de Hans Otte

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