Em pleno Oceano Atlântico, numa baía de águas cristalinas e areias douradas – o que, diga-se de passagem, é particularmente invulgar em arquipélagos de origem vulcânica como os Açores –  um pequeno palco, a metros do mar, vira, todos os anos, uma ilha do avesso. Nós estivemos lá pela décima vez e, depois de tantos e bons artistas terem por lá passado, estamos em posição privilegiada para afirmar, felizes, que a Maré de Agosto continua mágica como no primeiro dia.

Este ano, como para qualquer micaelense que se preze, o nosso festival começou ainda no ferry boat que liga a nossa ilha de São Miguel à ilha de Santa Maria. Naquela viagem de quase quatro horas, as incessantes gargalhadas e o burburinho de fundo comprovavam o entusiasmo de toda aquela rapaziada, ansiosa por um fim de semana longe de casa, pronta para dormir mal, festejar muito e conhecer boa música. Nós, que já não vamos propriamente para novos, contivemo-nos, aproveitamos para contemplar o mar e esquivamo-nos da festa náutica que corria mais para os lados do bar. Estávamos a guardar todas as fichas para aqueles três dias de verdadeira descoberta musical.

Já em Santa Maria, a viagem de carro para a Praia Formosa durou apenas 15 minutos e à chegada, enquanto passávamos de carro por aquela estrada em cima da praia plantada, ouvimos gritar por nós. Os nossos amigos marienses davam-nos já as boas vindas e lembravam-nos aquilo de que é feita a Maré. Amigos que conhecemos em outras edições e que todos os anos nos aguardam com um sorriso na cara, prontos para serem os orgulhos anfitriões do mais antigo festival do país em atividade consecutiva.

                                                                                                                            Praia Formosa © Roberto Sousa Moura

O parque de campismo, pequeno de mais para tanto festivaleiro, continua a ser o ponto de encontro de toda a gente que vem das outras ilhas do arquipélago. Nos nossos primeiros anos, era certo encontrar todos os colegas do liceu. Agora, já dinossauros nestas andanças, é difícil encontrar a nossa “malta”, mas ainda se descobrem uns bons resistentes. Na praia, tudo se mantém. As águas cristalinas continuam a temperaturas de fazer inveja a qualquer paraíso tropical, as areias continuam douradas e continuamos a ouvir o teste de som a decorrer no palco principal, lá bem ao fundo, enquanto nos deixamos levar pelas pacíficas ondas e contemplamos a verdejante encosta que encorpa toda aquela magnífica baía.

Se o dia é para aproveitar a praia e descobrir a ilha de Santa Maria, onde se destacam as suas singulares baías da Maia, São Lourenço, Anjos e Praia Formosa, a noite só tem um propósito – descobrir a seleção musical preparada pela Associação Cultural Maré de Agosto. A abrir a Maré, a noite foi de Yarah Bravo e Octa Push. De turbante azul e vestes floridas, a bela Yarah cativou-nos com um hip hop de língua afiada, cheio de soul e com uma musicalidade ímpar. Chegou da Suécia e veio para espalhar amor em Santa Maria, percebeu que veio para um festival especial, falou português com o público e, no final, já não queria deixar a Praia Formosa – como a percebemos!

Yarah Bravo © Derrick Sousa

A fechar a noite, depois dos ritmos africanos e da boa disposição contagiante de Djeli Moussa Condé e do reggae irrepreensível dos Groundation, os Octa Push vieram com tudo. Apesar da tramada hora tardia e do êxodo considerável do público, os resistentes que fizeram questão de permanecer na plateia para o mar voltada não se arrependeram. Com uma projeção simplesmente viciante, o duo de Lisboa, acompanhado em palco pelo baixista Ary, trouxe, virtualmente, um mundo de artistas à Praia Formosa. Cachupa Psicadélica acompanhou a viagem de “Gaia Cósmica”, Bruno Show levou-nos a dançar com “Mana”, Cátia Sá hipnotizou-nos com “Bárbara” e Tó Trips fez o que melhor sabe em “Trips Makakas”. O ritmo alucinante fez-nos voar até àquele último “Françoise Hardy” inesquecível.

A segunda noite de Maré de Agosto podia dar em livro. Podíamos escrever sem parar do fado sentido de Camané ou da felicidade que emana dos ritmos africanos de Orlando Julius & The Heliocentrics, um septuagenário nigeriano cheio de vida, mas vamos antes dar o destaque merecido aos Ronda da Madrugada. Para quem nunca veio aos Açores, ou nunca esteve na Maré de Agosto, talvez nunca tenha ouvido falar desta banda de folk mariense. Mas engane-se quem pensa que o notável trabalho dos Ronda em estúdio reflete a sua energia, a sua entrega e a sua força em palco. A comemorar 20 anos, estão fartos de pisar o palco da Maré – são mesmo das poucas bandas que o pisaram por mais do que uma vez –, mas conseguem sempre surpreender-nos. A riqueza da sua música, a vida, a boa disposição e a capacidade de pôr uma plateia completamente lotada a cantar como se não houvesse amanhã dão-nos a certeza que estes Ronda fazem de qualquer palco a sua casa, que podem levar a alma açoriana a qualquer parte do mundo.

Ronda da Madrugada © Derrick Sousa

Teimava em passar a correr, a nossa Maré de Agosto. A última noite guardava aquele que poderia perfeitamente ser um cartão de visita para o festival mais festival dos Açores – world music, claro!  “A viagem à volta do mundo” chegou à Praia Formosa com os Terrakota, com uma grande família em palco, divida entre os mais variados instrumentos e com uma vida inigualável. Um espetáculo de variedade, de sotaques e dialetos, em conversa aberta com o público. A felicidade que vinha do palco contagiava quem tivesse a sorte de ali estar e as palavras de Júnior não podiam ser mais verdadeiras – “festival de amor, muito amor e muita vontade”.

Dubioza Kolektiv foi, sem dúvida, um dos concertos mais loucos que já vimos na Maré de Agosto. Loucura total com música dos Balcãs a fechar o nosso festival. Em palco, Bósnia-Herzegovina, Sérvia e Croácia representadas, com 7 músicos e um técnico de som muito especial, todos equipados de amarelo e preto, feitos equipa de futebol. Coreografias em palco – que incluíam o tal técnico de som -, coreografias com o público, interação em bom português, um humor irresistível e mais de duas horas aos saltos são a certeza que nem tão cedo veremos algo igual. No final, depois de uma entrega quase absurda por parte dos Dubioza, o muito público presente decidiu retribuir cantando “A Portuguesa” – não deu para saltar, mas voltaram com certeza felizes para os Balcãs.

Dubioza Kolektiv © Derrick Sousa

Há 34 anos, quando se organizou aquele encontro de músicos açorianos, ninguém antevia a importância do que se estava a construir na ilha de Santa Maria. Numa simples folha de papel, a tinta preta, liam-se os nomes dos artistas que iriam animar aquela noite de agosto, no que viria a ser a rampa de lançamento para a primeira edição do Festival Maré de Agosto, um festival que até hoje nunca deixou de acontecer, nunca deixou de trazer o mundo à pequena ilha de 5000 habitantes. Aqui a música do mundo funciona como um verdadeiro propulsor para a valorização de uma terra, para a valorização de um povo muito especial. A amizade e entreajuda sobrepõem-se a tudo o resto e, só assim, estão criadas todas condições para emergir o verdadeiro espírito de festival, onde, incrivelmente, toda a gente contribui de forma voluntária – até a própria organização.

Pepe Brix, diretor artístico do festival, dizia a dada altura, em entrevista na tão especial Rádio Clube Asas do Atlântico, que a Maré não tem muito por onde crescer. As limitações inerentes à insularidade vivida na Ilha do Sol não o permitem, seja pelo alojamento limitado ou pela difícil capacidade de resposta a um público maior e mais exigente. Nós não podíamos ficar mais felizes, até porque este festival quer-se exatamente como está – confortável, próximo, humano e com alma. Único.

Texto de Manuel Silva, do blog Meia de Rock
Os correspondentes Gerador no centro do Atlântico
Fotografia de Capa de Derrick Sousa