Em 2019, o Festival Materiais Diversos celebra, de 27 de setembro a 5 de outubro, a sua 10.ª edição com um vasto programa de actividades, promovendo uma vez mais o encontro entre as artes performativas contemporâneas e diferentes comunidades, vozes e imaginários locais.

Ao todo, o festival, que decorre em Minde, Cartaxo e Alcanena, acolhe 17 espectáculos, cinco em estreia absoluta e quatro em estreia nacional, envolvendo mais de 150 artistas nacionais e internacionais.

Nesta que será a sua primeira edição bienal, depois de nove edições anuais, Elisabete Paiva, diretora artística da Materiais Diversos destacou a “enorme alegria de ver um festival completar dez anos”, tendo em conta que este se realiza em “localidades que não têm uma actividade profissional na área da cultura regular”, nomeadamente no que toca às artes contemporâneas.

Uma programação feita de “encontros comprometidos com o lugar e as pessoas”
A apresentação desta edição comemorativa decorreu no Museu da Aguarela Roque Gameiro, em Minde, onde a responsável fez um balanço das edições subsequentes do festival e do novo modelo que permitiu dedicar mais tempo aos projetos, designadamente no apoio à criação artística, através da bolsa “Filhos do Meio”, para artistas do distrito de Santarém, e no trabalho com os diferentes públicos.

“Ao fim de dez anos é importante pensar porque é que estamos aqui. É por este encontro muito comprometido com o lugar e as pessoas. Há esta reclamação de mais tempo para trabalhar e mais tempo para reflectir e é com isto que queremos mais condições de encontro entre os artistas e os públicos”, sublinha.

Elisabete Paiva, diretora artística da Materiais Diversos, durante a apresentação do festival. Fotografia de Luísa Baeta

No mesmo espaço onde decorreu a apresentação, decorre também o espetáculo de arranque do festival, As Far as My Fingertips Take Me, da premiada artista libanesa Tania el Khoury – na sua primeira performance em Portugal -, que questiona “a atual condição dos refugiados na Europa e a sua relação com os europeus”.

Também relacionado com o tema das migrações e a crise dos refugiados, é apresentado o espectáculo Pleasant Island, de Silke Huysmans e Hannes Dereere, sobre Nauru, a pequena ilha do Pacífico outrora próspera e que atualmente sobrevive da compensação por receber refugiados da Austrália.

O espetáculo vai acontecer no dia 4 de outubro, no Centro Cultural do Cartaxo, cidade que receberá, no dia seguinte, ao final da tarde, na praça de touros, mais uma estreia nacional, o espetáculo de dança Don’t be Frightened of Turning the Page, do criador italiano Alessandro Sciarroni, que recebeu este ano o Leão de Ouro da Bienal de Veneza, pela sua obra coreográfica.

Além da sua apresentação, Sciarroni vai estar também com Rui Pina Coelho e Gustavo Vicente a dirigir a Escola de Verão do Festival – intitulada Na Práctica -, destinada a artistas e investigadores.

Artistas portugueses em destaque na programação do festival
Na programação de artistas nacionais, destaque para a estreia absoluta de Jogo de Lençóis de Lígia Soares, a ter lugar na Casa da Memória, em Minde, nos dias 28 e 29 de setembro. Esta performance nasceu a partir de um convite feito à artista, que recolheu depoimentos de pessoas que, ao longo das 10 edições do festival, acolheram artistas e equipas técnicas nas suas casas.

A mais recente criação da companhia Teatro do Vestido, Viagem a Portugal, com texto e direção de Joana Craveiro, estreia-se no mesmo dia (também com repetição no dia seguinte), no auditório do Sindicato dos Curtumes, em Alcanena, vila que receberá, a 27 e 28 de setembro, no Cineteatro S. Pedro, outra estreia no teatro, A Menor Língua do Mundo, sobre línguas minoritárias (com destaque para o dialeto local, minderico).

Destaque ainda para Selva Coragem, uma acção participativa e instalação do Teatro do Frio para visitar de 1 a 5 de outubro na Galeria Municipal do Cartaxo. Trata-se de uma criação interdisciplinar, que articula arte sonora, escrita dramatúrgica e performance com perspectivas de sustentabilidade, biodiversidade e qualidade de vida no tecido urbano.

Na dança, destaque para as estreias absolutas de Mistério da Cultura, de David Marques e Partilhas/Exchanges de Filipa Francisco, ambas no primeiro dia do festival, e em Minde: a primeira na Fábrica da Cultura, a segunda no cineteatro Rogério Venâncio.

A programação de dança inclui ainda a apresentação de Margem (na foto), do coreógrafo Victor Hugo Pontes, vencedor este ano do prémio de Melhor Coreografia da Sociedade Portuguesa de Autores, que terá lugar, a 3 de outubro, no Centro Cultural do Cartaxo.

A encerrar o festival, na noite de 5 de outubro, no Centro Cultural do Cartaxo, a coreógrafa e bailarina Ana Rita Teodoro apresenta FoFo, espetáculo que, na fase de criação, incluiu duas oficinas de pesquisa com adolescentes, no Cartaxo e na escola secundária de Alcanena.

Uma programação orientada para o público mais jovem
Tal como já vem sendo hábito, o Festival Materiais Diversos apresenta também uma seleção de espetáculos programados a pensar no público mais novo, com sessões para escolas, durante a semana, e para famílias, nos dois fins-de-semana em que decorre.

Neste sentido, Integram esta programação a peça Juana Azurduy, de Cláudia Gaiolas, sobre a “mulher-mãe-guerreira” que lutou pela independência da Bolívia, uma das quatro peças que teatro que Cláudia Gaiolas construiu a partir da coleção de livros “Antiprincesas”, e que vai estar na Mata de Minde no dia 29 de setembro.

A peça Mesa, de Catarina Requeijo, a partir do livro “Uma mesa é uma mesa. Será?”, no dia 1 de outubro, no cineteatro São Pedro, em Alcanena, e o espetáculo de dança Sublinhar, de Marta Cerqueira, a 04 e 05 de outubro, na Sociedade Filarmónica Incrível Pontevelense (Cartaxo), completam a programação para crianças.

Noites Longas” programadas pelo Bons Sons
Por outro lado, o cartaz do festival apresenta ainda o ciclo “Noites Longas”, programadas pelo Bons Sons, que conta com um concerto de Manel Cruz, que apresentará “algumas músicas que o celebrizaram” e outras do seu novo disco Vida Nova, à Fábrica da Cultura de Minde, no dia 28 de setembro, e a banda They Must Be Crazy ao Mercado Municipal do Cartaxo, a 4 de outubro.

Além destes concertos, o festival arranca com uma festa de abertura no dia 27 de setembro, no Edifício António Alves Raposo, em Minde, animada pela dupla Dj SlowFlow e uma festa de encerramento no dia 5 de outubro com Dj Maboku, no Mercado Municipal do Cartaxo.

Exposição sobre a história da dança em Portugal e debate sobre as artes performativas completam a programação
Mas nem só de propostas artísticas e musicais se faz a 10.ª edição do Festival Materiais Diversos. Assim sendo, de 4 a 20 de outubro, no Centro Cultural do Cartaxo,  estará patente a exposição “Para uma Timeline a Haver – Genealogias da Dança Enquanto Prática Artística em Portugal”, de João dos Santos Martins, Ana Bigotte Vieira e Carlos Manuel Oliveira.

Já no dia 28 de setembro, realiza-se o  debate “Entre a Urbe e a Serra”, moderado pelo investigador e programador cultural António Pinto Ribeiro com Elisabete Paiva e Tiago Guedes, numa conversa onde se perspetivam a história da dança, das artes performativas e dos novos centros de criação, programação e divulgação, assim como a experiência do Festival Materiais Diversos.

Estas e outras reflexões vão fazer parte de um livro que a Materiais Diversos está a preparar a propósito dos 10 anos do Festival, a ser publicado nos primeiros meses de 2020. Para este projeto editorial, foram convidados pensadores, programadores e artistas para desenvolverem conversas, textos e ensaios visuais.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Bruno Simão (Margem, de Victor Hugo Pontes)

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