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Festival MENTAL: “Pôr o dedo na ferida, mas descontraidamente”

Ana Pinto Coelho inspirou-se num festival escocês para criar o Festival MENTAL em Portugal. Estreado em 2017, este evento tem-se desdobrado em diversas áreas artísticas e apresentado uma programação que inclui atividades para todas as gerações e convida profissionais, não só da área cultural, mas também das ciências sociais e da saúde. No dia 12 de maio deste ano, começou a sua sétima edição que durou até ao dia 27 do mesmo mês. Marcámos presença em alguns eventos deste Festival e entrevistámos alguns dos oradores e artistas convidados. Estivemos também à conversa com a fundadora Ana Pinto Coelho, que nos revelou como “se promove a saúde mental através da cultura e das artes”.

Texto de Mariana Moniz

Festival MENTAL 2023. Créditos: Festival Mental

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Recuamos até ao dia 19 de maio de 2023. O relógio marca 20h15 quando entramos no átrio do Cinema São Jorge, localizado na Avenida da Liberdade. Daqui a quinze minutos começa uma das M-Talks 4All, onde se irá debater sobre “Desporto e Saúde Mental”, sob a moderação da jornalista Paula Cardoso. Entre os oradores encontra-se a atleta de alta competição de patinagem artística Mariana Almeida, o médico psiquiatra Rui Correia, o professor e psicólogo do desporto Pedro Almeida e o jogador internacional da Seleção Portuguesa de Futebol Nuno Gomes.

As M-Talks 4All são apenas uma das iniciativas que fazem parte da programação do Festival MENTAL. Para além desta, são apresentadas mostras de cinema e de teatro, debates, espetáculos de dança, tertúlias literárias, concertos e atividades para os mais novos. Este ano, assistimos à sua sétima edição que arrancou no dia 12 de maio no Espaço Atmosfera M.

Neste terceiro dia de Festival, preparamo-nos para entrar na Sala 2 do Cinema São Jorge. Ana Pinto Coelho, diretora e fundadora do Festival, já se encontra perto do palco para apresentar os oradores e o começo da conversa. Pouco a pouco, várias pessoas, das mais variadas áreas artísticas e profissionais, entram na sala e juntam-se, ocupando os lugares disponíveis.

Minutos depois, o silêncio instala-se para a apresentação do trailer da VII edição do Festival MENTAL, onde se glorificam os seus três principais focos: Cinema, Artes e Informação.

Trailer Festival MENTAL 2023

O vídeo de um minuto e dois segundos termina e soam os aplausos. De seguida, Ana Coelho dirige-se para junto do microfone e inicia o seu discurso. «Sejam bem-vindos e muito obrigada pela vossa presença. Hoje falaremos de saúde mental na área do desporto. Quero agradecer também aos nossos oradores, que chamo agora ao palco».

Um a um, e à medida que a diretora profere o seu nome, os palestrantes sobem para a plataforma e sentam-se lado a lado, encarando o público.

Que comece.

Da Escócia para Portugal

O Scottish Mental Health Arts and Film Festival (festival que decorre na cidade de Edimburgo) foi a grande inspiração para Ana Pinto Coelho decidir criar um evento que se dedicasse à saúde mental no nosso país. Um festival que combinasse as diversas áreas onde tinha trabalhado e que promovesse a saúde mental através das artes e da cultura.

Ana Pinto Coelho trabalhou, durante 24 anos, na área da cultura e em vários projetos empresariais. Foi também road manager, manager de artistas e produtora de espetáculos e programas de televisão. Após esse período, decidiu investir na área das dependências químicas e comportamentais e acabou por se formar como conselheira dessa mesma área, na Universidade de Oxford.

“Sem o adivinhar, todo esse percurso deu-me armas e bagagem para assumir em nome próprio um empreendimento tão complexo quanto a organização de um festival sobre um tema que ainda é um estigma social”, pode ler-se na brochura da primeira edição do Festival.

Ana Pinto Coelho. Fotografia da cortesia do Festival MENTAL

Em outubro de 2016, a nossa entrevistada regressou de uma viagem à Escócia e apresentou aos seus colegas, e amigos, João Gata e Maria José Peyroteo, a ideia daquele que viria a ser o futuro Festival MENTAL. “O foco era a prevenção e a promoção da saúde mental, mas também o combate à iliteracia relativamente a este tema”, esclarece. E assim se manteve até hoje.

Em entrevista ao Gerador, conta-nos que chegou mesmo a voltar à Escócia para falar com a curadora do Scottish Mental Health Arts and Film Festival e saber se o mesmo trazia verdadeiros resultados para a sociedade escocesa ou se seria apenas uma ideia que Ana “tinha considerado fantástica”. “Percebi que sim, mas que era preciso ter uma grande persistência”, revela.

Já com o seu evento definido, e de forma a unir os projetos culturais com a comunicação empresarial, Ana Pinto Coelho regressou para Portugal e começou a idealizar a primeira edição do Festival MENTAL. A estreia foi a 9 de novembro de 2017. “Senti não só uma enorme vontade e entusiasmo, mas quase que um dever de o fazer. E foi assim que tudo começou”.

Primeira edição do Festival MENTAL em 2017. Fotografia via website do Festival
Primeira edição do Festival MENTAL em 2017. Fotografia via website do Festival

Para a oficialização deste evento, Ana pediu ajuda a contatos que já tinha e a outros parceiros, como a Câmara Municipal de Lisboa, a Ordem dos Psicólogos e o Ministério da Saúde, onde se encontrava o outrora conhecido Programa Nacional para a Saúde Mental (atual Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental). “As portas abriram-se todas. Não em termos de investimentos, mas de aceitação da ideia. Hoje devo tudo a esse núcleo de parceiros original. Ao longo de sete anos, continuam a aparecer nas inaugurações e sentem orgulho, sentem-se como uma parte integrante do Festival. E são. Acreditaram numa pessoa que apareceu ali, sozinha, com uma mera ideia”.

A primeira edição do Festival decorreu até ao dia 12 de novembro de 2017. Foram discutidos temas como a síndrome de borderline, alzheimer, alcoolismo e prevenção da saúde mental. As M-Talks 4All surgiram logo nesse ano, com a estreia do Festival, sendo que foi estipulado que uma delas teria sempre que ver com algum tipo de dependência. Nas palavras de Ana Pinto Coelho, “as dependências também fazem parte da saúde mental, logo deviam estar debaixo do guarda-chuva da Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental ao invés de terem um organismo [SICAD - Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências] à parte, com tudo autonomizado”.

Para abordar estas temáticas, foram convidados oradores de várias áreas científicas e pedagógicas, como a psicóloga Teresa Lobato Faria, o neuropsicólogo Nuno Colaço, o investigador Hilson Cunha Filho, a diretora da Associação Alzheimer Portugal, Ana Jacinto e muitos outros nomes de relevância para a área da saúde mental. Já a programação decorreu no Cinema Amoreiras, no Auditório da biblioteca Municipal Orlando Ribeiro (ABMOR) e no Auditório Agostinho da Silva da Universidade Lusófona.

M-Talk da primeira edição do Festival MENTAL em 2017. Fotografia via website do Festival

Relativamente à área cultural, o MENTAL começou “com o coração no cinema”. Desta forma, a organização do Festival decidiu que fossem exibidos filmes para acompanhar os diversos temas abordados ao longo das edições. Na edição de 2017, foram apresentados os filmes “Divertida-mente”, “Vida Interrompida”, “16 anos de Álcool” e “O meu nome é Alice”.  De modo a realizar um mostra com curtas e médias metragens internacionais (M-Cinema), foram também exibidos alguns documentários premiados pelo IFF –  International Film Festival 2017, tais como “The Waves”, “HUM”, “Vivian, Vivian” e “Muletas”.


Em 2018, a segunda edição do Festival MENTAL estendeu-se até à cidade do Porto e decorreu entre os dias 16 e 30 de novembro. A programação aumentou e diversificou-se, “abrindo palco a outras manifestações artísticas” - neste caso o teatro, a dança e a performance - e à literatura “com a edição do primeiro livro com chancela do Mental”: As Aventuras de Mr. XA Trilogia de João Gata.

João Gata trabalha junto de Ana Pinto Coelho desde o começo do Festival, sendo o responsável pela imagem e pelos audiovisuais do mesmo. Conta-nos que “já teve várias vidas”, tendo sido publicitário, músico e trabalhado em cinema. Atualmente, é produtor e escreve num blogue sobre tecnologia.

Ana Coelho chama-o de “multidisciplinar”, pois é João que trata de toda a edição e comunicação do MENTAL, usando apenas um computador em casa. “Só tens de ter um computador e um ecrã muito bom”, explica-nos João Gata na nossa entrevista. “O resto é cabeça e saber mexer com as ferramentas que estão cada vez mais evoluídas e mais fáceis”.

João Gata. Fotografia da cortesia do Festival MENTAL

Recorda-se do primeiro obstáculo que experienciou com Ana: o nome do festival. “Eu gostava, mas a Ana achava que podia ser perigoso. A verdade é que, no início, houve algumas entidades que não percebiam o porquê do nome “Mental”. Achavam muito agressivo e direto”.

Mas MENTAL ficou e o logótipo acabou por ser desenhado por duas designers de uma agência de publicidade escocesa. O mesmo mantém-se há sete anos, tendo sofrido apenas alguns ajustes ao longo dos tempos.

Primeiro logótipo do Festival MENTAL. Imagem da cortesia do Festival MENTAL

Todos os anos, o Festival apresenta uma palete de cores nova e adaptável ao design. Regendo-se por esta ideia, João Gata reforça que todos os elementos visuais e audiovisuais devem ser “coloridos para lutarem conta o cinzentismo”. Diz-nos ainda que a primeira edição do Festival foi apresentada com a cor verde, pois essa é “habitualmente conhecida como a cor da saúde mental”. “A cor dá-te uma imagem boa, bem-disposta. Vens assistir a uma discussão tão complicada, em que as pessoas estão a falar de coisas tão complexas, mas estás a ver um vídeo colorido e a mexer-se. Parece que não, mas pacifica. Essa também é a nossa função”.

Sendo a saúde mental um tema “hostil”, foi difícil suavizar o estigma nos primeiros anos do Festival. Atualmente, esta estigmatização diminuiu, ainda que não tenha sido completamente aniquilada. Ana Pinto Coelho reforça a importância de existir “um evento e um espaço neutro” que torne pública, acessível e esclarecedora esta realidade. “Os espaços artísticos, por norma, são espaços diplomáticos, são espaços onde as pessoas vão por lazer, habitualmente. De forma a “desestigmatizar” as coisas, não quis ir para sítios institucionais ou formais onde já se fala destes temas. Queria um espaço absolutamente informal, onde as pessoas vão por lazer e onde vão poder começar a ouvir falar sobre saúde mental. É pôr o dedo na ferida, mas descontraidamente”.


Em 2019, a terceira edição do MENTAL apostou ainda mais “na diversidade de eventos e áreas artísticas”, cobrindo, como nas duas edições anteriores, as áreas de cinema, dança, teatro e literatura. A acrescentar a estas iniciativas, destacou-se a programação para o Mental Júnior que se dividiu em eventos diferentes para duas faixas etárias, a dos mais pequenos e a dos jovens, e a grande estreia de “My Story, My Song” no âmbito da vertente artística da música.

Na nossa entrevista, Ana Coelho destaca também a arte da dança, sendo esta “uma expressão artística diferente” das demais. Desde o começo do Festival que foi estabelecido um acordo com o Núcleo de Dança e Terapia do Hospital Psiquiátrico de Lisboa, o que resultou na apresentação de várias performances de pessoas com doença mental. “É um espetáculo que esgota normalmente, porque ninguém está à espera”, explica a diretora. “Depois da apresentação, está a sala inteira a aplaudir. Para os doentes é bom. Eles ficam mesmo felizes por entrarem aqui e mostrarem o seu trabalho”. É desta forma que Ana acredita que o público do MENTAL se pode tornar, cada vez mais, anti estigma por ver “um espetáculo bonito feito por pessoas com doença mental”.

Performance "2" do Núcleo Dança Terapia. Edição Festival Mental 2023. Fotografia via Facebook do Núcleo Dança Terapia
Performance "2" do Núcleo Dança Terapia. Edição Festival Mental 2023. Fotografia via Facebook do Núcleo Dança Terapia

Dois anos depois, em 2021, o Festival estendeu novamente a sua programação a outras localidades do país para além de Lisboa. Funchal, Ponta Delgada e Castelo de Vide foram as regiões selecionadas. Assim nasceu o conceito do Mental Itinerante. Para além disso, destacou-se ainda o M-Debate onde foi abordado o tema da “Saúde digital e Saúde Mental”. Tratou-se de uma sessão de debate livre e aberta ao público, onde os profissionais não eram os protagonistas. Esta iniciativa mantém-se ativa até aos dias de hoje.


Desde a primeira edição que muita coisa mudou no Festival MENTAL, mas, para Ana Pinto Coelho, o que mudou mais foi a sua persistência que se tornou cada vez mais forte. “Este é um Festival que se prepara durante o ano inteiro! Foi um caminho difícil de percorrer. Começámos num auditório, depois fomos para o Cinema City de Alvalade – o que foi muito importante para nós, pois apresentámos um festival, que é de cinema, numa sala de cinema - e depois, graças à EGEAC (Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural), passámos então para o Cinema São Jorge. Foi uma bênção. Finalmente chegámos ao patamar dos outros festivais, mas falando de saúde mental”.

A VII edição do Festival MENTAL

«Ao longo da carreira, diria que um dos temas centrais para os atletas de alta competição é a questão da ansiedade. Ansiedade de desempenho e não tanto ansiedade generalizada. É um problema com o qual, praticamente todos os atletas se confrontam ao longo da sua carreira, tal como as questões de confiança. Tudo isto pode causar impacto no desempenho e nas relações interpessoais», ouvimos o psicólogo Pedro Almeida explicar durante a M-Talk a que assistimos sobre “Desporto e Saúde Mental”.

Seguem-se vários momentos de discussão acerca do tema, destacando-se a falta de acesso aos profissionais de saúde mental. «Temos acesso aos fisioterapeutas, mas não temos acesso a psicólogos. Temos de ser acompanhados externamente», relata a atleta de 19 anos, Mariana Almeida. «Felizmente, e cada vez mais, essa procura está a aumentar, mas não é algo a que tenhamos acesso facilmente. Eu, enquanto estudante de psicologia e atleta de alta competição, considero que é tão importante ter um psicólogo desportivo como um treinador».

M-Talk de "Desporto e Saúde Mental" na VII edição do Festival MENTAL

Para além da M-Talk acerca do Desporto, a sétima edição do Festival MENTAL destaca-se por abordar também o tema do “Trabalho e Saúde Mental” e das “Demências” nos dias 20 e 21 de maio, respetivamente.

“Sabendo da extraordinária importância que têm as opiniões de profissionais de áreas tão distintas que vão do jornalismo às artes, com maior ênfase nos profissionais de saúde mental, a equipa do Festival MENTAL propõe uma breve conversa diária que pode ajudar a esclarecer quem está em casa”, pode ler-se em nota de imprensa. Ainda assim, ao longo dos últimos anos, a organização do evento procurou também acolher profissionais das áreas das ciências sociais e humanas, e não somente da área da saúde.

Desde a primeira edição que os painéis do Festival são sempre moderados por um jornalista, uma vez que Ana Pinto Coelho reconheceu o papel da comunicação social para conseguir promover o seu festival. Outro cuidado que a diretora procura ter aquando da seleção dos oradores, é a diferença de género entre os mesmos. “Infelizmente, como em tudo em Portugal, ainda temos uma preponderância masculina em praticamente tudo, sobretudo em coisas de poder. Hoje falamos de desporto, por exemplo. O desporto rei em quase todo o mundo é de mulheres? Não, não é”, remata.


No dia 18 de maio foi debatido o tema da “Saúde Mental e Inteligência Artificial” na sessão do M-Debate e Ana Pinto Coelho fundamenta esta escolha com a “ciberdependência e a desconexão da pessoa consigo própria e com a natureza” que tem vindo a observar ao longo dos anos.

M-Debate sobre "Saúde Mental e Inteligência Artificial" na VII edição do Festival MENTAL
M-Debate sobre "Saúde Mental e Inteligência Artificial" na VII edição do Festival MENTAL

Com base neste pressuposto, está prevista a realização do Mental Júnior e a inauguração do Mental Natura no Parque da Quinta das Conchas e dos Lilases que, por enquanto, permanece sem uma data definida. Para o primeiro, os mais novos são convidados “para um Lugar de Encontro onde vão viver uma experiência colaborativa através da expressão artística”. “Lugares de Encontro” é um programa de atividades que combina “a relação com a natureza, arte, corpo, storytelling e bem-estar, com base nas ferramentas do projeto “Heartland, um projeto ERASMUS+ dedicado ao desenvolvimento da resiliência na prevenção do burnout”.

Já no que diz respeito à estreia do Mental Natura, através desta iniciativa dedicada aos mais velhos e coorganizada com a associação Pedalar sem Idade Portugal, será possível “envolver voluntários nas comunidades por forma a promover a participação ativa destes na resolução do problema do isolamento social e solidão, motivando o crescimento de uma atitude de cidadania ativa e participativa”.


Assim que a M-Talk de “Desporto e Saúde Mental” termina, levantamo-nos para receber os oradores com um último aplauso. Entre cumprimentos, despedidas e trocas de contactos, muitos saem da sala e dirigem-se para a Sala 3 do Cinema São Jorge onde será exibido o filme “O Sonho de Lara” de Lukas Dhont (2018).


Também na Sala 2 do Cinema São Jorge, às 20h30 do dia 21 de maio, e moderada pelo jornalista Paulo Bastos, decorre a M-Talk dedicada às “Demências”. Entre os oradores encontra-se o editor de vídeo Francisco Costa, a psicóloga clínica Isabel Sousa, o médico psiquiatra Rui Albuquerque e o artista Fernando Terra que disponibilizou alguns minutos para conversar com o Gerador sobre o seu projeto “Rugas de Riso” e a urgência em se abordar este tema.

Fernando Terra. Fotografia da cortesia do Festival MENTAL

Fernando Terra fundou o “Rugas de Riso” em 2012, na Mansão Santa Maria de Marvila, em Lisboa. Trata-se de um programa que estuda e desenvolve técnicas de intervenção através da arte do palhaço “a fim de criar uma conexão com pessoas com demência” e de “resignificar o processo de finitude dos pacientes em cuidados paliativo”. O objetivo é “promover o bem-estar, a alegria e a poesia, sem infantilizar o idoso”. “Buscamos utilizar a técnica do palhaço para estimular a memória em todos os seus níveis, complementando o trabalho já realizado nos lares”, explica-nos o artista que se dedica à arte da palhaçaria e é também fundador da Associação Cultural MELECA.

Para Fernando Terra, a arte do palhaço consiste na “amplificação” das nossas maiores virtudes e vulnerabilidades. “O palhaço é o melhor que o artista tem e que foi reprimido ao longo da sua vida. Porém, como em todas as áreas, o palhaço que não tem formação acaba por muitas vezes meter os pés pelas mãos e, quando falamos de ambientes formais, esse jogo clownesco poderá sempre ser perigoso”.

Quando questionado sobre a importância da arte do palhaço no contexto das demências, o artista explica que “o universo do paciente com demência” apresenta vários aspetos em comum com a palhaçaria. “O palhaço quer sempre ser aceite. O ser-humano, estando numa condição diferente/limitada, consciente ou não disso, também quer ser aceite. O idoso só quer ser útil. O palhaço também. O palhaço vive o momento presente, o agora. A pessoa com demência vive o seu próprio “agora” muitas vezes. O que o palhaço deve fazer para intervir nesses momentos é adequar-se ao “agora” do paciente e organizar todo aquele caos”.

Programa "Rugas de Riso". Fotografia via Facebook do "Rugas de Riso"

Conta-nos que “não gosta” de usar o termo “ajudar os pacientes”, preferindo antes afirmar que “existe uma troca verdadeira” de experiências e emoções. Para tal, os palhaços que visitam os lares, procuram transformar o ambiente através da música, da magia, da dança, do malabarismo, entre outras artes. Desta forma, estimulam a mente, a memória e a capacidade motora de cada paciente que encontram.

Na opinião de Fernando Terra, “a quase ausência de literacia e de espaços de discussão”, tornam o MENTAL “numa das iniciativas mais nobres e importantes no esclarecimento sobre a saúde mental”. Para o artista, programar um evento desta dimensão deve ser mesmo considerado “um ato louvável”.

A M-Talk dedicada às “Demências” foi, "segundo as palavras do artista, "uma dinâmica perfeita, posso dizer com segurança. “Recebemos um mediador (Paulo Bastos) que conseguiu realmente promover um ping-pong entre nós, que fez a conversa fluir. Até parecia que já nos conhecíamos de tão à vontade que nos sentimos”.

M-Talk de "Demências" na VII edição do Festival MENTAL

Nesta M-Talk, “o doutor Rui Albuquerque deu o seu olhar clínico e analítico sobre as fases da demência e a importância de dar um suporte para diminuir o sofrimento do paciente. Já a psicóloga Isabel Sousa, trouxe-nos elementos importantes do ponto de vista relacional entre os pacientes e os que os rodeiam, as dificuldades na adequação e a sobrecarga de quem está a tempo inteiro ou parcial como cuidador”.

De um ponto de vista cinematográfico, o editor de vídeo Francisco Costa falou sobre a relação do filme exibido no dia, “O Pai”, com a ideia de “tempo”, que muitas vezes “se mistura e se confunde na realidade dos pacientes com demência”. Fernando Terra, enquanto palhaço que atua há mais de 25 anos junto de pessoas vulneráveis e/ou idosas, levou para o debate “a perspetiva de alguém que traz um estímulo diferente ao paciente, que, sem usar o deboche ou a infantilização, consegue apontar em cada encontro o que há de bonito ou até mesmo de poético no interior de cada um”.

No fim da nossa conversa, esclarece-nos que o riso é “uma reação frente ao reconhecimento do que surge no momento e que, por vezes, retrata a realidade absurda da própria condição humana ou da própria frustração do palhaço. Este, quando se mostra realmente vulnerável, cria uma espécie de empatia e de simpatia que pode muitas vezes transformar-se num conforto, em riso, em brincadeira”. Ao mesmo tempo, Fernando Terra destaca a importância do projeto “Rugas de Riso”, que também “visa trazer mais leveza aos profissionais que atuam diariamente com pacientes em situação de demência ou em cuidados paliativos”.


Passam cinco dias. Voltamos a marcar presença em mais um evento, desta vez no Ferroviário Bar Terraço, em Lisboa, para assistirmos ao programa de “My Story, My Song” e ao encerramento da sétima edição do Festival MENTAL.

Para esta iniciativa, os artistas são convidados “a contar a sua história, empatizando com a audiência, num ambiente intimista criado para que tal aconteça serenamente e com convite à partilha”. “My Story, My Song” reflete sobre questões como: “o que fez sentido ouvir nos momentos menos bons”? Ou se preferimos “cantar os nossos próprios temas, porque afinal o que fez sentido e ajudou foi compor”? Para a edição deste ano, o artista convidado foi o cantor e musicoterapeuta André Viamonte, que já tinha marcado presença nas primeiras edições do Festival.

André Viamonte em "My Story, My Song" na VII edição do Festival MENTAL. Fotografia da cortesia do Festival MENTAL

O espetáculo acontece numa das salas do Ferroviário. As cadeiras dispostas à frente do pequeno palco estão praticamente todas ocupadas pelo público que espera ansiosamente pela entrada do músico. Momentos depois, as luzes apagam, sobrando apenas um holofote que incide no palco, iluminando o cantor e os músicos que o acompanham.

A primeira música que nos apresenta intitula-se “Arrival”. De acordo com as palavras do cantor, esta foi inspirada numa “lengalenga que costumava trautear para se acalmar e acalmar os outros quando era jovem”.

Assim que a música termina, André Viamonte apresenta-se e dá-nos as boas-vindas, explicando de seguida que nos dará algumas introduções que expliquem a origem dos temas que cantará. “Vamos para um outro tema”, prossegue. “Não sei se se costumam deparar com aquela questão espiritual, do que é que estamos todos aqui a fazer? E depois lembramo-nos que temos de pagar impostos e desistimos de pensar nessas questões para pensar em finanças”. Risos ecoam na sala. “Mas bem, vejo-me, muitas vezes, a questionar a parte da existência e de como isto tudo passa num ápice. De repente, só ficamos com com aquilo que se perdeu. Para vocês, “Seven Heavens”.

André Viamonte em "My Story, My Song" na VII edição do Festival MENTAL. Fotografia da cortesia do Festival MENTAL
André Viamonte em "My Story, My Song" na VII edição do Festival MENTAL. Fotografia da cortesia do Festival MENTAL

Seguem-se outros temas, entre eles “Heartland”, “Wild Moniz Syndrome”, “Flammarion”, “Deadfall”, “Innocent Rebel” e, para terminar o espetáculo, “Gentle Dawn”, originalmente gravada com a vocalista da banda Madredeus, Beatriz Nunes.

Ao longo do concerto, André Viamonte reforça a importância da música, e das artes em geral, como um veículo para expressarmos as nossas emoções. “Acho que esta é uma das principais questões do Festival MENTAL. Este awareness (apelo) para a expressão das emoções. Quando se fala de algo triste ou de algo depressivo, parece que a sociedade não quer falar sobre o assunto, dando-nos apenas uma pancadinha das costas. No que for preciso, vamos tentar dar um murro no estômago da comunidade, porque é importante que as pessoas percebam que, por mais que seja difícil, quando nos unimos a outras pessoas que estão igualmente vulneráveis, mais fácil é transportar a nossa dor”.

"My Story, My Song" na VII edição do Festival MENTAL. Fotografia da cortesia do Festival MENTAL

O concerto termina às 23h30 e muitos dos espectadores mostram-se emocionados por se identificarem com a mensagem que André Viamonte procurou trazer para esta noite. Para aprofundarmos essas mesmas questões, convidamo-lo a sentar-se connosco num dos sofás do átrio do espaço.

Na nossa entrevista, o cantor começa por explicar a razão para cantar “sempre com tanta emoção e sentimento”. “É a última vez que se canta. Quando estou ali, não sei se vou cantar mais alguma vez. Enquanto artista, tenho a responsabilidade de conseguir transmitir aos outros o que sinto. E, para isso, tu tens de passar por toda aquela dor. Não é dar dor a quem ouve, mas sim fazê-lo refletir sobre o pouco tempo que temos”.

Canta desde os cinco anos, isto é, “tinha tendência para imitar vozes e sons”. Porém, apenas teve a coragem para começar a cantar profissionalmente, após concluir o mestrado em Musicoterapia (2013). “Mesmo quando achava que não ia fazer carreira musical, sabia que tinha de fazer terapia musical de alguma forma”, explica. “Quis perceber como é que a música pode, de facto, ajudar. Mais do que andares a fazer música só para teres o reconhecimento e para a masturbação do ego, pensa que vais fazer música que faça sentido às pessoas e que as torne melhores. Aí, nasce uma missão”.

Escolheu a voz como instrumento para dar apoio a pessoas que se encontram em fase terminal de vida, esclarecendo que quando ouvimos música triste, “as ondas cerebrais podem criar dopamina”, um neurotransmissor que provoca a sensação de prazer e motivação. “A música serve para duas coisas: podemos anestesiar-nos com ela para disfarçar um determinado sentimento. Mas ao nos anestesiarmos, estamos a corromper. Ou então, podemos ser verdadeiros com a música. Ser verdadeiro com a música é ouvir aquilo que vai ao encontro do que estamos a sentir. Ao ouvirmos músicas tristes, temos ali um momento catártico, começamos a chorar. A música torna-se um veículo, uma oportunidade para tu poderes ser honesto contigo”.

André Viamonte na V edição do Festival MENTAL. Fotografia via Facebook do Festival MENTAL

As músicas de André Viamonte refletem, sobretudo, as suas vivências ou momentos que testemunhou de outras pessoas. São também abordados temas como a rejeição, os bloqueios emocionais, as contradições da vida. “Não apenas através da letra, mas também da melodia”.

Confessa-nos que prefere compor música quando se encontra em momentos de maior dor emocional, pois isso transmite-lhe uma sensação de compreensão inata. “A música é como uma segunda maternidade. É aquela mãe que não te critica, não te julga, que está só lá para te ouvir. Todo o processo criativo é uma forma de nos compreendermos e darmos colo a nós mesmos”, afirma.

Define o convite por parte da organização como uma “feliz parceria”, uma vez que o músico defende os mesmos valores do Festival. Sublinha ainda que o MENTAL é capaz de “transformar a dor em arte”, pois, “existe uma transmutação da dor que se transforma, de alguma forma, numa linda e bonita [emoção] de ser transposta. Subitamente, é vista pelo mundo. É uma forma inspiradora de se viver! E o Festival demonstra que a dor não é um problema e que toda a gente a tem. A forma como tu vives com ela é que muda”.

O que se espera do futuro do Festival MENTAL?

Terminada a sétima edição do Festival Mental, Ana Pinto Coelho salienta alguns dos fatores que gostaria que melhorassem nas próximas edições. “Espero que isto continue a par e passo, sustentado, sustentável, com cautela e com atenção. Quero conseguir ter uma equipa a trabalhar comigo e conseguir pagá-la. Isso é fundamental. Tendo isso, acho que se consegue fazer tudo o resto. É preciso equipa, sozinho ninguém é capaz”.

Revela-nos que, por ainda não terem conseguido investimentos suficientes, não conseguem atrair artistas estrangeiros para participarem no Festival, por exemplo. Para além disso, a diretora gostaria de conseguir colocar um intérprete de linguagem gestual nos diversos debates e conversas que o Festival propõe. Para Ana, este é um dos futuros objetivos que considera “obrigatório” atingir.

Ana Pinto Coelho na primeira edição do Festival MENTAL. Fotografia da cortesia do Festival MENTAL

Todos os membros da equipa do Festival MENTAL com quem fomos falando, ocasionalmente, ao longo dos dias, asseguram que o Festival “sempre foi planeado ao pormenor” e que, acima de tudo, “reflete a atenção com que observam os acontecimentos do dia a dia”. Ana Pinto Coelho acrescenta que só assim, “estando atentos ao que se passa na rua, seja nos autocarros ou no metro, é que conseguimos desvendar os temas da sociedade”.

Outra das preocupações da diretora é a falta de um espaço para trabalharem, sendo que, relembremos, o produtor João Gata desenvolve a maioria dos audiovisuais em casa. “Temos de ter mesmo vontade, energia e foco, senão não funciona”, remata Ana Coelho. “Precisamos de uma sala para trabalhar, de mais investimentos, ter outros equipamentos. Não quero ser subsídio-dependente. Mas todas as empresas são financiadas de alguma forma, seja pelo Estado ou pelos consumidores. Podem dizer que fui eu que escolhi meter-me nisto e que ninguém me pediu para organizar o festival, mas qualquer produto nasce, porque alguém teve uma ideia ou criou uma patente e quis vendê-la. Não vejo diferença”, conclui.

João Gata, por sua vez, apesar de encontrar vantagens na melhoria dos equipamentos, não se queixa do seu trabalho e afirma “ter toda a ajuda necessária” para o concretizar. Sublinha que, “mais tarde ou mais cedo, irá aparecer alguém que irá imitar a ideia”, mas que o MENTAL já tem “alguma reputação”. “A verdade é que temos pessoas que vêm todos os dias e todos os anos”, afirma referindo-se ao público e aos voluntários que, por vezes, ajudam na organização do evento. “Já somos uma família. Um grupo que me enche de orgulho”.

Para já, e de um modo geral, para Ana Pinto Coelho são apenas necessárias qualidade e vontade para fazer tudo, pois o resto “surgirá com o tempo”. No fim da nossa conversa, destaca que o que mais a envaidece são “as pessoas que saem do Festival e percebem que desbloquearam alguma emoção ou que falaram sobre alguma coisa que há muito tempo queriam, mas não tinham como partilhar. Estou a referir-me ao público, aos artistas e aos oradores. Ao fim ao cabo, isto é uma missão. E uma missão é bonita quando é feita em conjunto”.

Logótipo VII edição do Festival MENTAL

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30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Práticas de Escrita [online]

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30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

O Parlamento Europeu: funções, composição e desafios [online]

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30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto

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30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Introdução à Produção Musical para Audiovisuais [online]

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30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Planeamento na Produção de Eventos Culturais [online]

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30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online e presencial]

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30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online ou presencial]

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30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Pensamento Crítico [online]

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30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Planeamento na Comunicação Digital: da estratégia à execução [online]

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Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

22 ABRIL 2024

A Madrinha: a correspondente que “marchou” na retaguarda da guerra

Ao longo de 15 anos, a troca de cartas integrava uma estratégia muito clara: legitimar a guerra. Mais conhecidas por madrinhas, alimentaram um programa oficioso, que partiu de um conceito apropriado pelo Estado Novo: mulheres a integrar o esforço nacional ao se corresponderem com militares na frente de combate.

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1 ABRIL 2024

Abuso de poder no ensino superior em Portugal

As práticas de assédio moral e sexual são uma realidade conhecida dos estudantes, investigadores, docentes e quadros técnicos do ensino superior. Nos próximos meses lançamos a investigação Abuso de Poder no Ensino Superior, um trabalho jornalístico onde procuramos compreender as múltiplas dimensões de um problema estrutural.

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