Duas épocas, dois tempos aparentemente distintos, mas com diálogo aberto e permanente no que à criação artística diz respeito. Através desta pulsão, é possível descrever facilmente o mote do Festival Novas Invasões, que durante quatro dias proporcionou mais de 140 atividades - que foram do teatro ao cinema, passando pela performance - à cidade de Torres Vedras.

Através do cruzamento entre a arte contemporânea com uma vertente de recriação histórica, o festival, que decorreu de 29 de agosto a 1 de setembro, resulta de uma ligação harmoniosa entre o município e as associações locais, apresentado uma programação necessariamente eclética e diversificada, através de um conjunto de espetáculos que promovem o encontro entre o passado histórico da região com o tempo presente, neste caso centrando-se nas artes performativas e na criação contemporânea.

Em entrevista ao Gerador, João Garcia Miguel, diretor artístico do festival, falou do percurso do Novas Invasões, que surgiu em 2015 da necessidade de se criar em Torres Vedras um “evento diferenciador”, capaz de se afirmar como um festival onde a mistura de épocas trouxesse “modernidade e atualidade” à própria cidade e cuja programação fosse capaz de “confrontar as pessoas” com momentos mais disruptivos em termos artísticos.

“A certa altura, criou-se então a ideia de um festival com dois tempos: o da parte histórica, com uma arqueologia sobre o passado e depois uma parte de criação contemporânea que invadisse o centro da cidade”, explica.

A verdade é que ao longo dos últimos anos, surgiram em Portugal – de norte a sul do país – mais e melhores propostas no que toca à oferta de festivais artísticos. O Novas Invasões é mais um exemplo disso. Podemos facilmente inclui-lo num grupo heterogéneo de festivais como o da Materiais Diversos (que decorre em Minde, Alcanena e Cartaxo), Rádio Faneca (em Ílhavo), Mimo (em Amarante) ou Iminente (em Lisboa). Com a diferença que este parte de uma iniciativa nevrálgica por parte da autarquia de Torres Vedras e que alia criações contemporâneas com uma vertente associada ao passado histórica das Linhas de Torres e ao período das Invasões Francesas.

O Festival Novas Invasões alia a recriação histórica, ambientada no período das Invasões Francesas, com artes contemporâneas

Esse aglutinar de vertentes é precisamente, a pedra de toque para o sucesso da iniciativa que este ano atraiu mais de 30 mil visitantes a uma cidade que, tal como sublinha a responsável pela Galeria Municipal de Torres Vedras, Catarina Sobreiro,tem uma tradição cada vez mais forte associada à“cultura da máscara”, ora não fosse esta localidade reconhecida pelo seu icónico Carnaval.

Criado em 2015, o Novas Invasões apresenta-se como festiva bianual, onde em cada edição é escolhido um país convidado. Depois de Chile na primeira edição (2015) e Japão na segunda (2017), a terceira “invasão positiva” como lhe chama o presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras, Carlos Bernardes, pertenceu à Alemanha. Essa participação materializou-se com um conjunto de propostas que este ano tiveram destaque também pelo centenário da escola de Bauhaus, assinalada no festival com uma exposição presente na Galeria Municipal.

Do passado ao presente: um festival de descoberta e experienciação
Durante os quatros dias de festival, Torres Vedras tornou-se lugar de confluência, onde foi possível estabelecer pontos de contacto a partir de duas épocas bem distintas. Assim, o Novas Invasões começou com uma cerimónia de abertura, em jeito de recriação histórica, no Forte de S. Vicente, que deu lugar a uma arruada animada até ao centro da cidade. As recriações repetiram-se ao longo dos restantes dias tanto no Forte de S. Vicente como no Castelo da cidade, sempre ambientadas no período das invasões napoleónicas.

Já no Largo de São Pedro, em pleno centro histórico, encontra-se o Mercado Oitocentista, epicentro do festival, também com o mote da recriação histórica, onde além dos ofícios da época e um hospital de campanha se encontram as habituais bancas de comida, artesanato entre outros produtos. Nesse mesmo espaço, a música tem também um papel importante na dinamização do Novas Invasões, onde se destaca por exemplo a atuação dos Albaluna, banda com uma sonoridade alusiva à folk e à música tradicional.

Do passado ao presente em apenas algumas horas, o primeiro dia contou ainda com o espetáculo Com que linhas se descose a guerra da companhia A Bolha – Teatro com Marionetas. A reflexão sobre os efeitos nefastos da guerra serve para miúdos e graúdos, sendo por isso um espetáculo engajado no período das invasões. Seguiu-se o espetáculo itinerante Entremundos (na foto de capa) do grupo Pia. Abordando as culturas tradicionais dos gigantes, as ruas da cidade acolhem uma performance de teatro físico, objetos e formas animadas, envolvendo marionetas de grande dimensão.

De resto a primeira noite do festival ficaria marcada pelo espetáculo Sonnambuloda companhia alemã Theater Titanick. Pela terceira vez em Portugal em 20 anos, os alemães trazem-nos uma produção de grande escala inspirada no imaginário medieval e nas pinturas de Hieronymus Bosch e Pieter Bruegel. A decorrer no Parque do Choupal, Sonnambulo obriga os visitantes a um deambular por entre diversas cenas – do grotesco ao fantasmagórico – numa viagem entre o sonho e a realidade.

Foi no Parque do Choupal que teve lugar  "Sonnambulo", criação da companhia alemã Theater Titanick

À redescoberta do centro histórico de Torres Vedras
A par destas criações, materializadas em momentos mais efémeros, o Nova Invasões contou ainda com a obra contínua do artista plástico Gil Ferrão que ao longo dos quatros dias de festival procurou construir uma escultura a partir de objetos encontrados nas ruas de Torres Vedras.

Nestas mesmas ruas, o Novas Invasões procura promover uma maior vivência do espaço urbano. Sobre este aspeto, João Garcia Miguel realça que a proposta do mesmo se prende com a apresentação de um “conjunto de espetáculos que estabeleça uma relação singular com o espaço arquitetónico”. Efetivamente e na lógica de outras cidades portuguesas, também o centro histórico de Torres Vedras perdeu a vida social e económica de outras épocas, que este tipo de iniciativas tenta contrariar.

Em relação à programação escolhida, o diretor artístico sustenta que o Novas Invasões vive de uma programação que pretende “convocar as famílias”, não sendo necessariamente “fácil” nas suas escolhas e que confronte as pessoas “com uma série de questões importantes”. Também Carlos Bernardes, autarca, corrobora essa perspetiva, sublinhando que o festival vive “dessa simbiose”, proporcionando uma “experiência única”, no sentido em que é possível aos visitantes“recuar no tempo mas também poder ver trabalhos artísticos contemporâneos”.

“Desse ponto de vista, entendemos cada vez mais que temos de aliar aquilo que é a experienciação com a vivência do património cultural”, sublinha, acrescentando que o festival se afirma atualmente “como uma das âncoras da regeneração do centro histórico” de Torres Vedras.

Não sendo totalmente inusitado, o Novas Invasões acaba por ter uma certa concepção política por detrás das suas propostas e pela forma como se organiza. Segundo João Garcia Miguel, o festival apresenta uma estrutura sustentada pela participação de quatro países: Portugal, Espanha, França e um país convidado. A Alemanha como país escolhido desta edição, adquire uma simbologia específica por estar no centro da construção da Europa tal como a conhecemos atualmente. Carlos Bernardes refere que sobre este aspeto, a escolha do país convidado demonstra que o Nova Invasões procura também “valorizar o património artístico europeu, sendo que a Alemanha é um desses símbolos”.

“Do ponto de vista da Europa dos cidadãos, temos de ter alguns referenciais que possam evidenciar o património do continente, para que esses valores possam ser transmitidos às diferentes gerações”, acrescenta.

Os artistas como “antenas da realidade”
Para João Garcia Miguel, os artistas são como “antenas da realidade”, apresentando propostas que se relacionam com a nossa vivência em sociedade. É neste âmbito, que o Novas Invasões apresenta um conjunto vasto de espetáculos onde persistem temas bem presentes da atualidade, não sendo no entanto um festival temático nas escolhas que faz.

Marcado por uma diversidade bastante incisiva no que diz respeito à sua programação, as ruas de Torres Vedras acolheram ainda a ópera comunitária É possível resistir da AREPO – Associação de Ópera e Artes Contemporâneas. Com libreto do escritor Rui Zink, música de Luís Soldado e encenação de Linda Valadas, o espetáculo com mais de 60 integrantes fala-nos de encontros e desencontros, caminhando o público lado a lado com as personagens e músicos.

As propostas artísticas do Novas Invasões vão do teatro ao cinema, passando pela performance e pela dança

Desta proposta rumamos até à Praça do Município, onde se encontra Sónia Carvalho. A artista do Porto desenvolveu Struggle Like a (WO)Man #1, um projeto coproduzido pela EMERGE – Associação Cultural para a Promoção da Arte Contemporânea em especial para o Novas Invasões, fruto das bolsas de incentivo à criação artística lançadas pela Câmara Municipal de Torres Vedras. Já na Praça Dr. Alberto Manuel Avelino, decorre a performance da alemã Photini Meletiadis que apresenta TAO,  integrada numa instalação artística em forma de espiral que neste caso funciona como símbolo de mudança, de leveza e recriação.

Mas foi ao português Jonas Runa que coube um dos momentos de destaque do Novas Invasões, com a performance Space Invaders, a decorrer no Largo Infante D. Henrique. Nesta invasão do futuro tal como fora anunciado pela própria organização, o performer dança com um fato com 1200 lâmpadas LED e vários sensores, onde as possíveis combinações chegam aos dezasseis milhões de cores. O resultado é o de uma complexa cacofonia de som e luz, onde se anuncia os limites sonoros dos confins do Cosmos, do murmúrio dos átomos ao canto longínquo das galáxias mais distintas.

Na restante programação, destaque ainda para o espetáculo El Onírico Interior da companhia Cia Holoqué e para o espetáculo Calor de Jean Phillipe Kikolas, ambos provenientes de Espanha, assim como para a performance Les Irreéls da companhia francesa Cie.

Um percurso artístico que é também expositivo
Mas nem só de espetáculos se compõe a programação do Novas Invasões. Nesse sentido, o festival contou ainda com quatro exposições. Casa Hipólito – O Modus Operandi, patente na Câmara Clara da Cooperativa de Comunicação e Cultura, apresentou dois núcleos expositivos e um percurso interpretativo que refletem sobre o trabalho em torno do design industrial e gráfico da histórica empresa torriense, entre 1910 e 1999.

Já na Galeria Municipal, foi inaugurada a exposição Homem Morto Passou Aqui, projeto de Valter Vinagre em que o fotógrafo revisita locais por onde passaram as Invasões Francesas. O resultado final espelha-se num conjunto de fotografias catalogadas com a hora e data a que decorreram importantes episódios históricos desse período.

Na Galeria Municipal de Torres Vedras foram apresentadas exposições integradas na programação do festival

No mesmo espaço, foi apresentada a reprodução integral do Ballet Triádico, bailado inaugural da modernidade da autoria de Oskar Sclemmer, pintor e professor na Bauhaus. Ainda na Galeria Municipal, esteve patente a exposição INFLUENCER : o efeito Bauhaus, com trabalhos provenientes do serviço educativo da própria galeria. Catarina Sobreiro, responsável pela Galeria destaca a influência e legado da Bauhaus para a arte contemporânea, que pretenderam “transmitir aos mais novos mas também para aos professores através desta exposição”.

De 29 de agosto a 1 de setembro, o Festival Novas Invasões afirmou-se como proposta artística consolidada, com espaço para crescer, mas com ideias bem assentes relativamente à forma como cruza diferentes tipos de expressão artística. Partindo de uma proposta da autarquia, o festival é a prova de que é possível apresentar um conjunto de iniciativas, algumas delas bem disruptivas, sem que isso passe despercebido às diferentes gerações que por ali passam. Mais ainda, a cidade prova que é possível olhar para o passado e para a história com uma visão contemporânea de olhos postos no futuro.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Eyemedia

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