'Nem só de cidade vive o Homem.' Esta é uma frase que há cerca de cinco anos surgiu numa das autoestradas mais percorridas de Portugal. A chamada A3. Não obstante, é sobre viagens, herança e reflexões que o Festival Rodellus se edifica. Acontece no campo. A zona rural, na freguesia de Ruílhe - a cerca de 10 quilómetros de Braga - foi o berço. Hoje é local central e, no futuro, continuará a assinalar aquele que é um dos festivais nacionais de música alternativa emergente, tendo sido galardoado com o prémio de melhor festival de pequena dimensão Ibérico.

Desde o momento "zero" que Hernâni Silva e João Araújo, membros fundadores do festival, acompanharam o nascer de cinco edições que se foram formando ao longo dos últimos anos. Começou com uma conversa entre amigos - o Jorge, o Gabriel, o João e o Hernâni - no café 'do costume'. Depois de definirem o conceito, aquela que se tornou uma iniciativa da Rodellus - Associação Cultural - organização constituída em 2015 pelo grupo de jovens das freguesias de Ruílhe ,Tadim, Arentim e Cunha - nasce das palavras, em tempos, nas invasões germânicas, o nome Rodellus. Hernâni explica-nos que este seria o primeiro nome da freguesia de Ruílhe.

Em 2014 metiam-se 'as mãos na massa'. Em 2015 o Rodellus fazia-se ouvir 'de corpo e alma', "uma conversa de amigos passou a uma associação e, de seguida, à ação", conta João. Mesmo sem experiência, o gosto pelos festivais falou mais alto.

A evolução do festival e o seu impacto a nível cultural e social foi algo visível ao longo dos tempos.

No início a população local "estranhou", mas rapidamente entranhou. Os jovens contam que, durante o ano passado, a realidade pandémica não permitiu que o festival prosseguisse com a edição pensada para 2020, no entanto, a ausência do mesmo foi sentida por todos "muitos diziam, 'cuidado com o Rodellus, por causa do Covid' ou 'nesta semana senti falta daquele barulhinho que seria normal."

A evolução do festival e o seu impacto a nível cultural e social foi algo visível ao longo dos tempos, "temos recebido muitas mensagens, mesmo internacionalmente, que nos motivam e dão muita força para que este festival continue", explica Hernâni. "Foi também a pensar nessas pessoas que, dentro das medidas possíveis, vamos realizá-lo", continua.

Nesta 6ª edição, que acontecerá nos dias 24 de julho, 31 de julho e 7 de agosto, o festival apresentará The Twist Connection, Black Bombaim, David Bruno, Krypto, Grand Sun e Hause Plants. Ainda sobre a evolução do mesmo, João acrescenta também "curioso é perceber que no ano em que começamos, em 2015, tínhamos um público mais regional, nomeadamente, malta de Braga, Barcelos, Porto, Famalicão e Viana. No entanto, logo no ano a seguir, em 2016, já vieram pessoas de Espanha. O que nós queremos com isto, pelo menos um dos objetivos, é trazer pessoas de fora para conhecer o festival. Queremos sempre a nossa comunidade próxima de nós, obviamente, mas o engraçado aqui, é que há pessoas que nunca ouviram falar desta freguesia e vêm cá porque, na verdade ,Ruílhe não é só o Rodellus! Está bem localizada, geograficamente, e é freguesia muito bonita, num vale. Tem também outros projetos muito interessantes e, para nós, isso é um motivo de orgulho." O ano de 2018 ficou também marcado pela presença de visitantes americanos "isto é também fruto da nossa procura por bandas emergentes internacionais, para tentar diferenciar um pouco o cartaz daquilo que se faz pelo país fora, mas sempre apoiando a causa nacional que preenchem o corpo principal", continua.

"curioso é perceber que no ano em que começamos, em 2015, tínhamos um público mais regional, nomeadamente, malta de Braga, Barcelos, Porto, Famalicão e Viana. No entanto, logo no ano a seguir, em 2016, já vieram pessoas de Espanha". João Azevedo

Numa experiência que se espera rural, o festival divide-se por três fins de semana com três sessões e alinhamentos diferentes. De modo a proporcionar uma experiência única aos participantes, este ano, cada sessão terá um lugar local secreto, que terá integrado um passeio rural do ponto de encontro ao local dos concertos do dia.

Os jovens recordaram ainda alguns momentos altos do festival e iniciativas que contribuíram para consciencializar e adotar medidas inovadoras e mais sustentáveis, algo que pretendiam explorar desde o início, "na verdade, desde o início que pensamos o conceito de campo, ou seja, de vida de campo. Entretanto, veio o 'braço' da componente ambiental, também. Tivemos a sorte de conseguir ganhar, algumas vezes, o apoio do programa do fundo ambiental que é um estímulo para se fazerem coisas ecologicamente viáveis, sustentáveis, etc. E isso aliado à freguesia, a explorar sítios com potencial, sem dúvida, foi feito e é feito. Aqui, há uma série de coisas que, falando na comunidade, na geografia e no ambiente se relacionam com o festival. O Rodellus surge numa quinta vaga que, atualmente, é um parque de estacionamento. Procuramos, transitar de imediato para uma quinta. E acreditamos também que o nosso trabalho, durante cinco anos, o valorizou. De alguma forma, o espaço que outrora as pessoas da freguesia, embora privado, não visitavam, passou a ser procurado e, aliás, a receber muitos elogios. O nosso cuidado com o espaço, a utilização de materiais orgânicos para a construção de uma horta, por exemplo, que era também algo muito central e uma das atrações do festival. Era uma horta relativamente grande e nós fazíamos para que a mesma estivesse bem bonita e florida na altura do festival. Aliás a entrada do festival chegou até a ter aquela Hera de Feijão", recorda João.

"a entrada do festival chegou até a ter aquela Hera de Feijão"

Hernâni prosseguiu explicando-nos que foi uma alternativa para substituir a madeira e o excesso ao seu recurso. Desta forma, não só recorreram a algo ainda mais ecológico, como conseguiram colher toda a quantidade de feijão e partilhar com a comunidade local, "a introdução das crianças de um orfanato da zona foi também um momento de desenvolvimento na comunidade que conseguimos explorar. Na iniciativa dos feijoeiros, por exemplo, doamos cerca de 300kg de feijão ao mesmo para as crianças", completa Hernâni.

Outro momento que se diferenciou no ano de 2019 foi um reajuste que fizeram nas tardes do festival, "passámos para o café da terra. Chegamos a deparar-nos com visitantes que chegavam para ver o festival e estavam lá, no café, completamente "randon" a jogar às damas com um senhor. Deu-me uma grande alegria. Foi incrível", partilha Hernâni.

O interesse dos jovens, não só no contributo para a economia local, como também pela própria atividade da horticultura, foi algo que o festival também estimulou, indiretamente, assim como a própria bricolage.

6ª edição Rodellus, "uma edição mais pequena, mas memorável"

Sobre a programação da 6ª edição as bandas que compõem a mesma resultam, maioritariamente, da programação pensada em 2020. Com a preocupação assente de ser uns espaço para que todos se possam fazer ouvir, as bandas que o afirmam este ano são: The Twist Connection, uma banda de Coimbra com raízes no rock’n’roll de outros tempos, porém recetivos a novas influências e sonoridades; Black Bombaim, uma das mais importantes "bandas da última década", segundo João. São o trio que surgiu nos arredores de Barcelos; David Bruno, artista com grande ligação à música e cultura portuguesa; Krypto, uma banda descoberta que conta com a participação de Gon; Grand Sun que se "pelo rock, pelo pop psicadélico e uma atitude post-punk" e Hause Plants, um projeto onde Guilherme Correia compõe, produz e grava num seio mais intimista. Sabe mais sobre os bilhetes aqui.

Foi com um convite que Hernâni e João terminaram a nossa conversa. Entre risadas e partilhas de cidades e freguesias "pequenas", mas não escondidas, o universo musical abraça aquele que será o próximo destino: o festival Rodellus.

Texto de Patrícia Silva
Fotografias de Joana Sousa
*O artigo surge a propósito da parceria entre o Gerador e a Braga´ 27 (Capital Europeia da Cultura).

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