De 5 de fevereiro a 26 de março, o festival Sons de Vez regressa para uma edição de celebração. O primeiro festival do ano celebra os seus 20 anos ao lado de 12 artistas, quatro documentários e uma exposição comemorativa.

Em 2002, Arcos de Valdevez ainda não era um destino apetecível. O Parque Nacional da Peneda-Gerês – onde parte do concelho de Arcos de Valdevez está inserido – ainda não se enchia de famílias e jovens turistas a querer fugir dos grandes centros urbanos, trocando as extensões de areia do sul do país, pelas cascatas rodeadas de vegetação e calmaria. Também não existiam os trilhos para os aventureiros, o turismo rural era quase inexistente, e a cultura era coisa da capital, ou das capitais de distrito. As estradas dificultavam os acessos e mais facilmente os arcuenses iam até ao Porto numa procura por cultura e vida citadina, do que o contrário acontecia. No entanto, Nuno Soares contornou esta tendência, viajou do Porto para se estabelecer em Arcos de Valdevez e depressa percebeu que era urgente descentralizar a oferta cultural. E foi assim que nasceu o primeiro festival do ano – o festival Sons de Vez.

“O Sons de Vez está umbilicalmente ligado à Casa das Artes”, começa por contar Nuno Soares, arqueólogo, diretor da Casa das Artes de Arcos de Valdevez e responsável pelo festival, em entrevista ao Gerador. Quando chegou à sua agora casa, o município desafiou-o a “tentar criar uma dinâmica cultural para o município”. Começou por criar um plano de trabalho ao qual se sucedeu a Casa das Artes, situada num edifício setecentista, classificado em 1982 como “Imóvel de Interesse Público”, uma vez que a sua construção na segunda metade do século XVIII transporta uma parte da história da região – “A Casa das Artes acabou por ser o epicentro, e é hoje em dia, dessa dinâmica cultural, então tinha uma ideia de criar um evento que pudesse fazer a descentralização efetiva, que trouxesse projetos musicais até a um auditório muito pequeno, com 232 lugares (na prática 226), com um palco com uns escassos trinta centímetros de altura, em que estamos na primeira fila e temos os pés mesmo em cima do palco. Isto podia ser tudo uma desvantagem, eu tentei transformar numa vantagem”.

José Costa, da produtora Banzé, um dos responsáveis pela produção, viu também em Arcos de Valdevez uma oportunidade, e desafiou Nuno. Juntara-se vontades e a ideia de um festival naquela região deixou de ser um sonho e começou a ser pensada mais a fundo. O Sons de Vez nasceu assim de “uma vontade de poder trazer opção cultural que junta nomes de referência da música portuguesa”, por isso é que, segundo Nuno “o Sons tem este subnome – Mostra de Música – porque era isso que se tentava: ter uma programação extensa, que em oito datas, entre fevereiro e março, todos os fins de semana viessem músicos apresentar os seus trabalhos”.

No entanto, a fase inicial não foi fácil. Apesar de o Alto Minho ser conhecido pela sua cultura de festivais de música, em 2002, o Festival Vilar de Mouros – o mais antigo, surgindo em 1965 –, estava suspenso e só o Festival Paredes de Coura – que surgiu em 1993 –, trazia música e bandas que estavam a explodir na cultura indie. Fora isso, o Alto Minho era um sítio longe, que tinha de fazer valer a pena o tempo gasto na estrada nacional – “Tivemos muitas dificuldades numa fase inicial. Como devem imaginar, há 20 anos, pegar num telefone e ligar para Lisboa para um agenciamento e ter de dizer que estava a ligar de Arcos de Valdevez… as pessoas nem sabiam onde era Arcos de Valdevez, e eu tinha de dar imensas referências geográficas, e as pessoas diziam-me logo que isso tinha custos muito elevados. Tive de ter essa ousadia, e dizer às pessoas, que “tudo bem, mas estou só a ligar para saber se é possível”, e acabou por ser”, lembra Nuno, que sublinha o facto de sempre ter tido o apoio e compreensão de agentes e artistas, que acabaram por se adaptar às características daquele que parecia um sonho – “Nestes anos temos feito bons amigos. Foram mais de 250 projetos que passaram aqui durante estes anos e por isso as pessoas perguntam-se como é que conseguimos trazer grandes nomes da música portuguesa, por exemplo, Moonspell. Conseguimos porque é fruto das conexões que vamos fazendo, das pessoas que compreendem o projeto e o seu histórico, de terem vontade de vir, como se começassem o seu ano musical cá. Acabámos por criar uma dinâmica, em que as pessoas acham natural o convite, adaptam muitas vezes o seu calendário e orçamentos, podemos dizê-lo assim, e no fundo é uma celebração de música, de gentes, de família, é isso que o Sons é.”

O Sons de Vez – e também a Casa das Artes – tornou-se uma família e acabou também por ser o motor para outros projetos nos municípios à volta e para todos os municípios que até então não viam a programação cultural como uma aposta para atrair pessoas.

“O Sons de Vez fez parte da consolidação de uma programação todos os fins de semana e, no fundo, o que fizemos acabou por ser um exemplo. Dissemos aos concelhos vizinhos que era possível haver programação, que era possível uma parte do investimento ser na cultura. Nasceram projetos! Eu falei com todos os políticos, presidentes de câmara, vereadores, para perceber como o nosso projeto funcionava, porque as pessoas utilizavam o Sons de Vez como uma base para perceber que era possível fazer coisas. É possível fazer coisas num concelho de interior. A descentralização é possível, e as entidades locais têm de ser potenciadas, porque não somos todos iguais no país, e até na região, as necessidades mudam, e as diferenças são percetíveis por quem cá habita e vê. E por isso trabalhamos para potenciar localmente, mas também para a região. Temos muita gente de Espanha, por exemplo, sempre muita gente da Galiza, eles conhecem as nossas bandas, a nossa realidade cultural”, conta o criador do festival.

20 anos de um festival que é “quase como um clube londrino”

O festival Sons de Vez cresceu muito, fez a região crescer, mas nunca perdeu a sua identidade. O espaço – o auditório da Casa das Artes – mantém o mesmo aspeto físico, nada mudou. O conceito de proximidade continua a ser aquilo que faz com que vários artistas queiram rumar ao frio do Norte, no inverno, para entrar no palco intimista de Vez – “Nós somos quase como um clube londrino, uma coisa nesse conceito, porque as pessoas não estão assim tão afastadas, o diálogo entre quem está na primeira fila e a banda é total, há troca de comentários. Lembro-me de que, em 2007, quando os Moonspell vieram, estavam na grande explosão, foi quando lançaram o ‘Memorial’ e foi o ano em que pela primeira vez foram olhados com atenção e era também a primeira vez que um álbum deste género de música esteve num top português, e eles vieram nesse ano. Lembro-me de que tinham uma certa preocupação sobre se a malta ia invadir o palco, mas, claro, nunca houve isso, as pessoas respeitam, mas podia haver tudo porque as pessoas estão em cima do palco. Esse conceito cosy fez sempre a diferença. As pessoas podem ir ver os projetos noutro lado, mas gostam de vir ver aos Sons, porque tem essa vantagem e no final podem sempre conviver com os artistas no bar. Este conceito do Sons, que agora vamos tentar recuperar, não é fácil porque estamos mais afastados, mas mesmo assim vamos encontrar soluções. No fundo, o Sons tem essa característica de ser um projeto muito informal e celebrativo. As pessoas vêm cá porque querem ouvir música, essencialmente, não é como noutros festivais, não há pinturas, passatempos, praia, campismo, as pessoas vêm para vir ver os projetos que gostam apenas.”

A essência deste encontro musical manteve-se, mas a região cresceu. Houve um momento em que, conta Nuno, o crescimento do festival foi um estímulo para o turismo. Hoje em dia, o concelho tem as suas próprias dinâmicas, “existe um equilíbrio”. Há quem visite Arcos de Valdevez pelas rotas de alta montanha, outras para ir ao Alto da Pedrada ou a Sistelo, outros para ouvir música num sítio ímpar, numa localidade que pede para abrandar. O que é certo é que Arcos de Valdevez cresceu, “mais do que Viana do Castelo” e, quem por ali passa num fim de semana consegue ver vários tipos de turismo – “turismo de aldeia, turismo rural, turismo de aventura” –, segundo Nuno, isto tudo é possível porque o concelho não está aglomerado “as pessoas têm espaço, existe a natureza, o rio, um dos menos poluídos da europa, e estamos perto de tudo”.

O cartaz (sempre) eclético

Quem olha para o cartaz do festival Sons de Vez percebe rapidamente que a única coisa que o define é a qualidade dos artistas que apresenta. Mesmo numa altura em que tinham “maiores limitações financeiras”, os programadores tentarem sempre trazer os “projetos que estavam no limbo” e ser uma rampa para uma visibilidade que, na altura, dependia quase exclusivamente dos meios tradicionais – “Estamos a falar de uma altura em que não existiam redes sociais, com as dinâmicas que temos hoje em dia, tudo era diferente, as coisas funcionavam muito com a comunicação clássica e tivemos um parceiro desde o primeiro momento que nunca nos largou, que é a Antena 3, e por isso os grupos viam muito os Sons de Vez através desse meio. Acabámos por trazer coisas que eram projetos novos, projetos que hoje em dia, são nomes consagrados na música portuguesa, ou seja, acabámos um pouco por ir abrindo caminho para uma necessidade de divulgação da música que estava a surgir”, recorda Nuno que depressa viu “projetos musicais mais mediáticos” passavam a ter interesse em aparecer no cartaz, e começaram assim a “diversificar cada vez mais o cartaz”.

“O Sons continua a mexer pessoas que vinham deste historial de 20 anos e envolvemos novas também, é isso que nós queremos. É ter essa diversidade de uma programação que é eclética que mexe localmente, mas que mexe muito para a região e para o país, porque há pessoa que se movimentam de diferentes geografias, vêm cá propositadamente para ver um espetáculo”.

2022, um regresso em festa, para todos

Em 2020, o festival Sons de Vez viu a sua programação interrompida em março. Foram dois anos em que o festival foi afetado pela pandemia. Por isso, 2022 marca o regresso aos palcos e traz consigo duas datas importantes – a celebração dos 20 anos do Festival e de 21 anos de Casa das Artes. Esta edição de celebração de duas décadas, coloca no palco arcuense 12 projetos musicais, de 5 de fevereiro a 26 de março, e trazem a história da música documentada em quatro sessões distintas.

Os Moonspell celebram 30 anos e abrem as portas do festival com a “The Greater Tour”, num regresso muito esperado e quase pontual em Portugal. Na segunda noite, a 12 de fevereiro, há dose dupla de atuações. The Twist Connection abrem a noite seguidos de Club Makumba, um dos mais recentes projetos musicais da cena cultural atual, que teve origem na parceria criada entre Tó Trips (Dead Combo, Lulu Blind, entre outros) e João Doce (Wraygunn), a que se juntam agora Gonçalo Prazeres e Gonçalo Leonardo, para nos levar pelas sonoridades do Mediterrâneo e pela África imaginada, para uma música “sem preconceitos e sem fronteiras”.

No fim de semana seguinte, a 19 de fevereiro, é a vez de Dino D’Santiago aquecer o auditório da Casa das Artes com o seu último álbum “Badiu”. A 26 de fevereiro, Kiko & The Blues Refugees, trazem uma das surpresas deste festival, o seu amigo “BJ Cole”, que, antecipa Nuno, “é um guru, e não existirão novas tournées em que o BJ Cole possa vir, por isso acredito que vai ser algo de outro mundo”. Ainda na mesma noite, Rui Fernandes 4TT, um quarto de músicos composto por Rui Fernandes na viola amarantina, Pedro Neves no piano, Miguel Ângelo no contrabaixo e Ricardo Coelho nas percussões, que explora timbres, técnicas, acordes e arpejos, “construindo, em cada música, uma variedade enorme e surpreendente de momentos musicais”.

Em março, cabe a Noble e Fingertips, a abertura da primeira noite, sendo que o primeiro artista irá apresentar o seu novo disco, num espetáculo intimista, e Fingertips comemoram 15 anos do lançamento do primeiro álbum de originais da banda “All Bout Smoke ‘N Mirrors”.

Doze de março é o fim de semana dedicado ao indie rock nacional, com Plastica a relembrar os grandes clássicos do rock psicadélico e ainda The Happy Mess, um dos projetos mais acarinhados da Indie Pop em Portugal.

No penúltimo fim de semana, a 19 de março, os pais do heavy metal nacional, Tarantula, tocam lado a lado com a banda local “Nó Cego”, que voltam aos palcos 10 anos depois de terem deixado de tocar. A 20.ª edição termina com Paus e a apresentação do seu mais recente disco “YESS”. No entanto, Sons de Vez é uma Mostra de Música, por isso, para além dos concertos, estará no Foyer do Auditório da Casa das Artes, uma exposição fotográfica com a complicação dos momentos de referência destes 20 anos do festival. Na continuação desta celebração, serão exibidos quatro documentários nacionais sobre música e músicos portugueses – “Em quatro sextas-feiras, anteriores ao sábado do evento, serão exibidos quatro documentários e um deles, inclusive, contará mesmo com a presença do realizador. São todos documentários ligados à música.”

A aquisição dos bilhetes segue a mesma ordem desde o início: “Não há bilhete único, porque as pessoas é que escolhem o que querem ver”, e “para adquirirem o bilhete as têm de ligar para o número fixo da Casa das Artes e fazer a sua reserva através de transferência, e depois levantam o bilhete na altura. Este ano custam 6 € , 8 € e 15 €, sendo que os mais caros são os Moonspell e Dino D’Santiago”.

Apesar da festa que se prevê, Nuno sabe que o panorama mudou – “Há muita expectativa em torno disto. De norte a sul estamos a perceber que estamos a fazer novamente um trabalho de casa… demorou tantos anos dizer às pessoas que a cultura é uma opção de vida, de consumo, de organização dos nossos orçamentos pessoais, perspetivas e objetivos, demorou tempo a meter a cultura nesse aspeto, e, nestes dois anos, desapareceu tudo novamente. Estamos novamente a fazer um trabalho de casa, vai ser uma edição expectante, para saber como as pessoas vão reagir. Mas é preciso recuperar, chamar as pessoas aos espaços, e o cartaz deste ano, é suficientemente eclético, acho difícil que ninguém se reveja nas datas do Sons de Vez. Foi sempre uma preocupação nossa, acho que alguém acaba por encontrar alguma coisa.”

Em 20 anos, mais de 19 mil pessoas passaram pelo palco, que é como uma casa de encontros e reencontros. Este ano, apenas com 216 lugares – dadas as restrições impostas – o festival promete continuar a trazer proximidade entre artistas e públicos.

Pode adquirir os bilhetes através do número: 258 520 520.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia de Sérgio Neto

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