Uma a uma, as árvores em miniatura vão sendo dispostas pelos intérpretes na mesa que ocupa o lugar central da performance. Depois, os animais. O processo é vagaroso, como é a formação de qualquer floresta. Entretanto, surgem homens armados, e a partir daí a velocidade da destruição é vertiginosa.
Los Devoró la Selva, de Eloísa Jaramillo e Mateo Mejía, transporta para o palco do Teatrão, em Coimbra, a voragem destruidora da campanha de Henry Ford na Amazónia, quando, em 1927, o industrial adquiriu um terreno para aí construir a Fordlândia, cidade concebida para o cultivo da borracha para os pneus dos seus automóveis. A experiência acabaria por fracassar em 1945, mas a devastação do património natural persistiria.
O ponto de partida do espetáculo é o romance La Vorágine (A Voragem), escrito por José Eustasio Rivera em 1924, que os artistas colombianos estudaram e onde continuam a encontrar atualidade. “La Vorágine é atual porque a devastação de então tem vindo a ser substituída por outros tipos de devastação”, lembrou Eloísa na conversa aberta ao público que se seguiu ao espetáculo.
Apesar disso, Eloísa mantém um olhar otimista, como assegurou ao Gerador horas antes da apresentação. A artista e investigadora, que é também facilitadora de Biodança, acredita que estamos perante um ponto de viragem entre “um mundo que está a terminar e outro que está a nascer”. Para acompanharmos essa mudança, convoca-nos a prestar atenção a formas indígenas de ver o mundo, distintas das ocidentais, e também a uma sabedoria não humana, que as plantas e os animais demonstram, sobre habitar o planeta há milhões de anos.
Antes da apresentação no Teatrão, o grupo conduziu, em Aveiro e Coimbra, a oficina “Futuros Ecossomáticos”, com o objetivo de “ativar a imaginação”, descreve Eloísa. “Acreditamos que temos a imaginação colonizada, cooptada pelo capitalismo, cooptada pela catástrofe”. E de facto, as imagens que as pessoas projetam durante o exercício remetem para um mundo apocalíptico, sem água, onde as máquinas dominam tudo. O grupo procura então levar o exercício mais longe, numa busca por outras imagens, inverosímeis até, mas que se demarquem do caminho que o mundo aparenta levar e permitam imaginar outros futuros, incluindo para a Amazónia.

Los Devoró La Selva
Fotografia de Paulo Abrantes
Para Eloísa, é prioritário que cada um se pergunte pelo seu lugar no ecossistema, um desafio que também perpassa a proposta de Uyra, performer e artista visual de Manaus, no Brasil, e também bióloga e arte-educadora. Em Ponto Final, Ponto Seguido, a artista traz a reconexão do humano com a terra ao meio urbano. Durante 45 minutos, a terra renasce sobre o betão, o território originário ressurge sobre a malha urbana que o ocupou. Na gravação que acompanha a performance, escutamos Uyra relembrar que vida é movimento e ondulação, por oposição às linhas retas e artificiais que dividem cidades e pessoas, ou às linhas do Tratado de Tordesilhas que impõem a divisão colonial do mundo. Tal não significa expurgar o cimento da sua importância para o “processo da civilização humana organizada em cidades”, como ressalva Uyra em conversa com o Gerador após uma apresentação em Coimbra, mas reconhecer o seu impacto, por exemplo ao nível da impermeabilização do solo, que compromete precisamente a capacidade da terra de respirar e, quando usado indiscriminadamente, é responsável pela formação de ilhas de calor, tornando as cidades cada vez mais quentes. À semelhança do pensador e ativista indígena Ailton Krenak, também Uyra encara a terra por baixo desta camada de artificialização não como morta, mas num sono forçado, do qual a artista pretende, com esta performance, ajudar a despertar.
Tal como Eloísa, também Uyra se mostra otimista com a possibilidade de “curar” os sistemas naturais: “Enquanto nos movemos, enquanto respiramos, enquanto sonhamos, enquanto sorrimos e trocamos histórias, nem que seja uma história boba daquela tarde na infância, ainda é possível curar”, assegura, apesar de reconhecer que os desafios persistem. Se, no passado, eram as missões coloniais a recorrer à violência para lidar com a diferença, hoje, para a artista, teremos de ser capazes de construir com a diferença.

Fotografia cedida pelo Teatro Aveirense, Município de Aveiro
Para o professor e dramaturgo Jorge Louraço Figueira, curador da mostra, a Amazónia é um tema incontornável, que deveria estar “no centro das nossas preocupações” em contexto de crise climática. Tal não significa, contudo, que todos os espetáculos tenham uma relação direta com o tema, até para se evitar conceptualizações que acabassem por cair no exotismo. Por outro lado, esta perspetiva ampla procura também evitar o antagonismo da Amazónia versus Ocidente que, no limite, poderia reforçar a perspetiva extrativista com que a região vem sendo encarada. Não é um recurso, mas um lugar diverso, onde cabe a floresta, a cidade e uma grande diversidade de produção intelectual, indígena ou não.
O teatro como direito humano
Um exemplo histórico dessa diversidade é o grupo cultural Yuyachkani, sediado em Lima, no Peru. A companhia independente traz ao festival Des-conocido, um solo de Julián Vargas com base num trabalho pedagógico desenvolvido pelo ator num hospital psiquiátrico. Embora o espetáculo tenha estreado em 2023, as oficinas já têm vários anos, mas permaneceram no “arquivo do ator e foram-se configurando com o tempo”, conforme detalhou Julián Vargas em entrevista ao Gerador, após um ensaio no Teatro Aveirense. Com esta experiência, que parte da solidão de um homem abandonado à sua sorte num hospital psiquiátrico, de traumas e alucinações visuais e auditivas, a companhia dá destaque a um tema que considera importante e necessário. “O Estado não quer encarregar-se destas pessoas, porque são um fardo”, constata Julián Vargas, que reconhece uma tendência de abandono também nas famílias. “O paciente encontra-se entre dois muros: o da família que o abandona e o do Estado que o abandona. Acreditamos que com este trabalho podemos impulsionar uma forma distinta de encarar o tema da saúde mental”, concretiza.
A Yuyachkani, palavra quechua que significa “estou a pensar, estou a recordar”, celebra este ano 55 anos de atividade, e tem na criação coletiva a sua identidade. Conforme explica Miguel Rubio, diretor artístico da companhia que assume também a direção deste espetáculo, os atores e atrizes têm temas de interesse pessoal que trabalham desde a raiz, como aconteceu com Julián, num processo a que Rubio se juntou já na fase final. Para o diretor, a criação coletiva é mesmo uma afirmação anticolonial, ligada à efervescência cultural que brotou na América Latina em meados do século XX, que mostra que o teatro não chegou ao território há 500 anos com a conquista, existindo já formas de representação e teatralidades muito anteriores a esse período. Para Julián, sair da hegemonia não tem como objetivo ser original, mas ser consequente ou, na leitura de Rubio, não se trata de ser original mas de regressar à origem. E dentro desse conceito não cabem elites. “O teatro é um direito humano”, declara Rubio, por isso não tem de ser feito por especialistas, como acontece com Des-conocido, que parte de uma troca de saberes numa oficina feita num hospital.
Quando perguntamos a Miguel Rubio como se sobrevive enquanto estrutura independente durante 55 anos, o encenador e fundador da Yuyachkani não tem uma fórmula, sobretudo em tempos como estes, de cortes na cultura. Apesar das dificuldades, continuam a formar-se grupos artísticos na América Latina, algo que o poder não encara com bons olhos: “Qualquer espaço contestatário emergente é uma ameaça”, conclui Miguel Rubio.
Capitalismo e racismo, 70 anos depois
Também para Wellington Fagner, “o teatro é uma ferramenta política”. O encenador brasileiro convoca, na sua proposta, uma personagem de meados do século passado: Panchito González. Criada por Osvaldo Dragún, a Historia de cómo nuestro amigo Panchito González se sintió responsable de la epidemia de peste bubónica en Africa del Sur faz parte de uma tríade de breves histórias que o dramaturgo argentino levou à cena no final da década de 50. Panchito aceita um contrato para vender carne na África do Sul, mas quando percebe que só terá rentabilidade se baixar a qualidade, vende carne de rato e desencadeia uma epidemia. Apesar de breve, a história é uma reflexão sobre capitalismo (e um dos seus subprodutos, o subemprego) e também sobre racismo.

Panchito González
Fotografia cedida pelo Teatro Municipal Sá de Miranda, Viana do Castelo
“O Panchito hoje é o entregador de aplicativo, é o motorista da iFood”, contextualiza Fagner em entrevista ao Gerador após uma apresentação em Viana do Castelo, para se referir aos falsos empreendedores que, na verdade, são explorados por grandes tecnológicas sem quaisquer garantias laborais.
A adaptação de Fagner alarga a já contundente reflexão de Osvaldo Dragún sobre o racismo (“crê que pode fazer mal a um negro comer carne de rato?”), questionando se tudo aquilo aconteceria com americanos ou europeus.
As quatro apresentações do espetáculo durante o festival (Ericeira, Mafra, Viana do Castelo e Águeda) resultaram de residências artísticas. Muitos nunca tinham pisado num palco, conta Wellington ao Gerador, mas através de jogos e exercícios, descobriram que “podem ser atores”.
Para Jorge Louraço Figueira, estas propostas podem contribuir para combater uma visão exótica da Amazónia, ao trazer propostas urbanas e sofisticadas que normalmente não cabem nesse estereótipo.
O festival Todos São Palco envolve 16 instituições culturais portuguesas, 14 das quais integrantes da Rede de Teatros e Cineteatros, e 13 cidades.
A programação completa está disponível aqui.