O gatilho dispara no milésimo de segundo que resulta em golo, na celebração eufórica que faz vibrar o estádio, no momento exato de cortar a meta e no rasgo de alcatrão que o piloto atravessa a alta velocidade. A adrenalina de captar o momento certo, de fotografar a imprevisibilidade do agora, é uma corrida contra o tempo e contra aquilo que vemos. Algures entre a ação e o desconhecido, de máquina fotográfica em riste, está o fotojornalista Filipe Amorim, pronto a contar uma história em imagens.

O repórter fotográfico, Filipe Amorim, foi o primeiro e único português premiado no concurso da AIPS Sport Media Awards 2020, alcançando o 2º lugar na categoria de Jovens Repórteres de Fotografia. A 3ª edição do concurso internacional, promovida pela Associação Internacional de Jornalistas de Desporto, aconteceu este ano em formato online. O Sport Media Awards é o maior prémio internacional de comunicação na área desportiva, atraindo mais de 1500 jornalistas desportivos de todo o mundo, das áreas de fotografia, vídeo, imprensa, digital, podcasts e blogues, a concorrer com os seus trabalhos.

Comemorações da conquista do Campeão Europeu, Lisboa 2016 @Filipe Amorim

“É tudo uma questão de determinação”, foi a fotografia levada a concurso e o presságio que dita o lema de profissão. Um atleta português deitado no chão, exausto, com respiração ofegante e olhar vazio, foi a narrativa que levou o fotojornalista ao grande plano internacional. A imagem que percorreu galerias do “The Guardian”, que narra o cenário oculto das grandes competições de corta-mato internacionais, desafiou a lente e a perspicácia de Filipe Amorim, num acaso imprevisível que mereceu distinção. No pódio final, encontrou o fotógrafo Zhenbin Zhong, com o trabalho “Momento Simétrico”, e a vencedora Anna Szilágyi, autora da fotografia “Campeões Europeus”.

O Gerador entrou em campo, à conversa com o fotojornalista desportivo Filipe Amorim, para falar sobre a conquista do prémio internacional, a exigência da profissão, e a importância da educação e da cultura visual, num mundo repleto de estímulos que nos encaminham o olhar, por vezes, para a ação mais inesperada.

Gerador (G.) – Recordemos o início do teu percurso. Como surgiu a fotografia na tua vida?
Filipe Amorim (F.A.) - Começou desde pequeno, o meu pai sempre teve máquinas fotográficas e eu cresci já com essa relação com as máquinas. Nunca quis ser fotógrafo, queria ser treinador de futebol. Sempre estive ligado ao futebol, mas só entre os meus 16 e 17 anos é que o “bichinho” da fotografia despertou. Comecei a escrever crónicas de jogos de miúdos, o meu pai fotografava e eu escrevia. Depois comecei eu a fotografar também, e fui largando a escrita aos poucos. A sensação de estar mais próximo do relvado seduzia-me mais do que escrever. Acabei por ingressar em Desporto na Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa. Nessa altura, fotografava os meus colegas a jogar e foi quando percebi esta paixão. No 2º ano desisti da faculdade e ingressei em Fotografia, na ETIC, num curso de dois anos. Passei por várias áreas e cadeiras, uma delas o fotojornalismo. Eu já ia convicto de que queria ser fotógrafo de desporto. Tirei o curso, já com a certeza de que queria trabalhar em jornais e agências, em foto editorial, e meses depois consegui uma colaboração com a Global Imagens.

Evento de Fórmula 1, em Portimão, 2021 @Filipe Amorim

(G.) – Acabaste por te manter relacionado com o desporto, mas de um outro lado do campo. Falavas dessa sensação de estar próximo do relvado… que mais te atrai no fotojornalismo desportivo?
(F.A.) – O que me cativa é fotografar o agora, sem possibilidade de repetição. Se fizer só retratos, posso ver se ficou como imaginei, e depois repito. Na fotografia de desporto há momentos chave que não se repetem. A sensação de adrenalina cativa-me a 200 por cento. Por exemplo, a semana passada fui fazer o evento da Fórmula 1, e comentei com um colega “tenho o coração a mil”. Esta sensação de fazer um grande evento, que é só no agora, é brutal. Quando fiz o caminho do desporto como praticante tinha de estar concentrado 90 minutos, agora é o mesmo, mas retrato os outros que o praticam. Fotografar no estádio cheio também é indescritível. E adoro a pressão do trabalho, o não poder errar.

(G.) – Certamente foi essa adrenalina e paixão que te levaram a candidatar a um concurso internacional, como os prémios Sport Media Awards da AIPS. Fala-nos de como chegaste até à candidatura.
(F.A.) – Descobri através da newsletter da Associação, numa das notícias vi que tinham aberto as candidaturas e decidi concorrer, sem pensar muito. Eu já tinha levado esta fotografia anteriormente a concurso, no World Sports Photography Awards, na 1ª edição. Já tinha a foto e o texto feito, e de certa forma, já a tinha testado, então acabei por usá-la. Este concurso da AIPS ocorreu em cinco fases, e eu fui passando. Só durante a gala online é que soube que tinha ficado no 2º lugar e foi ótimo! Eu acho que a fotografia de desporto não dá para trabalhar para concursos, não dá para pensar para prémio, como um World Press Photo, ou mesmo Estação Imagem. Tudo na fotografia de desporto é imprevisível e subjetivo em termos de avaliação, daí ter sido ótimo vencer este lugar!

"É tudo uma questão de determinação" com o atleta português André Pereira no Campeonato Português de Corta Mato, 2019 @Filipe Amorim

(G.) - Uma prova dessa imprevisibilidade é a tua fotografia, “É tudo uma questão de determinação”. Conta-nos a história por detrás desta imagem.
(F.A.) - Na 1ª edição do World Sports Photography Awards, ganhei na categoria de Determinação, e então achei por bem usar esse nome para esta candidatura. Sou péssimo a dar nomes a fotos, nunca sei o que dizer! (risos). A foto é picada, não tem um ângulo normal. Aconteceu nos Campeonatos da Europa de corta mato, os fotojornalistas estavam nos palanques a fotografar e o André Pereira, atleta português, chegou à meta em vigésimo e tal. Eu estava a fazer fotografia para “O Jogo”, com enfoque nos atletas portugueses. Tirei a foto do primeiro lugar e depois começa aquela cadência de atletas a chegar à meta, muito cansados, alguns a vomitar e tudo. O André passa a meta e vê o espaço dos fotógrafos, senta-se e depois deita-se de olhos fechados. Eu como estava no palanque de cima, coloquei a máquina a 90 graus e pensei “era tão melhor se ele abrisse os olhos”. Decidi disparar repetidamente o gatilho, para tentar interagir com ele, pensando que se ele ouvisse a máquina disparar iria abrir os olhos. Só tenho três fotos dele de olhos abertos, no meio de tantas. O olhar vazio, de quem chega exausto. Eu gosto muito da foto, tem alguma piada ele estar deitado ali num sítio inesperado, os outros fotógrafos nem ligaram muito, mas eu achei interessante. Mas não foi pensado, ele deitou-se à minha frente (risos).

(G.) - Acabou por ser um momento totalmente imprevisível. Fotografar no teu espaço de trabalho, onde não havia ação principal.
(F.A.) – Mesmo! Eu tenho vício de tentar procurar fotografar o que se passa onde não há a ação, onde não há “bola”. Muitas vezes dá fotos boas porque é aí que está a imprevisibilidade, a essência do desporto. Acho que o desporto é muito mais do que um plano apertado que todos conhecemos. Por vezes nem se sabe o local do evento, porque não há contexto na imagem. Gosto de fotografar grandes angulares e de procurar o que outros não têm. Nesse dia do campeonato estava imensa gente a fotografar o atleta que ganhou. Também é necessário, claro, mas podemos procurar o diferente.

(G.) - Que nova visão te trouxe esta conquista? Alterou a forma como conduzes o teu trabalho, a nível profissional e até pessoal?
(F.A.) - O que tiro mais deste concurso, e do momento da fotografia, é que é mesmo importante mostrar aquilo que não é suposto ver, ou o lugar onde as câmaras não apontam. Não no sentido de paparazzi, mas onde a ação não esta a decorrer. É aí que eu procuro estar. Por exemplo, com a pandemia, o primeiro dérbi que fiz foi o Sporting-Benfica. Fiz uma história sobre o estádio estar vazio. Antes do jogo começar, dirigi-me à porta por onde entram as claques e estavam fechadas, sem ninguém, quando era suposto estarem milhares de pessoas. Para mim, isso é uma fotografia, uma história. Com o passar dos anos na profissão, quero cada vez mais contar a história com princípio, meio e fim. Fazer um evento ou um espetáculo e contar uma história. Isso beneficia muito o trabalho enquanto obra e beneficia o leitor, quem vê, porque permite o acesso a algo que a maior parte não mostra. Na televisão, ou mesmo nos jornais, só saem fotos bonitas, e ali mostramos o que não é suposto mostrar…

O ARC Oleiros frente ao Sporting CP na Taça de Portugal 2017/18 @Filipe Amorim

(G.) - Achas que cada vez mais a sociedade procura esse behind the scenes?
(F.A.) – Sem dúvida. Uma prova disso, em relação ao desporto, é a série da Netflix da Fórmula 1. É um sucesso porque mostra o que ninguém vê. De 1950 a 2021, durante cerca de 68 anos, nunca ninguém viu como interagem os pilotos, se são amigos. Havia toda uma suposição do espaço e, apesar da parte mais “novela”, acaba por mostrar um pouco esse outro lado. O público quer muito ver isso. Nesta era, em que vivemos numa saturação visual, toda a gente acha que pode fazer notícia de tudo, e tudo é válido. Eu acho que os profissionais da área têm de ir buscar o “ser diferente”, em bom. Dar conteúdo diferente, mais apelativo. Por exemplo, na final da Liga dos Campeões havia 180 fotógrafos. Tens fotos de todos os ângulos possíveis e imagináveis! Para ser diferente tens que ir buscar outro ângulo, para não ser igual aos outros. O leitor acaba por dar valor a isso. No Observador, onde estou atualmente, procuro sempre dar outro lado, porque o jornal me permite isso, claro. Num jornal desportivo querem fotos da bola, não há espaço para fotos artísticas. Esta foto do prémio nunca foi publicada, ficou numa gaveta. Depois foi publicada no “The Guardian”, devido ao outro prémio. É a prova de que o público gosta de ver diferente, mas nós, fotojornalistas, também devemos procurar não dar sempre o mesmo.

(G.) – No panorama profissional, que fotojornalistas segues, que te inspiram a “ser diferente”, como falavas?
(F.A.) – Há três nomes, dois deles grandes inspirações de trabalho. O Miguel Barreira e o Paulo Calado. Andam nisto há 20 e tal anos, ainda eu andava na faculdade e já comprava jornais para ver o trabalho deles. Hoje em dia, trabalhar ao lado deles, especialmente com o Paulo, é ótimo. Discutir fotografia, mostrar trabalho, pedir opinião… O José Sena Goulão, da Lusa, não conhecia o trabalho dele, mas hoje admiro e é muito meu amigo. Depois também acho importante ver outro tipo de trabalhos e transportar para o desporto, até a nível de cultura visual, eu dou imenso valor a ver exposições de arte, pintura e escultura.

(G.) – Isso é muito pertinente, a cultura visual enriquece qualquer área, ainda mais no fotojornalismo. E ver trabalhos de outros profissionais é essencial.
(F.A.) – Sim. A cultura visual é, muitas vezes, desprezada, mas tudo o que vejo é imagem. Ver e perceber o que resulta melhor é essencial. Esta foto do prémio tenho a certeza que foi uma foto que eu vi alguma vez tirada a 90 graus e que me vez sentido, e mais tarde se reproduziu naquele momento no meu inconsciente. Eu vejo imensos trabalhos destes fotojornalistas que falei. Ainda na semana passada estava a fotografar com eles ao meu lado. É muito importante ver o que fazem, a atitude em campo, ver o que fizeram no mesmo local que eu. O que falhei, o que podia ter feito diferente…

3ª etapa da 81ª Volta a Portugal em bicicleta @Filipe Amorim

(G.) – Voltando à cultura visual, como é que se transporta para o teu trabalho?
(F.A.) - Quando estudava, tinha uma professora que insistia muito para irmos a exposições. No início achava aborrecido, mas acabei por ir a uma. A grande peça da exposição era uma fotografia de uma pedra, e lembro-me de pensar “isto não é nada”. Ao lado haviam várias fotos iguais de anos diferentes. O fotógrafo ia todos os anos, no mesmo dia, fotografar aquela pedra. Aquilo mostrava que ele tinha um compromisso com o trabalho, que eu hoje valorizo. Ele agarrou num tema banal e fotografou, comprometido com aquilo. Outro exemplo é o meu fascínio por simetrias perfeitas. Eu gosto de fotografar coisas repetidas e tento reproduzir em imagens essa geometria perfeita. Para as fotos levo isso, o enquadramento direito, régua e esquadro perfeito. Levo isso porque vejo obras que me levam a este pensamento. Acho fundamental que quando falamos de fotografia e jornalismo, devemos procurar essa cultura visual. Ver exposições de várias áreas artísticas, ler muito, livros de fotografia bons e com imagem.A sinergia que há entre as diversas áreas artísticas agrada-me. Gosto que uma exposição me desperte vários sentidos, desde imagem, texto e som. Isso apela-me a desenvolver um trabalho que não seja um fim por si só, mas que tenha uma linha contínua e uma história.

Texto de Ana Mendes
Fotografias da cortesia de Filipe Amorim

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