Balada para Sophie é a nova novela gráfica, com o pianista, realizador de cinema e autor de banda desenhada português, Filipe Melo, no argumento, e o director de arte cinematográfica, designer e ilustrador argentino, Juan Cavia, na ilustração. Lançadas a 13 de Setembro de 2020, estas 320 páginas, editadas pela Tinta da China, poderão ser folheadas nos Estados Unidos da América no próximo ano, levadas pela Top Shelf Productions.

Uma jornalista, Adeline, toca à campainha da casa de um velho pianista, Julien Dubois. Começa assim a balada, que vai sendo tocada por imagens até ao momento em que a podemos escutar. Acompanhamos um encontro com uma dimensão poética imensa, que vive do inesperado e da aproximação lenta às histórias que só o afecto pode abrir. A antiga rivalidade de Dubois com outro pianista, François Samson, tornara-se um fantasma, que, mesmo no fim da vida, circunda-o como uma mancha de fumo.

Mas, depois de tudo, ainda pode haver música. Com o cuidado que permite salvar o brilho para a leitura, os autores conversaram com o Gerador sobre este caminho.

Gerador (G.) – Como começou esta história, em ti?

Filipe Melo (F.M.) – Suponho que tinha muita vontade de voltar a trabalhar com o Juan. É sempre uma experiência muito feliz. Em relação à história propriamente dita, não sei donde veio, nem como apareceu, mas talvez tenha vindo de uma vontade genuína de estar em contacto com um lado mais emocional, mais catártico e mais piegas que sentia que estava bloqueado por uma série de razões pessoais.

G.  – Como se conta uma história com tão poucas palavras, o que é um dos verdadeiros desafios da BD?

F.M. – Há diversos desafios, alguns mais técnicos, como ter um layout claro, boa direcção de actores (a representação dos bonecos!) e, no meu caso, ter uma boa comunicação com o desenhador. Para mim, no entanto, o maior desafio é encontrar uma história que queira realmente contar, nem que seja porque uma BD demora muito tempo a concretizar. A história vai estar connosco durante muito tempo, durante anos, até chegar aos leitores. É preciso muita convicção para não desistir a meio. 

G. – De que forma se ilustra uma história já “vista” por quem a escreveu, isto é, que já foi imaginada?

Juan Cavia (J.C.) – Em princípio, podia dizer a seguinte frase: “um desenhador traduz signos linguísticos em visuais”, isto é, por mais descritivo que possa ser um relato, são sempre signos linguísticos. O desafio é como interpretá-los e traduzi-los, de forma concreta, em imagens que descrevam, visualmente, o mesmo que o guião mencionava.

Para isso, fomos encontrando um processo de trabalho que consiste numa série de etapas até chegar às imagens que melhor transmitam essas ideias.

En principio, podría decir la siguiente frase: “un diseñador traduce signos lingüísticos a visuales”, es decir, por mas descriptivo que pueda ser un relato, siempre son signos lingüisticos. El desafío es como interpretarlos y traducirlos concretamente en imágenes que describan, visualmente, lo mismo que el guión mencionaba.

Para ello, fuimos encontrando un proceso de trabajo que consta de una serie de pasos hasta llegar a la imágenes que mejor transmitan esas ideas.

G. – Como foi o teu processo criativo?

J.C. – Está um pouco relacionado com a resposta anterior. Esse processo de tradução de palavras em imagens é um pouco a coluna vertebral do processo criativo. Para isso, estruturamos uma ordem com directrizes específicas, a curto prazo. De outra forma, um livro tão extenso seria quase impossível de realizar, entre outros trabalhos. Então, íamos estabelecendo pequenas metas tangíveis, como montar um moodboard, através de sequências de imagens de referência, que aproxime, um pouco, o clima procurado, depois, fazer um pré layout, que seria traduzir a linearidade do livro numa divisão temporal por páginas e quadrados, posteriormente, um layout em esboços de cada sequência. E, assim, progressivamente, íamos alcançando metas, que eram possíveis num ou dois meses de trabalho, o que permitia dar passos concretos e firmes.

Está un poco vinculado a la respuesta anterior. Ese proceso de traducción de palabras a imágenes es un poco la columna vertebral del proceso creativo. Para eso, estructuramos un orden con pautas posibles a corto plazo. De lo contrario un libro tan extenso hubiese sido casi imposible de hacer en medio de otros trabajos. Entonces íbamos poniendo pequeñas metas tangibles, como armar un moodboard, por secuencias con imágenes de referencia, que acerque un poco el clima buscado, después hacer un pre layout que sería traducir la linealidad del libro a una división temporal por páginas y cuadros, luego un layout en bocetos de cada secuencia. Y, así, progressivamente, íbamos alcanzando metas que eran posibles en un o dós meses de trabajo, lo cual permitía ir dando pasos concretos y firmes.

G. – Qual a razão da escolha de uma geografia (França) e, numa parte da narrativa, de um período histórico (Segunda Guerra Mundial) específicos?

F.M. – Um dos motores do livro era distorcer algumas coisas que existem no mundo real — o próprio título partiu de uma música do famoso pianista Richard Clayderman — “Balada para Adeline“. O nome de uma das personagens é muito próximo de um virtuoso pianista francês chamado Samson François, que existiu mesmo. A ideia de se passar em França veio daí, mas distorcemos isso também — é uma França imaginária, à excepção de Paris, nenhum dos outros sítios existe. É, no entanto, impossível fazer com que algo se passe em França na década de 40 sem falar da Segunda Guerra Mundial, que é um período da história que sempre me despertou um particular fascínio por ser feito de contrastes tão grandes a nível de empatia e humanidade, que são pontos fulcrais desta história.

G. – Apesar de, no final do livro, se compreender que o tema principal não é apenas a rivalidade entre os pianistas, incontornável para o lançamento e movimento da narrativa, estando-se a par do teu percurso profissional enquanto músico, não podemos deixar de reparar nesta relação. Esta questão é desencadeada pela forte pressão que a mãe de Julien Dubois exercia sobre ele, desde criança. Consideras que, na música, como noutras áreas artísticas, que, para serem seguidas profissionalmente, devem ser praticadas o mais cedo possível, há uma exigência que, facilmente, se torna numa violência para a criança, sendo que esta é reforçada, muitas vezes, pelo facto de ser um meio com falta de “espaço”?

F.M. – Acho que na música, ou em qualquer outra área ou ocupação artística, a idade não é importante para a aprendizagem. Acredito que qualquer pessoa pode exprimir-se de forma relevante e significativa, independentemente da idade em que começa. Acho que o factor imprescindível para se seguir algo profissionalmente é mesmo se a pessoa, por uma série de factores, tem algo a dizer ou a acrescentar, ou não. Isso não tem que ver com idade, tem que ver com uma série de outras coisas, algumas mais identificáveis e concretas, outras mais abstractas. Existe esse mito, que para se ser bom nalguma coisa tem de se começar muito cedo. Já vi de tudo — pessoas que tinham facilidade e começaram cedo e desistiram, e pessoas que começaram tarde, que tinham dificuldades e que fizeram coisas maravilhosas. Não existe uma fórmula, uma regra. Essa exigência no ensino que se torna violenta para as crianças é muito perigosa e traumática — as crianças têm de brincar, de usar o piano como se fosse um brinquedo. Aliás, o verbo é igual em francês e inglês – “jouer”, ou “to play”. Em português é “tocar”. Devia ser brincar com o piano, mesmo na idade adulta. A pressão não faz bem a ninguém.

G. – Esta história também parte de uma injustiça estrutural, que é o facto de uma criança ter todas as possibilidades socioeconómicas para desenvolver o seu talento, e outra não. Para além disso, ocorreu um suborno que traçou uma espécie de destino, o que agrava este problema. Fazer notar a existência de um elitismo no acesso a determinadas formações artísticas e de uma rede de contactos foi uma preocupação tua?

F.M. – O elitismo, no acesso ao que quer que seja, é horrível, e deve ser uma preocupação de todos. O acesso à saúde, à cultura, à educação, à dignidade, no geral, devia ser igual para quem é posto neste planeta — algo que ninguém escolheu fazer. Infelizmente, o acesso não é igual para todos — acho que todos temos de fazer um esforço para que seja, para que este acesso seja universal. Felizmente, na música, hoje em dia, é tudo mais fácil — existe acesso a muitas coisas que, na altura em que aprendi, não existiam, nomeadamente o YouTube. Lembro-me de que, quando comecei com o piano, apanhava muitos solos de ouvido, mas nunca tinha visto a cara de muitos dos meus músicos favoritos, porque não havia vídeos, só discos. Falo do Wynton Kelly, do Red Garland, de tantos outros. Eram só som, para mim. Nunca tinha visto a forma como os dedos deles se moviam num teclado.

Em relação à educação formal, é claro que ainda é elitista. Há também um preconceito enorme em relação à profissão do músico. Até que seja consagrado, o músico é visto como um preguiçoso, um inútil. Já ouvi muitos comentários destes ao longo da vida. Para se ter aulas particulares é preciso pagá-las, e isso não é para todos. Penso também que, para se ter acesso a uma escola, onde se pode tocar com outras pessoas e aprender em grupo, ainda é preciso um investimento grande, não há muitas possibilidades de o fazer gratuitamente. Felizmente, existem projectos, como a Orquestra Geração, que facilitam o acesso ao ensino da música enquanto experiência comunitária — agarram em jovens, muitas vezes de famílias com enormes dificuldades, e integram-nos em orquestras e ensembles. São projectos incríveis, que devem ser apoiados e estimulados, e que têm resultados práticos de enorme sucesso.

G. – A obra termina com uma partitura de “Balada para Sophie”, uma composição inédita tua. O que esperas do leitor, quando encontrar esta página?

F.M. – Inicialmente, esta partitura não ia existir — ia deixar esse espaço para a imaginação do leitor. O meu amigo Juan Cavia insistiu para que essa partitura existisse, queria que os leitores tivessem quase uma interacção com a história.  Fico contente por ter seguido a sugestão dele. Espero despertar, portanto, no leitor, alguma curiosidade. Idealmente, se o leitor souber tocar piano, que vá até ao teclado e veja como é aquela música. Se não, que encontre alguém que o possa fazer, que possa tocar a música para que ela possa ser ouvida. No fundo, é uma espécie de convite. Tentei, na escrita da música, pensar como o nosso personagem pensaria, foi um desafio grande, nunca tinha escrito música assim. O nosso livro anterior, Comer / Beber, acabava com uma receita de uma tarte. Algum tempo depois, vários leitores enviaram imagens de tartes que fizeram a seguir a receita do livro, algo que me deixou muito contente. Isto, na verdade, não é assim tão diferente. Tenho o desejo que alguém toque a música e gostava de ouvir o resultado, porque cada interpretação será diferente, será pessoal, será um bocadinho de quem a lê.

G. – Este trabalho é dedicado a Beatriz Lebre, a jovem pianista que foi morta pelo colega da universidade. O que lhe diz esta música?

F.M. – A música diz tudo, era isso que me ligava à Beatriz, e esta dedicatória é um agradecimento por todo o apoio que me deu, e um gesto simbólico de tributo a alguém que eu admirava. Espero que o seu nome seja lembrado pela sua personalidade luminosa e pelo enorme talento musical que tinha e não pela forma como partiu.

G. – Porque escolheste dois humoristas para conversar sobre o livro, no seu lançamento?

F.M. – Não escolhi dois humoristas. Escolhi dois amigos de longa data, com quem colaborei em inúmeros projectos e por quem tenho a maior consideração artística e pessoal.

G. – Não estamos habituados/as a ver publicadas obras de BD com um elevado número de páginas, em Portugal… Como caracterizas o estado deste género, aqui, seja a nível do tipo de trabalhos a ser desenvolvidos, seja da publicação e do público?

F.M. – A BD, em Portugal, ainda é um nicho — por um lado, existem muitos artistas de enorme talento e uma comunidade criativa e forte, por outro, ainda é muito difícil produzir e editar um livro, porque não existem tantos leitores como gostaríamos. Espero que isso mude com o tempo. Por isso, tenho uma genuína gratidão por toda a gente que compra os nossos livros e lê as nossas histórias, e que fala nelas e as divulga. É isso que nos tem permitido ter energia e meios para continuar — e que nos permitiu fazer sete livros juntos. Espero fazer a minha parte para que se restabeleça uma relação de confiança entre quem faz um livro e quem o lê, e que isso estimule novos autores e novos leitores.

É importante que se estabeleça um pacto. De um lado, existe o esforço de melhorar os livros, de surpreender e prender os leitores. Do outro, existe a compra dos livros e uma leitura atenta e crítica. É esse o pacto que é preciso para que a BD volte às prateleiras. Existe também o compromisso de divulgar e promover a BD como uma arte, não como bonecada infanto-juvenil — é frequente encontrar o nosso livro, Balada para Sophie, que tem cenas de orgia e de consumo de drogas, na secção infantil das livrarias. Por um lado, adoro, dá-me um quentinho saber que isto acontece, mas é importante perceber que a BD é como a música, como o cinema, a literatura. Há uma infinidade de coisas e de histórias que podem ser feitas e contadas nesse formato.

G. – Relativamente à Argentina, como retratarias a relação com a BD?

J.C. – É complicado… As publicações impressas estão em crise em todo o mundo, parece-me. Na Argentina, a BD está em crise há muito tempo. Há leitores, mas não os suficientes para que as editoras possam investir com risco. Esse é um problema que ultrapassa o mundo das novelas gráficas. Aqui é mais comum ler um autor argentino, graças a uma edição estrangeira do que a uma local, mas é algo que muitos editores têm tratado e continuam a tentar mudar. Creio que o problema principal é a instabilidade económica. Porém, ultimamente, tem aumentado o número de algumas edições independentes, que procuram ter um produto com menos tiragens, mas com melhor qualidade, e, isso, está a permitir a reaparição de edições nacionais, que practicamente tinham desaparecido.

Es complejo…. Las ediciones impresas están en crisis en todo el mundo, me parece. En Argentina, la BD viene en crisis hace mucho tiempo. Hay lectores, pero no se si los suficientes para que las editoriales puedan invertir a riesgo. Eso es un problema que excede el mundo de las novelas gráficas. Aquí es mas común leer a un autor argentino gracias a una edición extranjera que a una local, pero es algo que muchos editores han tratado y siguen intentando cambiar. Creo que el problema principal es la inestabilidad económica. Sin embargo, últimamente han crecido algunas ediciones independientes, que buscan tener un producto con menos tirada pero de mejor calidad, un poco boutique y eso está permitiendo la re aparición de ediciones nacionales que prácticamente habían desaparecido.

G. – Já se sabe quando é que esta obra chegará ao público argentino?

J.C. – De momento, não tenho nenhuma certeza de que este livro, assim como os seis anteriores, chegue, alguma vez, ao público argentino. Os meus amigos e colegas não viram mais do que podem ver no meu Instagram.

Por el momento, no tengo ninguna certeza de que este libro, al igual que los seis anteriores, llegue alguna vez al publico argentino. Mis amigos y colegas no han visto nada mas que lo que pueden ver en mi Instagram.

*Este artigo encontra-se ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Ilustração de Juan Cavia