É nos dias quentes, em que o sol e a música andam de mãos dadas, que o Festival de Música dos Capuchos se faz ouvir. Depois de duas décadas de silêncio o Festival retoma uma nova edição que recorre ao passado para momentos de introspeção, partilha e conhecimento perante a Cultura.

Decorrendo no Convento dos Capuchos e partindo do conceito "5 Séculos de História e 5 Séculos de Música” a viagem na criação musical, que percorre cinco séculos, partiu de um local que abraça Almada desde o séc. XVI. Honrando o período “ativo” do Convento e passando pela sua construção, ao declínio com a extinção das ordens religiosas, um dos eixos programáticos escolhidos para este (re)começar foi o Repertório musical dos séculos XVI a XVIII, que ultrapassa épocas como o Renascimento, o Barroco, o Classicismo.

O Gerador esteve à conversa com o diretor artístico do festival, o pianista e maestro Filipe Pinto-Ribeiro, que depois de ter o seu primeiro contacto com a música e os Capuchos nos anos noventa, traz-nos também as memórias de um adolescente que, hoje, é um nome relevante para a concretização do festival e da sua programação.

Diretor Artístico do festival, Filipe Pinto-Ribeiro

Gerador (G) - Cerca de duas décadas após a sua última realização, de que forma o Filipe, como diretor artístico, e o Festival de Música dos Capuchos se (re)encontram?

Filipe Pinto-Ribeiro (F. P. R.) - Na minha memória e na memória coletiva, o Festival dos Capuchos é, de facto, um evento que perdurou, apesar deste parêntese de 20 anos. É algo que recordo-me de ainda ser jovem, até porque eu fui estudar depois para Moscovo e Berlim alguns anos, mas enquanto ainda cá estava (Portugal), nas décadas de oitenta e até meados da década de noventa, sempre ouvi falar muito do festival. Não estava presente porque sou do norte, do Porto, na altura, e visitei só numa ocasião, era adolescente, e adorei. O enquadramento é extraordinário; o espaço é mágico e, de facto, durante todos estes anos, desde que regressei em 2002 - um ano após o festival ter a sua última edição - e nestes vinte anos ouvi muito falar sobre o festival. Foram-me relatadas experiências muito interessantes da sua programação que, de facto, era muito original e eclética. Entretanto, no ano passado, o primeiro ano da pandemia, no meio de alguns projetos, de algumas situações e propostas foi manifestado pela Câmara Municipal de Almada a vontade de reerguer o festival. De o fazer nascer passados vinte anos que se cumprem este ano e, assim, começamos a pensar, a refletir e a reunir dados sobre o seu passado e sobre o que se pretenderia para o futuro, mesmo em termos de um novo conceito e de alguma diferença, como óbvio, sendo que passaram, entretanto, duas décadas. E, foi assim, que ao longo do ano passado (2020), fomos trabalhando, pesquisando, projetando, consultando muitas entidades e pessoas para chegarmos ao ponto em que estamos agora - a realização do festival.

(G) - Olhando para o festival durante a sua existência e, particularmente, nesta edição, existe uma relação unânime com a sua área geográfica, a história do Convento dos Capuchos e da cidade e, inevitavelmente, com a Cultura no seu todo, além do universo musical. Foi algo que estava implícito manter nesta edição?

(F.P-R.) - Sim, foi algo que surgiu com muita naturalidade. De facto foi um desafio, sem dúvida alguma, muito estimulante e muito inspiracional. Há aqui esta inspiração do passado do Festival que era muito rico do ponto de vista, também dos estímulos e da abordagem. Este é um festival que tem a assinatura, isto é, foi criado por José Adelino Tacanho, que era uma personalidade com muito critério, com muita qualidade, muito informada e moderna atendendo ao seu tempo e, portanto, há aqui um posicionamento do festival que é logo muito estimulante para um ponto de partida. Esse estímulo e essa inspiração também advém do próprio local porque o Convento dos Capuchos, localizado na Arriba Fóssil da Caparica, é um espaço único. São vários prismas. É um enquadramento extraordinário. É um cenário natural. É um convite à reflexão, à introspeção, mas também ao horizonte, aliás, a muitos horizontes. De facto, tem sido, ao longo destes primeiros dois fins-de-semana, uma constante tanto do ponto de vista dos artistas como do ponto de vista do público e dos conferencistas, na realidade, de toda gente que tem estado no festival. Há ali uma magia muito especial também que é conferida pelo local, pela história, por algo que às vezes não é assim tão palpável quanto isso, tão objetivo. São uma série de fatores que se conjugam para se sentir algo diferente, algo mágico.

(G) - Sabendo que o festival se prolonga até dia 3 de julho, assinalando assim metade da programação apresentada nas últimas duas semanas, como descreve este primeiro contacto com o festival? Podemos determinar uma evolução positiva?

(F.P-R.) - O público tem respondido muitíssimo bem, mesmo até logo no ponto de partida, porque houve concertos que ficaram esgotados, logo nas primeiras semanas e mais para a frente, portanto, eu acho que houve logo uma ligação muito forte com programação e a este regresso que acaba por ser algo muito ansiado do ponto de vista do público de Almada que, de facto, tem muito orgulho na história do festival dos Capuchos e no próprio convento. Dessa forma, houve aqui uma resposta muito positiva, eu diria mesmo entusiasta, não só por parte o público como a própria equipa da Câmara Municipal de Almada, do Convento dos Capuchos. Bem, eu acho que foi, aliás, tem sido, um conjunto de sinergias de grande valia a todos os níveis. Eu tenho sentido isso desde o início, que há uma boa vontade comum em colocar o festival como uma referência nacional e até mesmo internacionalmente para ter uma posição de destaque. E ao construir a programação isso também é visível. Há um conceito que é um arco temporal de cinco séculos, desde o início da história da construção do convento XVI até aos nossos dias. O mesmo com a música que se criou e interpretou ao longo destes mesmos cinco séculos também até aos nossos dias, começando no período contemporâneo da construção do correto que é o Renascimento e logo com os compositores portugueses, com esse período áureo da composição portuguesa que foi o Renascimento musical, com a música coral que abriu o concerto mundial com música de Bach até à música contemporânea, como por exemplo, o Sérgio Azevedo é compositor dos nossos dias, o jazz dos nossos dias. Portanto, há de facto um arco temporal que é preenchido ao longo do festival, uma estrutura também programática, isto é, o esqueleto da programação. Isso foi visível por exemplo ao contactar, um dos maiores alaudistas ou mestres da corda dedilhada nos instrumentos de música antiga, também nesse período do Renascimento e do Barroco, Hopkinson Smith, que é um americano extraordinário - talvez a grande referência mundial, o maior alaudistas das últimas décadas. Eu sabia que ele tinha estado no Convento dos Capuchos. Sabia também que ele tinha estado com o José Adelino Tacanho, com quem se tinha especializado durante um período de tempo na Basileia. Quando lhe fiz o convite, a aceitação foi imediata. Aliás, ele está na mesma semana num dos principais festival do Sul de Espanha, de música Clássica, em Granada, e até modificou as datas de forma a poder estar mais um dia festival dos Capuchos, no recital do próximo dia 26 de junho e, portanto, houve aqui alguma ligação ainda mais próxima. Uma ponte que acho muito feliz com o passado, quase um tributo ao José Adelino Tacanho e a todas as equipas e artistas que fizeram parte desta história de 21 anos que nós queremos também, de certa forma, homenagear, mas também estudar. Há aqui um intuito da pesquisa. Pretendemos fazer um trabalho musicológico de pesquisa do que foram essas vinte e uma edições, porque é algo que não está documentado da forma como deveria estar. Não há muitos documentos. Não há muita história do festival e nós pretendemos a partir deste ano lançar essa investigação, deixando também num livro, no fundo, esse tipo de trabalho relacionado com o passado. A memória é algo muito importante e que, muitas vezes, perdemos. Uma memória de algo que aconteceu há 20 anos deveria estar muito presente hoje em dia , até porque nós temos todos os meios, como é o exemplo da Internet, para aceder a muita informação, mas principalmente a partir do momento a que a mesma chegou à escala global que foi, curiosamente, o período em que o festival acabou. Portanto, nós não temos de facto muitos documentos e muita informação sobre o que se passou no festival nos anos oitenta e noventa. Sabemos de alguns nomes que estiveram presentes, mas falta-nos informação e acho que é muito importante que esse trabalho também se faça. Esse respeito com o passado em forma não só de tributo, como de continuidade e de um programa que se dedica a explorar também isso, mas, por outro lado, o nosso objetivo é também deixar um trabalho que permita uma reflexão sobre o passado e ser uma inspiração, no fundo. Nós somos todos elos de uma mesma corrente e, portanto, é importante perceber quais são os elos que estão ligados a nós de uma forma mais geral, não só em relação ao festival. Acho que é muito importante percebermos todos de onde vimos e o que podemos fazer. Isso é muito importante para a nossa atividade no presente e também para que nos seja possível saber e ter consciência do nosso passado.

(G) - Podemos falar de uma herança a que se percorre e até mesmo uma autodescoberta...

(F.P-R.) - Sim e a verdade é que ao longo destas duas primeiras semanas, eu tenho recebido muitos ecos de pessoas que estiveram no festival dos Capuchos nas melhores décadas de 80 e 90, recordam e que têm uma felicidade imensa, principalmente num ano que foi tão difícil. Aliás estes dois últimos anos foram muito difíceis para a Cultura, em todas as áreas, nós sabemos, mas especificamente para a Cultura, pelo facto de termos tido concertos e festivais cancelados no ano passado e mesmo este ano. Há aqui uma energia muito especial porque as pessoas estão muito felizes por estarem presentes. É um momento louvável do próprio trabalho que Câmara de Almada tem prestado num ano destes, o de apostar neste regresso. É algo também muito importante. Por vezes, os projetos acabam por cair, como foi o caso também do festival dos Capuchos, anteriormente, por falta de apoio e falta de verbas. Nós não podemos deixar de pensar que a Cultura é essencial na construção do indivíduo e é também essencial na construção da sociedade, das relações, do que é a nossa história e a nossa herança. Não podemos deixar cair a cultura de uma forma geral, mas essencialmente os eventos de qualidade e referência porque são de facto essenciais no seio da sociedade por muitos motivos. Claro que o motivo cultural nem necessita de ser justificado. é essencial ao Homem, à sua História, à continuidade. Aquilo que perdura é que nos faz perceber quem somos e o que estamos a fazer, mas nós sabemos que também há um impacto grande destes eventos, festivais e também a outros níveis, por exemplo ao nível da economia. Muitas vezes pensamos que são só os artistas, mas não são. Há uma série de outras atividades que estão ligadas a eventos culturais e, neste caso, também sofrem muito com a falta de atividade. Portanto, apesar das dificuldades, mesmo na realização de viagens, temos recebido artistas e públicos de outros países. Há aqui uma série de mais valias deste tipo de eventos que tornam o festival referência e que ultrapassam, no fundo, o essencial que Cultura, a divulgação cultural e a criação que necessita de ser muito bem compreendida e muito bem apoiada. Nós olhamos para o que é essencial e percebemos que é óbvio que há uma série de atividades que são fundamentais para a vida, mas a Cultura não pode ser vista como algo que é, no fundo, acessória e, muitas vezes, pensarmos que é só isso e é um erro. Depois percebemos que há um vazio e que a essência não está lá, isto é, a Cultura é uma argamassa da sociedade não há dúvida.

(G) - Trata-se também de uma partilha de bagagens e conhecimentos, não é? O festival abre as 'suas portas' para uma partilha de referências nacionais e internacionais e isso é também ganha uma dimensão consideravelmente relevante...

(F.P-R.) - Sim, há aqui várias dimensões. Além da dimensão musical há também uma vontade de cruzar a música com outras artes, aliás como acontecia no festival dos Capuchos anteriormente e, este ano, estamos a fazê-lo de uma forma evidente com a Literatura, com três grandes efemérides que é o caso do Dante, Baudelaire e Dostoievsky que este ano celebram centenário. Até mesmo do próprio Alfred Brendel que é, talvez, o músico vivo mais reconhecido à escala mundial. É um homem que foi um dos grandes intérpretes da segunda metade do século XX e início do século XXI e veio até nós fazer uma conferência da sua vida, ler a sua poesia e partilhar também uma ligação muito especial. Na última sessão chegamos a ter falta de tempo para ouvir todas as participações das pessoas que estavam presentes no ciclo e até mesmo nos concertos. Percebemos que se cria uma relação diferente e especial.

(G) - É também essa relação que marca o regresso do festival num ano que vive em dicotomia de distâncias e proximidades. É quase 'poético' olharmos para ele desta forma?

(F.P-R.) - Acho que 'poético' é um adjetivo muito feliz. É curioso, porque há um certo romantismo nos jardins do convento. As pessoas ficam muito em comunhão. Nestes últimos dois fins de semana tem sido extraordinário. Dou o exemplo do Alfred Brendel, que é um homem que faz este ano noventa anos. Foi uma satisfação enorme vir, ou seja, ele já tinha estado em diferentes concertos, na Fundação Gulbenkian, mas nunca num festival de música em ativo, digo como concertista e, depois, também com as conferências musicais, já há alguns anos, em Portugal. Neste tempo tão difícil, ter vindo, ter feito a viagem e, mais ainda, além de se ter proposto ao que lhe sugerimos, ainda estendeu a sua estadia durante mais um dia, em Almada, porque sentia-se tão bem que pretendia ainda ficar mais algum tempo. Eu acho que ele se sentia bem, por diversas razões mas também porque ele esteve três dias no Convento dos Capuchos. De facto, é muito especial, é diferente. É uma relação que se cria mais simples de chegar, fazer o seu concerto e sair. Esta relação de estar mais algum tempo é o que tem acontecido com vários músicos. Querem descobrir e, portanto, há uma abertura diferente. Isso tem também reflexo na partilha, no concerto e na própria criação artística que se partilha com o público. Há uma maior empatia e uma maior vontade de transmitir.

(G) -Voltando-nos agora para a segunda parte da programação, o festival retoma dia 26 de junho, correto? O que podemos esperar dos próximos dias?

(F.P-R.) - No dia 26 de junho temos uma dupla jornada de concertos por solistas da Orquestra Gulbenkian, que interpretam quintetos de Sérgio Azevedo e Johannes Brahms. Temos aqui dois quintetos que estão relacionados e que proporcionam um concerto que é um diálogo entre as duas obras com músicos e solistas. Segue-se o recital de Alaúde e Vihuela de Hopkinson Smith que nos traz um repertório voltado para o Século de Ouro ou o Renascimento espanhol, inglês e francês. No dia 27 de junho temos uma segunda conversa dos Capuchos desta feita dedicada ao Baudelaire por Vaz Marques, Pedro Mexia e Joana Matos Frias. Segue-se o concerto de Sofia Ribeiro, uma artista multipremiada, uma cantora portuguesa, radicada no estrangeiro há alguns anos que se apresenta com o seu quarteto, com o qual já tem gravado e que é um regresso também muito aguardado em Portugal. É também uma vertente muito importante do festival, estamos a falar de muitos períodos e diversidade que o festival abraça, apresentando também outros estilos musicais.

Já nos dias 1 a 3 julho, o festival retoma com o recital de Alexandre Kantorow, a Orquestra de Câmara de São Petersburgo que é uma orquestra referência na Rússia, e que conta com o solista Sergei Nakariakov, considerado por muitos o maior trompetista da atualidade e, no último dia, teremos para finalizar as conversas de Capuchos com Dostoievski, uma conversa voltada para a cultura russa, que terá como convidados o tradutor António Pescada, o administrador da Fundação Calouste Gulbenkian Guilherme d’Oliveira Martins e a escritora Hélia Correia.

(G) - Tendo por base relação histórica, social e cultural, é também importante realçar as preocupações e consciencialização que o festival pretende ter nesta nova edição. É algo que manter-se-á nas próximas edições?

(F.P-R.) - A sustentabilidade e a relação com a natureza e consciência ambiental é algo que é fundamental a todos os níveis e, aliás, este ano, uma das obras que gostávamos de ter apresentado e que a pandemia nos impediu abordava de facto esta importância, que é o Cântico do Sol, que é também utilizado pelo papa Francisco na encíclica dedicada à ecologia integral e ao conceito de sustentabilidade. Infelizmente era um coro muito numeroso e não nos era possível fazer essa apresentação, mas, certamente, numa próxima edição essa relação surgirá.

Uma das outras vontades que tenho e que não me foi possível concretizar porque foi um ano muito complexo, era também ter uma maior relação com a natureza. Por exemplo, caminhadas e uma série de trilhas que existem na própria Arriba Fóssil da Caparica que vão até ao mar. Gostava muito que existisse essa comunhão com o público, que houvesse ali um maior contacto com os artistas, o público e a natureza que é algo que pode funcionar não só do ponto de vista desta comunhão, tal como referi, como também da reflexão sobre o que é importância e a consciência ambiental. Aqui temos muitos eixos a explorar.

(G) - Este regresso veio para ficar?

(F.P-R.) - Sim, pelo menos do ponto de vista da Câmara Municipal de Almada a vontade é essa. Nós temos um acordo para os próximos dois anos, isto é um ponto importante no ponto de vista de continuidade do festival. Sabemos que podemos também pensar e programar de forma a que perdure e que possa ter o seu próprio caminho.

Texto de Patrícia Silva
Fotografia de Rita Carmo/Festival de Música dos Capuchos

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