“Fim da Terra” é o projecto final da AiR Carpintarias 2019, uma residência artística na área das Artes Visuais que tem o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, desenvolvido pela dupla russa, designada por 22, ao longo de dois meses. “Fim da Terra” foi inaugurada no dia 8 de Janeiro e manteve-se aberta ao público no dia seguinte, nas Carpintarias de São Lázaro.

Partindo do critério de que o trabalho teria que envolver as comunidades presentes na vizinhança do Centro Cultural das Carpintarias de São Lázaro, Ana Shestakova e Ivan Susarin, começaram por fazer um trabalho de pesquisa no terreno. “Apenas andávamos pelas ruas, conhecendo muitas pessoas diferentes, reparando na existência de muitas caixas de cartão e de lojas dos chineses”, diz Ivan Susarin. Familiarizando-se com as características do espaço e com as pessoas que o atravessam e criam, surgiu um “sentimento sobre a imigração neste contexto específico”, acrescenta.

Uma vez que se trata de uma migração que conduz à coabitação de diferentes nacionalidades, idiomas, estratos sociais, idades, religiões, a dupla explorou a imagem dos aliens. Com ela, trouxe questões metafísicas como propostas de trabalho. “As questões metafísicas são aquelas que a arte trabalha, e não os políticos, nem os economistas. A metafísica é a nossa área. São questões que as pessoas, geralmente, nunca pensam e, agora, tiveram a oportunidade para pensar”, explica Ana Shestakova.

Projecção de um filme realizado pela dupla 22, integrado no projecto AiR Carpintarias

O filme, que vai rodando ininterruptamente, tem início com um noticiário, ao qual os residentes seniores de um lar estão a assistir. Este abre, anunciando que um objecto estranho está a chegar ao oceano. De repente, surge a cidade de Lisboa. Os entrevistados, que circulam em diversos lugares da área circundante, a igreja, a biblioteca, as ruas, vão partilhando as suas crenças. Da tela, expande-se o universo, a partir dos lugares quotidianos da cidade. Numa dada altura, duas personagens vestem uns fatos brancos, que recordam o vestuário dos astronautas.

Também assim se apresentam os performers, Branca e David, que recebem os visitantes da exposição, formulando as interrogações que fundaram a criação, tais como “Se pudesse, o que mudaria no mundo?”, “Quando pensa em gratidão, que imagens lhe vêm à cabeça?”, “Qual a origem do planeta terra e da Humanidade”, “Qual é a sua primeira memória de infância?”, “Já algumas vez experienciou o silêncio total?”, “Se pudesse dar um conselho à Humanidade, qual seria?”.

Performance: entrevista aos visitantes da exposição

As caixas de cartão separam os diversos espaços da exposição. Consideradas, pelos artistas, como um dos elementos mais presentes nos quarteirões da zona, são a cama de muitos que dormem nas ruas. Estas servem ainda como suporte de imagens que, através de uma aplicação que os visitantes instalam, se transformam num vídeo, onde cada pessoa entrevistada é a protagonista. Também aqui, o pensamento de que algo transcende o que se apresenta é materializado.

Ao activar a aplicação, a visitante pôde ver o músico a gravar no estúdio

A dupla deseja continuar o seu trabalho, que Ivan diz ser “abrir histórias”. Num futuro mais próximo, planeiam terminar o seu álbum de música, área à qual também se dedicam profissionalmente.

Este artigo encontra-se ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografias de Eduardo Sousa Ribeiro