- É a tua vez, João. Ah, desculpa, estava distraído.

- Manel, deixa-te de merdas e joga!

- Deixa-te de merdas tu, Mário, coça-me os tomates!

- Coço os tomates mas os meus, pelo menos tenho-os no sítio.

- Ó rapaziada, se querem armar é depois do jogo acabar.

- Já viste que o Ricardo anda a papar outra gaja?

- Eu? Quem é que disse isso?

- O Tó da bomba de gasolina.

- O Tó podia era estar calado! Tem a boca maior que esta garagem.

- Marcelo, passas-me a cerveja?

- Para te passar a cerveja és todo falinhas mansas, seu merdoso.

- Rui, o meu nome é Rui, seu cabrão.

- Cabrão a puta que te pariu.

- Vou-te aos cornos.

- Ó meus, olhem para a bisca e parem lá com essas coisas!

- Não te metas, Pedro.

- O gajo chamou-me merdoso.

- E ele chamou-me cabrão.

- Passa-me os cigarros. É a tua vez.

- Que horas são?

- Ainda não é meia-noite.

- A Carminda já me vai chatear à chegada a casa.

- E tu deixas que ela te chateie?

- Sabes como elas são.

- A quem o dizes.

- E depois ainda por cima temos de aturar as suas merdas.

- Isso não é nada a comparar com o que se passa com o Zé João.

- O que se passa com o Zé João?

- Não sabes? Passa lá os cigarros.

- Não, não sei. Dá-me a cerveja.

- A cabra da Flora anda a pôr-lhe os cornos e o gajo nada.

- O Zé João sempre foi um tanso.

- Vai lá ver quem é, estão a bater à porta.

- Quem é que viria bater à porta da garagem a esta hora? Joga.

- Continuam a bater à porta. Vai lá ver.

- Vai tu!

- Cum caraças, eu vou!

- Boa noite!

- Boa noite Sr. Guarda.

- O que estão a fazer?

- Estamos a jogar à bisca, Sr. Guarda.

- A jogar à bisca? Não sabem que estamos em confinamento?

- Ó Sr. Guarda, mas somos todos, menos ali o João, da mesma família.

- Sim, nós os quatro somos irmãos, aquele é o nosso sobrinho, este é nosso tio.

- Família, ou não família,  não interessa! Sete pessoas é um ajuntamento!

- Um quê?

- Vocês são uns irresponsáveis!

- Uns quê?

- Vão todos ser multados!

- Porquê?

- Porque estamos em estado de emergência!

- Como?

- Este gajo não percebe Português?

- Ele é brasileiro.

- Quem?

- Parece que este aqui é brasileiro.

- Não interessa. Multamo-los a todos.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
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