Costuma-se dizer que a curiosidade matou o gato. Ainda assim, este não é o caso do FIMFA Lx. Aliás, a curiosidade pelas marionetas e pelas formas animadas por parte de Luís Vieira e Rute Vieira, diretores artísticos, originou um dos maiores festivais deste tipo de arte, em Lisboa. O Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas (FIMFA Lx).

Face à chegada da pandemia, a Portugal, a 21.ª edição deste ano conta com novas palavras-chave, nomeadamente, resistir, recomeçar, renovar, reconstruir e reinventar. O objetivo é aproximar o festival de umadimensão mais próxima do que é o festival normalmente”. Assim sendo, o evento vai receber mais de 15 companhia internacionais, contando ainda com a presença de mais de 40 apresentações. O festival estreou esta terça-feira, 4 de maio, e vai manter-se em exibição até 23 de maio. Os custos dos bilhetes para os espetáculos vão desde 0 euros até 16 euros.

O Gerador embarcou no mundo das marionetas juntamente com Luís Vieira e foi à procura de saber mais sobre este festival. Ao longo da aventura, Luís Vieira procurou refletir sobre o começo do Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas, sobre a readaptação com a pandemia, e sobre a valorização desta arte inanimada.

Gerador (G.) – A 21.ª edição do FIMFA Lx – Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas realiza-se em Lisboa, de 4 a 23 de maio. Esta é uma produção da companhia A Tarumba – Teatro de Marionetas, com direção artística de Luís Vieira e Rute Ribeiro.

Luís, gostava que recuasses um pouco no tempo e me começasses por contar como é que começou este projeto? Porquê a aposta nas marionetas e nas formas animadas?

Luís Vieira (L.V) – Começou porque somos marionetistas, trabalhamos nesta área e há muitos anos que fazemos digressões internacionais e vemos muitos espetáculos extraordinários. Após esta descoberta, decidimos partilhar com o público português e começamos a pensar como é que, em Lisboa, ainda não havia acesso a estas coisas extraordinárias? E assim ocorreu essa ideia.

O arranque do festival ocorreu no Teatro Da Borda em 2001. A partir daí, nós soubemos que havia um público para o teatro das marionetas, mas não sabíamos que havia tanto. Na verdade, no que toca aos nossos espetáculos, já sabíamos que as pessoas iam e que frequentavam os espetáculos, mas que havia assim tanta gente interessada nesta matéria foi um bocadinho surpresa.

Na altura, os espetáculos esgotaram logo e houve um grande interesse do público sempre pelo festival. Há, inclusivamente, pessoas do público que nos telefonam para marcar férias a perguntar datas do festival. Há um público mesmo interessado e que, hoje em dia, tem uma opinião crítica sobre os espetáculos.

G. – No ano passado, em 2020, o Festival foi realizado num outro formato e período, o Descon’FIMFA. Face a esta opção, a edição deste ano conta com novas palavras-chave, nomeadamente, resistir, recomeçar, renovar, reconstruir e reinventar. Queres nos explicar um pouco estes conceitos? Já agora de que forma se procuraram reinventar?

L.V – A reinvenção é um universo de muita experimentação. O lema de resistir e de continuarmos a seguir em frente tem que ver com este contexto de pandemia que estamos a viver em que as artes são um aspeto fundamental para a saúde mental e para o bem-estar das pessoas.

No ano passado, fomos obrigados, logo a seguir ao confinamento, a criar um novo formato do Descon´FIMFA, mas, este ano, estamos a tentar voltar aquilo que é o fidedigno, digamos assim, num festival com mais de 15 companhias internacionais e com mais de 40 apresentações. Isto já representa uma dimensão mais próxima do que é o festival normalmente.

G. – A abertura do festival, no dia 4 de maio, decorre no Teatro Nacional D. Maria II com o Moby Dick. O que podemos esperar deste primeiro dia?

L.V – Estamos todos muito ansiosos porque é um espetáculo em que temos o privilégio de apresentar quase em primeira mão. Esta companhia, em específico, teve muitos espetáculos cancelados pela Europa. Portanto, houve muita pouca gente, do público corrente, que teve a oportunidade de ver este espetáculo.

É uma grande estreia, uma grande companhia, que muitas vezes já esteve no festival, que tem mais de 50 marionetas, tem atores em palco, tem música ao vivo. Nisto, conta, ainda, com a presença um ator português que interpreta uma das personagens principais. O Ismael. O único sobrevivente do naufrágio. Portanto, promete ser um grande momento de teatro e de marionetas.

G. – A par deste espaço, o festival vai ainda ocorrer pelo São Luiz Teatro Municipal, pelo Teatro do Bairro, pelo Teatro Taborda, no LU.CA – Teatro Luís de Camões, pelo Museu de Lisboa – Palácio Pimenta e pelo Centro Cultural da Malaposta. Um dos aspetos que me chamou mais a atenção foi a programação de diferentes nacionalidades desta panóplia de espaços. Tendo o FIMFA o objetivo de mostrar o que é produzido no teatro de marionetas e formas animadas em todo o mundo, de que forma é feita a seleção das peças?

L.V – Como dizia há pouco, somos profissionais da área e vemos centenas de espetáculos e seguimos artistas. Temos cumplicidade com vários artistas. Portanto, a direção artística vai vendo dessa forma o seu programa. Por outro lado, também há uma componente orçamental que é posta em causa e é toda a conjuntura atual da pandemia que condiciona muito as escolhas. Portanto, é a partir da direção artística e dos critérios de qualidade e que nós achamos importantes selecionar.

G. – Os espetáculos terão algum custo? Por onde é que as pessoas podem encontrar mais informação sobre a programação?

L.V – Os espetáculos têm o custo dos bilhetes normais do teatro que vai desde bilhetes grátis até 16 euros. Temos espetáculos que são gratuitos, por exemplo, no caso do museu de Lisboa em que as pessoas têm é de marcar através de um email. Há, ainda, vários descontos que podem ser aplicados. Toda a programação pode ser vista no site da Taromba.

G. – Na tua opinião, e apesar desta adesão positiva ao FIMFA Lx, sentes que a população em geral tem vindo a valorizar mais marionetas e formas animadas?

L.V – Sem dúvida! É verdade que a maior parte do público, ainda, olha para as marionetas um bocadinho de lado. Isto sobretudo associado com o universo infantil. Mas há também um grande público mais informado que sabe que o teatro de marionetas é completamente diferente. É um teatro de imagens, de matéria, em que são possíveis encontrar propostas variadas, tendo sempre por base o conceito de dar vida ao inanimado.

Texto de Isabel Marques
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