A cidade de Torres Vedras prepara-se para acolher a primeira edição da FLA – Feira do Livro de Arte, nos dias 18, 19 e 20 de junho. A FLA – Feira do Livro de Arte 2021 consiste num evento de promoção e venda de livros de arte, livros de artista, fanzines e todas as publicações incluídas nesta designação. O evento anual foi desenhado para Torres Vedras pela EMERGE – Associação Cultural, com o intuito de contribuir para a dinamização da programação cultural da cidade, através do envolvimento de artistas e de entidades públicas e privadas.

Nesta primeira edição, estão já confirmados a editora Afrontamento, André Catarino, Barca do Inferno, Centro Cultural de Belém, Colectivo 249, Edições Sala 5 – ESAD.CR, Eunice Artur, Evgenia Emets, Fanzine Ultra Violenta, Flankus Books de Flávio Andrade, Francisco Vidal, Fundação PLMJ, Inês, Ferreira-Norman, Isabel Baraona, Isaque Pinheiro, Lucy Valente Pereira, Luís Silveirinha, Micael Ferreira, Paula Roush, Planeta Tangerina, Projeto MAP, Rui Pedro Esteves, Rui Aleixo, Sónia Carvalho, Stolen Books, Taschen, Tiago Verdade, Revista Umbigo, Xana Sousa e Multiple Skins Editions da Nádia Duvall. Para além da venda de livros, haverá uma programação paralela que incluirá performance, conversas e workshops. Entre outros, farão parte desta programação o Atelier Pop-Up, Paula Roush, Eunice Artur, Fundação PLMJ, Isabel Baraona, Isaque Pinheiro, Biblioteca Municipal de Torres Vedras, Paços – Galeria Municipal de Torres Vedras. A plataforma Portugal SLAM irá apresentar no Teatro-Cine de Torres Vedras o Visual Poetry Slam, no último dia de feira. Ao longo do evento. algumas instituições oferecerão livros de arte aos visitantes. Será ainda homenageado Eduardo Salavisa, fundador dos Urban Sketchers, não só pela sua importância para o desenvolvimento da prática do desenho em caderno, mas também pelo papel relevante que teve para esta associação.

Face a isto, o Gerador esteve à conversa com Daniela Ambrósio e Jorge Reis, membros da associação EMERGE para descodificar o conceito da feira do livro. Ao longo desta, os responsáveis procuraram refletir sobre a sua história, o tipo de programação, o público-alvo, sobre as expetativas da iniciativa, e, ainda, sobre a crise do setor livreiro.

Gerador (G.) – Se calhar começávamos pelo início da vossa história… Gostava que me começassem por apresentar a EMERGE Associação Cultural. Com que objetivo nasceu?

Daniela Ambrósio (D. A.) – A EMERGE é uma associação que está sediada em Torres Vedras. Foi criada em 2016 por um grupo de artistas e agentes culturais. O nosso principal objetivo é promover a arte contemporânea, mas dando um especial enfoque à arte emergente. Então, temos sobretudo exposições, aqui, na casa azul, que é o tal espaço que nos é cedido pela Câmara Municipal. Estamos a iniciar um outro projeto na casa azul que tem um jardim que envolve a comunidade. Temos, também, depois um projeto para alunos do secundário que é a Academia Visual, temos uma publicação anual que é o Portuguese Emerging Art, que este ano não se realizou, mas tem o mesmo objetivo de promover artistas emergentes. Depois nós promovemos e distribuímos através de uma editora que é espanhola e italiana, chegamos às bibliotecas e museus internacionais digart. E, temos projetos que são feitos por sugestão de outras pessoas. Por exemplo, este ano nós tínhamos dois projetos apoiados pela Direção-Geral das Artes, que são na área do som. Ainda não saiu nada, mas estamos na fase de produção.

G. – Nos dias 18, 19 e 20 de junho, preparam-se para apresentar a primeira edição da FLA – Feira do Livro de Arte em Torres Vedras. Este é um evento de promoção e venda de livros de arte, livros de artista, fanzines e todas as publicações incluídas nesta designação. Como é que surgiu este evento? 

D. A. – A Feira do Livro foi uma ideia que surgiu em pandemia, no ano passado, porque a nossa associação tem muito a vocação de arte contemporânea e não tínhamos um evento que servisse para angariação de fundos, que tivesse uma vertente mais comercial, digamos assim... Então, tivemos esta ideia da feira do livro de arte por não haver em Portugal… Não quero estar a induzir em erro, mas não havia nenhuma que se focasse nesta especificidade de livro. Começaram a surgir ideias porque conhecemos pessoas que foram fazendo. Depois, é como as cerejas, fomos trocando e falando sobre o que podia surgir. Torres Vedras é uma cidade pequena e, portanto, potenciava fazer aqui uma relação com outras entidades. Nós temos um espaço aqui que nos é cedido pela Câmara Municipal, já no edifício de associações, e é uma sala que decidimos usar para a programação de exposições. Então, é esse o espaço que vamos utilizar para a feira, ou seja, é um espaço pequeno que nunca poderia ser uma coisa muito ambiciosa. Então, à medida que fomos falando sobre a ideia era interessante fazer uma programação associada em poucos dias. Na verdade, nós primeiro não pensamos em programação porque fomos falando com artistas que conhecíamos e propúnhamos se queriam apresentar um livro, uma publicação, o quer que fosse. Por causa das restrições, temos aquele espacinho que fica mesmo ao lado da casa azul e do Teatro Cine e então daí foi surgindo a programação paralela. Não foi uma coisa pensada à partida. Fomos falando, também, com instituições, pessoas que se foram cruzando connosco e então chegamos a um número interessante de artistas e instituições que vão ter os seus livros à venda. Paralelamente vamos ter workshops online, conversas, em parceria com outra instituição, apresentações, lançamentos de livros… Há um projeto em Aveiro de fanzines em que estamos a fazer troca de divulgação e se correr bem para fazermos coisas juntos, vamos ter programação da biblioteca de Torres Vedras, mais direcionada para crianças e família. Portanto, vai ser sexta, sábado e domingo… Vamos ter uma conversa que será à frente da Galeria Passos, também nossa parceira, que será uma conversa que ainda está muito no ar. Não está tudo confirmado e terá que ver com os livros que têm e com artistas da coleção deles. Vamos ter artistas na rua, por exemplo, o Isac Pinheiro, que tem um projeto específico de notas e que vai estar a fazer o projeto pelas ruas da cidade, vamos ter um mapa, em vez de flyers, em que as pessoas podem identificar o que há e em que sítios da cidade, vamos ter um evento que será no domingo com a Portugal SLAM, que é a visual Poetry Slam, que é um espetáculo de artes em Torres Vedras. E quem vem à feira vai sempre levar alguma coisa, mesmo que não compre. Vamos ter, no espaço propriamente dito de vendas de livros, fanzines, livros de artista, de arte, fotobooks... 

Jorge Reis (J. R.) – Sim, o formato acaba por ser divergente do que é o normal de uma feira, já que tem um expositor e o expositor divulga o seu próprio produto ou serviço que apresenta. Neste caso, a maior parte dos artistas e editores não vão estar cá... Nós vamos ter tudo exposto de forma a ter tudo organizado e a que eles também reduzam custos. Assim, estaremos, igualmente, a facilitar as questões pandémicas, de segurança e tudo mais. Relativamente ao Portugal SLAM e ao Visual Poetry foi uma proposta que fizemos ao Portugal SLAM porque é um conceito que não existe na pesquisa que fizemos. O formato normal é Poetry SLAM, poesia que é dita. Esta também é escrita, mas é visual. Então, o desafio que nós colocamos foi precisamente que os slammers pudessem desafiar-se a si próprios e interpretarem poesia visual. Vai ser um grande desafio, mas ao mesmo tempo vai ser muito interessante do ponto de vista que resulta. O artista Isac Pinheiro vai lançar uma nova série do projeto dele que implica a impressão de notas em xilogravura e ele vai a andar a circular pela cidade e vai comprar notas de 100 euros com as notas de 100 que ele produz. 

D. A. – Vamos ter, para além dos trabalhos dos artistas, pequenas editoras dos artistas, que é uma coisa que vai surgindo, que têm livros de artes. Ainda, na programação vamos ter uma performance da artista Isabel Baraona em que vai dizer uma oração, uma coisa muito descontraída. Vamos ter a representação dos livros de inglês pela Taschen, pelo arquivo de Leiria. Aqui, temos dois lados. As editoras que já trabalham estes livros, mas depois queremos, também, dar destaque a coisas mais únicas ou a editoras que fazem tiragens mais curtas. Eu acho que isso é uma mais-valia da feira, que é encontrar essas pequenas coisas que não estão disponíveis. 

J. R. – Sim, sim! No fundo é apresentar ou dar lugar à apresentação a um objeto que não é comum encontrar-se nas livrarias. Não tem uma configuração comum de livros, mas que se comportam como configuração de arte. Portanto, essas questões são trazidas como questão da prática, como divulgação da mesma, e, ao mesmo tempo, como um estímulo a artistas que não têm lugar no mercado da arte. Da lista de artistas que temos parece-me bastante consistente comparando com a lista de editoras que vão participar. Pode parecer estranho para muita gente esta primeira edição, até o próprio formato, mas penso que as pessoas abraçaram muito bem. O Miguel, da Ultra Violenta, abraçou de tal forma que propôs logo uma extensão e sinergias além, extraterritoriais, ou seja, alargar a coisa e fazer com que se estenda de uma forma multicidades, e isso interessou-nos também. 

D. A. – No caso da Ultra Violenta, eles estão agora a fazer uma exposição no museu municipal de Aveiro. Então, eu já tinha a ideia de fazer uma exposição, mas de fanzines especificamente. Esta coincidência de calendário e o facto de eles terem interesse em fazer uma feira de fanzines desencadeou esta possibilidade de parceria. Há uma associação que vai fazer uma série de conversas online e o que vamos fazer é divulgar, ou seja, está ao cargo deles essa promoção. No que toca aos workshops, vamos ter um da câmara, da galeria municipal, de encadernação, temos um workshop de uma artista portuguesa, que mora no Reino Unido, que é a Paula Russo. O trabalho dela é mesmo nesse sentido de livros em que vai ser um workshop online. Qualquer um destes workshops são pagos ao artista, ou seja, não vamos receber nada por isso. A feira, a forma como se vai financiar, nós demos passos muito pequeninos, porque é a primeira e acaba por ser uma aventura, não sabemos se vai correr muito bem, mas a Câmara Municipal vai-nos dar um apoio para o apoio do material e depois temos uma percentagem de apoio dos artistas, de venda, que é de 30 %. Só tem de enviar os livros, nós pomo-los à venda e ficamos com 30 % e o restante vai para eles. Temos as editoras em que pagam um valor de 30 euros à cabeça, digamos assim, e depois há a percentagem de venda. Dentro daquilo do que conheço em termos de feiras, pensei que fosse um valor interessante, que não representassem despesas, e que, também, para os artistas que não representassem despesas que têm de pagar porque não estamos numa época em que não é possível. Então, fizemos o contrário que é OK, se houver vendas há, se não houver, devolve-se os livros e está tudo certo na mesma. E, nós, este ano, por razões óbvias, a equipa está a trabalhar em regime de voluntariado. Foi assim que nos dispusemos. 

J. R. – Todo o orçamento que nos foi disponibilizado foi através de um concurso que a própria câmara disponibiliza, à imagem da DGA, que se chama apoio pontual e que nós conseguimos esse apoio. Não foi por um ajuste direto pedido à câmara. Agora, do ponto de vista do objetivo que se pretende com a feira, acima de tudo, é nós termos um espaço de reflexão e crítica sobre o que é um livro de arte e de poder estimular interesse sobre este objeto artístico, além de outros, que fazem parte desta prática artística. Ao universo das artes plásticas. É aí que queremos residir.

Cartaz da Feira do Livro de Arte

G. – Há pouco falavam-me da aposta nas multicidades. Assim sendo, à parte da cidade de Torres Vedras, gostavam de no futuro estender a feira a outros pontos a nível nacional?

D. A. – Eu acho que, da minha experiência, do meio do livro, pode não ser muito realista do ponto de vista da exequibilidade porque é difícil ter um apoio sustentado que nos permitisse ir dessa forma. No entanto, aquilo que nos interessa mesmo muito e com o que concordo totalmente é que este tipo de parcerias, ou seja, projetos específicos sejam nessa área e que nos permitam programar coisas. Eu imagino que se calhar, se fizer sentido, mesmo depois da feira acontecer, propriamente dita, se calhar podemos continuar a divulgar projetos desta área e a coisa possa indo estender-se assim, para valorizar este nicho das artes plásticas. Por exemplo, eu não fazia a mínima que havia tanta em Portugal. Acho uma coisa mesmo muito bonita. E às vezes perguntam-me como cheguei lá? Cheguei lá porque houve alguém que viu e pesquisei no Google, não descobri nada de novo. Mas aí, sim, se calhar aí eu gostava e tenho quase potencial para isso de quase criar uma marca da feira do livro de arte que se possa estender no sentido de se puxar todos os cogumelinhos a ficarem ao mesmo nível. Acho que isso era uma coisa que gostava que pudesse correr bem.

J. R. – A Daniela fala em passos pequenos porque ela é muito cautelosa… Eu já sou mais ambicioso, somos diferentes nesse aspeto, mas eu partilho da mesma opinião. Embora haja ambição ou precaução, tem de haver uma realidade, ou seja, uma realidade sobre aquilo que são as limitações, não só técnicas, mas de recursos humanos e financeiros que dispomos na associação. Como nós não temos uma grande equipa a que temos não é suficiente. Muitas vezes os projetos requerem mais do que aquilo que é a nossa própria capacidade até de recursos humanos. Neste momento, além da feira, temos a programação da casa azul em que até ao final do ano ficou tudo pecinha de lego por causa da pandemia em que tivemos de adiar muita coisa. Não quisemos cancelar nada porque existe, aqui, um compromisso com os artistas e não queríamos fazer isso de todo. Depois temos a feira, temos, também, o jardim azul que é um projeto que foi sendo adiado, depois temos duas produções, uma média e uma grande... Eu quero mais que a Daniela, mas temos de ter os pés bem assentes na terra. Nós aqui trabalhamos com um público muito difícil que não está de todo habituado à arte contemporânea, entre os 30 e os 55, das artes plásticas. Maioritariamente as mais interessadas são as mulheres. Nós não fazemos grande distinção da nossa comunicação, mas a imagem, por exemplo, da feira é cor-de-rosa, mas isso não quer dizer grande coisa vá. Mas também não estamos muito preocupados. A marca foi criada para dar uma dinâmica, um ar mais jovial, de uma coisa fresh e que aquele rosa não é um rosa primário, também não é um rosa-choque, é um rosa vivo. Portanto, não está a pegar nos géneros identitários de género, nem nada disso.

G. – Ao longo desta, será, também, homenageado Eduardo Salavisa, fundador dos Urban Sketchers. Porquê esta homenagem? O que representa esta personalidade para a EMERGE? 

D. A. – O Eduardo era uma pessoa que nos era muito próxima, que participou na primeira exposição ou ciclo de exposições enquanto associação. A associação foi criada em 2016. Então, decidimos fazer esta homenagem até porque ele já esteve aqui várias vezes em Torres Vedras pelo grupo dos Urban Sketchers. Vamos fazer um pequeno destaque com ele e com a editora apontamento.

G. – Com a chegada da pandemia a Portugal o setor da cultura foi um dos mais afetados. Nesta lista podemos incluir, igualmente, o setor livreiro. Estando agora a associação EMERGE a organizar uma feira do livro de forma a enaltecer esta arte, a vosso ver que medidas extra poderiam ser aplicadas para este setor ter, ainda, uma maior visibilidade? 

D. A. – Eu acho que tem que ver um bocadinho com as especificidades dos livros. Por exemplo, eu colaborei há muitos anos numa pequena editora de autor, em Aveiro, e há uns anos colaborei com a editora da Universidade Católica. Na altura, conheci a realidade da feira que eu acho que é muito boa, mas basta visitar a feira para se perceber que há uma grande disparidade. Por exemplo, os stands dos grandes livreiros estão cheios e os outros não estão. Por outro lado, também, há pessoas que vão especificamente à feira para ir buscar aqueles livros que não encontram ao longo do ano. Na minha opinião, não há uma solução para o setor num todo; acho, sim, que há um grande poder na Bertrand, na Porto Editora, são os grandes grupos que monopolizam um bocadinho e depois as livrarias vão ali um bocadinho a reboque porque têm as questões que têm que ver com o IVA e depois há cada vez menos pessoas a ler e a consumir. Depois há muitos e-books… Sinceramente não sei dar uma resposta a isso porque tenho a sensação de que há livros que se vendem numa grande quantidade e outros, não. Portanto, acho que não é pelo setor em si. No que diz respeito aos livros de artistas ou de arte, se calhar muito menos. É ainda mais curto e afunilado. Por exemplo, uma coisa em que para mim o Gerador é fantástico é na aposta da divulgação dos livros, não só dos participantes, mas dos livros em si, já que mesmo que não vendam, pelo menos tenham este momento de divulgação. Eu sou uma amante de livros, mas tenho a noção de que passa muito por isso, ou têm esse hábito ou não têm. 

J. R. - Penso que a solução não há, como não há para nenhum setor. Agora, o que se pode fazer do ponto de vista de segurança? Penso que acima de tudo o online é uma solução que se encontrou. Muitas livrarias, o próprio mercado já passava pelo online, por exemplo, a Bertrand. Agora se pensarmos no ponto de vista artístico é um bocado complicado ver como a coisa vai funcionar. 

Há aqui outra coisa que penso que, ainda, não mencionamos, mas tem que ver com a componente de editora que a nossa associação tem. O nosso primeiro grande projeto foi o Livro. É um livro de arte portuguesa, é o primeiro livro sustentável, temos sempre os artistas, os contactos. Esta é a última edição e por causa da pandemia, ainda, não o lançamos. A feira do livro vem também como uma forma de marcarmos o nosso território e termos a nossa edição lá à venda. Nós para já temos edições nossas, mas podemos também trabalhar com edições de artistas. É uma iniciativa que vai marcar a nossa posição enquanto editora. 

Texto de Isabel Marques
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