Não acompanhei de perto o Euro 2020. Posso considerar-me uma espectadora intermitente deste tipo de competições – mas, de um modo geral, bastante desinteressada. Sou capaz de começar a ver um jogo aos 56 minutos e de sofrer, quando dois países, aos quais não tenho qualquer tipo de ligação, disputam a vitória nos penáltis. Foi o que aconteceu no último domingo, na final daquele torneio entre as seleções inglesa e italiana.

Tipicamente, uma equipa sairia daquela partida gloriosamente vencedora e outra perderia, deixando meio mundo de coração partido, perante as imagens, difundidas para todo o mundo, dos jogadores a chorar nos relvados. No que toca a emoções, é sempre assim, um grande momento televisivo (que vale milhões).

Comecei a acompanhar descomprometidamente o jogo, quando o relógio passava pouco dos 15 minutos. Jantei pelo meio e fiquei feliz quando a Itália empatou, por ainda ter a hipótese de disputar a final (sentimento que seria exatamente igual, se a situação fosse a inversa). O jogo avançou pelos descontos e compensação e, perante o 1 a 1 no marcador, as duas equipas europeias foram a penáltis.

Por mais que saiba que uma das seleções teria de se sagrar vencedora e que os jogadores não poderiam ficar a jogar eternamente até o jogo de decidir de outra forma, continuo a sofrer irracionalmente antes sequer do primeiro remate ser feito à baliza. É um momento tenso, enervante, e já sabemos de antemão que, no final, haverá grandes planos de alegria, mas também de lágrimas e desalento total. A tristeza (até num contexto milionário como este) é algo que me aflige (!), por mais que me digam que os jogadores ganham estúpidas quantias de dinheiro ao final do mês, ou por mais que saiba que perder uma final do Euro é o clímax dos problemas de primeiro mundo.

O resultado é conhecido, e o que aconteceu depois também. Foi um espanto? Não, de todo. Quando Bukayo Saka se movia para a zona de remate, rapidamente pensei que, se ele falhasse e se o jogo terminasse ali, não seria difícil, na sociedade em que vivemos, atribuir as culpas. E assim foi. Saka falhou, depois de Marcus Rashford e Jadon Sancho. Três negros que manchavam assim a prestação da Inglaterra na competição, impedindo uma vitória ansiada desde 1966. Três negros que não faziam bem o seu trabalho. Três negros que provavelmente não mereciam sequer estar na seleção. Três negros que se tivessem conseguido meter a bola dentro da baliza seriam três “heróis” – sem “negros” depois. Só “heróis”.

Se os penáltis foram bem ou mal marcados, não sei. Não percebo de futebol. Mas o foco deixou de ser esse ao fim de poucos instantes. Breves minutos bastaram para que a negritude daqueles jogadores se fizesse notar, acima de qualquer capacidade desportiva. As suas redes sociais encheram-se de ataques racistas, que, por mais que outras pessoas, a federação de futebol inglesa, Boris Johnson ou o Príncipe William condenem, continuam a existir e a revelar-se expressivamente em momentos como este. Seremos iguais na vitória, mas diferentes na derrota?

Este tipo de episódios – que continuam a suceder-se no mundo do futebol, mesmo quando os capitães das seleções envergam braçadeiras que gritam “RESPECT” – são apenas um reflexo daquilo que acontece no dia-a-dia, fora dos relvados e noutra esferas da sociedade.

Ser negro é não poder falhar? É não poder não corresponder às expectativas? É conseguir espantar os outros com capacidades físicas e intelectuais extraordinárias e, por isso, ser merecedor de respeito? Quão bem-sucedidos e notórios temos de ser para sermos aceites?

Pensemos em Éder, que foi elevado a “herói nacional”, depois de ter marcado o golo que garantiu a conquista deste mesmo campeonato pela seleção portuguesa, em 2016.

Teremos de prestar uma espécie de prova de mérito para nos podermos dizer, sem receios, nacionais de um determinado país? Teremos de ser heróis, gloriosos, sem margem para erro, para não sermos alvo de ataques discriminatórios?

-Sobre Flávia Brito-

É portuguesa, afrodescendente, mulher, jornalista, dos subúrbios, e muito mais. Licenciou-se em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS). Trabalhou em revistas, departamentos de comunicação autárquicos, foi repórter do programa “Bem-Vindos da RTP África” e também já deu um pulinho ao marketing, onde trabalhou em criação de conteúdos. A dada altura, o caminho parecia mesmo passar por aí e apostou numa pós-graduação em Branding e Content Marketing na também na ESCS, para depois descobrir que a precariedade e a falta de oportunidades lhe estavam a enviesar o percurso. Encontrou no Gerador um lugar onde reabraçou o jornalismo, e por aqui anda a tentar dar o seu contributo para uma sociedade mais esclarecida, justa e tolerante.

Texto de Flávia Brito
Fotografia de David Barata
gerador-gargantas-soltas-flavia-brito