Uma grande sala, a Casa da Música, está prestes a receber a apresentação d’ “O Princípio da Incerteza”, o primeiro álbum de Rui David, sobre quem  já se ouviu falar este ano pela participação no Festival da Canção. Peixe, Ruca Lacerda, Chico Fonseca e Edu Silva – nomes da velha escola – fazem também parte deste novo projeto que ainda não tem nome e que cheira a novo pop-rock.

Gerador – A contar com o Rui, são quatro os músicos que fazem parte do álbum que será apresentado no próximo dia 22, “O Princípio da Incerteza”. Como é que surgiu esta reunião entre todos?

Rui David – Em palco, no concerto, vamos ser cinco. Eu, o Peixe, o Ruca Lacerda, o Chico Fonseca e o Edu Silva. Esta reunião acabou por surgir da minha vontade em querer fazer o disco da forma mais competente possível. Eu tinha uma série de canções que fui fazendo ao longo dos últimos anos, e após o Festival da Canção, no qual participei, senti que se tinham reunido as condições para isso acontecer. E aí, a primeira coisa em que pensei foi: eu preciso de um diretor musical e de uma banda de suporte que materialize e dê consistência a tudo aquilo que procuro. E acabou por ser o Peixe a primeira pessoa com quem quis estabelecer parceria. Depois de ele aceitar, a partir daí, fomos falando com os outros músicos que tinham as competências que procurava. Por sermos um grupo que já se conhecia muito bem, a nossa proximidade também acabou por acontecer de forma muito natural.

G. – Ir “buscá-los” foi, no fundo, uma forma de satisfazer algumas necessidades de ter sonoridades muito específicas?

R. – Desde o início que a ideia não era fazer um disco de autor, voltado para dentro. Queria é que tivesse uma sonoridade contemporânea, que fosse uma partilha criativa e que fosse surpreendente nesse sentido.

G. – Pode dizer-se que este é um projeto de uma banda a nascer ou, pelo contrário, a ideia é manter um percurso a solo e fazer estes convites esporadicamente?

R. – Acho que é uma coisa que o tempo dirá. Vamos trabalhar afincadamente neste projeto, trabalhar novos temas, e em princípio será uma parceria para continuar.

G. – Existe algum nome para o grupo?

R. – Neste momento ainda não, ainda é tudo muito prematuro, porque como disse, estamos mesmo muito focados em concluir o disco. Depois, logo se vê,  até porque cada um também tem os seus projetos e não é fácil conciliar tantas vontades.

G. – São ao todos quantos os temas que podemos ouvir no novo álbum?

R. – O álbum ainda não está fechado. Neste momento posso dizer que existem nove temas que são certos, e que outros podem vir a entrar em função do desenvolvimento que tenham nos próximos tempos. Este foi sempre um álbum que foi trabalhado tema a tema, e que tem sido feito em função do som e da intenção, portanto alguns temas ainda estão à procura desse propósito, pelo que podem ou não entrar neste disco, que finalizado pode vir a ter nove, dez ou onze temas.

G. – Algum deles que gostasse de destacar?

R. – Sim. Por vários motivos, o “Homem Novo”, que é um tema que foi lançado agora como single, e que é um original de Carlos Tê, uma pessoa de quem gosto muito e cujo trabalho admiro. E claro, o tema do Jorge Palma, com o qual participei no Festival da Canção, mas que estará neste disco com um arranjo bastante diferente, é também algo que destaco e que me orgulha muito.

G. – Porquê a decisão de incluir esse tema de Jorge Palma neste novo disco?

R. – Era importante para mim porque marcou um momento da minha vida como músico e porque, de certa forma, foi esse o tema que me levou até aqui hoje, abrindo-me várias possibilidades.

G. – Há sempre alguma curiosidade em torno do Festival da Canção. O que é que retira dessa experiência?

R. – Eu acho que sempre assumi um bocadinho uma posição de outsider em relação ao Festival, e isso não mudou. Mas acho que ganhei sobretudo mais consciência do universo artístico, e também uma noção de que podemos ser nós mesmos – eu estava ali de corpo e alma – e, ainda assim, não nos identificarmos com o evento. De qualquer das formas, para mim seria impensável recusar tendo um tema de Jorge Palma.

G. – Até que ponto é que se identifica com o estilo de Jorge Palma?

R. – Eu e o Palma somos contemporâneos num estilo, e eu reconheço um background que o Rui tem e ao qual eu fui beber também. Por isso sempre foi uma grande referência para mim, claro que sim.

G. – Já sabemos que este é um trabalho que “mete” guitarra, baixo e bateria ao barulho. O que é que podemos saber mais, ainda sem um CD na mão, sobre o género musical que daí resulta?

R. – Este é um álbum muito acústico com uma abordagem (hesita) rock-pop na maior parte dos temas. Diria que acabou por resultar num rock-pop meio sujo, ao usarmos covers na bateria e outros pormenores. Mas é uma sujidade que me agrada a mim e aos restantes elementos do grupo.

G. – A dias do grande concerto, são mais as certezas ou as incertezas?

R. – (Risos) Pois, eu decidi chamar-lhe (ao álbum) “O Princípio da Incerteza” brincando um bocadinho com o facto de neste momento da minha vida, em que sou um músico tardio, não esperar grandes certezas porque nunca tracei grandes objetivos, e tudo o que foi acontecendo foi muito naturalmente. E a mim agrada-me essa incerteza, na medida em que nada é adquirido. Mas posso dizer que foram uma série de certezas que me fizeram chegar até aqui.

Entrevista de Madalena Massena.
Fotografia de Aurélio Vasques.

Se queres ler mais entrevistas sobre a cultura em Portugal clica aqui.