A programação é um ponto-chave na nossa relação com a cultura. Com o objetivo de cruzar vozes e perspetivas, falámos com programadores e intervenientes culturais no sentido de se aprofundar a questão: quais os caminhos para a cultura em Portugal?

Ao longo das últimas décadas, muito se tem falado sobre o panorama cultural português do pós-25 de abril, as suas políticas públicas, instituições de bandeira e de que forma é que a cultura tem sido institucionalizada no país. A ideia não consensual de uma descentralização cultural, abriu a discussão para que tipo de públicos é pensada a programação.

Uma problemática que, de acordo com Jorge Barreto Xavier, professor universitário, pode ser analisada a partir de dois conceitos distintos: o de democratização cultural e o de democracia cultural. No primeiro, permanece “a ideia normativa de que vamos passar a cultura erudita a quem não a tem”; no segundo, a possibilidade de um acesso e fruição igualitário da cultura a todos os cidadãos.

Contrariamente à democratização cultural – “exercício autoritário e paternalista” –, a chamada democracia cultural implica “condições de fruição, que não são meramente económicas, mas também de educação. Nesse contexto há ainda muito trabalho a fazer ao nível do sistema educativo”, realça.

Posto este problema de parte, existem ainda factores decisivos, no que toca à abrangência da cultura nas esferas pública e privada. Se por um lado, defende que é “fundamental a existência de privados na cultura”, a verdade é que o “epicentro da vida cultural portuguesa” continua assente em três pólos dominantes: “a administração central, autarquias e regiões autónomas”.

Partindo desta análise, o académico considera que o problema português tem que ver sobretudo com um sistema “iminentemente clientelar”, sendo que o trabalho mais local, acaba por ficar limitado pelas suas próprias fronteiras e onde falta uma análise crítica, mais livre e autónoma.

Ainda assim, Barreto Xavier considera que a revolução abriu portas à profissionalização da cultura. Novas profissões e oportunidades surgiram e, com elas, desafios acrescidos que lhes são inerentes. Programar cultura “é um exercício muito plural e complexo” e quanto a isso, não há margem para dúvidas. ­

Atendendo à complexidade de se programar cultura nos dias que correm, tendo em conta a multiplicidade de instituições e projetos independentes que existem, o Gerador procurou ouvir alguns dos intervenientes desta narrativa. Assim, estabeleceu-se um diálogo com o Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII), o Centro Cultural de Belém (CCB), a Culturgest, o Teatro Municipal do Porto – Rivoli e Campo Alegre (TMP), a Materiais Diversos e a Ondamarela, no sentido de perceber quais os grandes desafios que se encontram ao programar e mediar cultura em Portugal.

Das instituições públicas e privadas às independentes, há pontos que convergem. A multidisciplinaridade na programação – tendo atenção às possíveis interseções entre áreas artísticas –, a aproximação e diálogo com públicos, a gestão de orçamentos e a criação de uma forte rede de parceiros são elementos que estão na ordem do dia. Se por um lado é um facto que a cultura se tem profissionalizado nas últimas décadas, por outro subsistem problemáticas relacionadas com a dispersão do território, bem como o desfasamento dos públicos ao nível da sua formação.

Abrir portas e rasgar preconceitos
No caso das grandes instituições, o trabalho desenvolvido tem assentado na democratização de acessos, passando pela dessacralização dos espaços que outrora possam ter caído no estigma da inacessibilidade e elitismo. A desconstrução de preconceitos passa, entre outras transformações, por um rejuvenescimento da imagem.

Cláudia Belchior, presidente do conselho de administração do TNDMII, salienta que no caso do teatro nacional “a ideia foi rasgar a imagem anterior e construir uma completamente diferente”, apostando num redesign mas também na utilização de slogans que tinham em vista uma aproximação à comunidade. Também o CCB seguiu a mesma linha. Fernando Sampaio, programador da instituição, dá como exemplo “o lema CCB, Cidade Aberta”, como forma de “retirar algum estigma e medo por parte das pessoas”.

A partir desta aproximação, o trabalho dos programadores tem procurado dar espaço à diversidade, sendo este um fator com peso na hora de tomar decisões para uma nova temporada. Além disso, importa sempre destacar as métricas orçamentais que poderão influenciar essas mesmas escolhas. Fernando conta que a crise financeira preconizou “alguns cortes orçamentais”. Para os colmatar, “o CCB aposta numa vertente comercial, que passa pelo aluguer de salas para outro tipo de eventos”.  No caso da Culturgest, o orçamento encontra-se segmentado nas distintas áreas de programação, sendo que “neste âmbito, as parcerias, os apoios pontuais e os fundos europeus têm um impacto significativo”, refere Mark Deputter, o diretor.

Nestas instituições, a missão prende-se geralmente com uma ideia de serviço público e dever cívico. Tiago Guedes, diretor do TMP, explica que a esse sentido de missão acresce o projecto cultural do município, para que possam caminhar na mesma direcção. Para o responsável, a Invicta é cada vez mais um pólo de referência cultural no país, muito devido à acção autárquica, mas também a “nível privado”.

No contexto do TNDMII, CCB, Culturgest e TMP, que atuam apoiadas nos alicerces da sua missão, a aposta cultural prende-se com uma oferta que se distinga das demais, evitando ainda uma sobreposição ou duplicação dos eventos agendados para outros espaços das cidades. Cláudia, Fernando, Mark e Tiago realçam o equilíbrio entre uma programação nacional e internacional que, desta forma, consiga não só dar destaque a criações portuguesas, mas também trazer novas referências para as salas nacionais.

Dos centros urbanos para as periferias
Um ponto de viragem para o TNDMII foi a criação da Rede Eunice, através da qual estabelece parcerias com companhias e municípios nos quais detetam “uma lacuna na oferta de teatro”. Nos últimos quatro anos Vila Real, Sardoal e Funchal receberam três espetáculos de teatro diferentes criando, desta forma, uma relação de proximidade e incentivo à criação local.

Há quem faça da aproximação o seu ponto principal de estudo e atuação. É o caso da Materiais Diversos, associação cultural sem fins lucrativos criada em 2013, e da Ondamarela, coletivo de intervenção artística sediado em Guimarães. Ambos os projetos apostam numa dinamização itinerante que passa por diversas localidades do país e pelo envolvimento das (e com as) comunidades.

Tanto a Materiais Diversos como a Ondamarela apostam na criação artística, seja através do apoio direto a projetos artísticos com bolsas, residências e co-produções, para o primeiro caso; seja com criações em nome próprio e de base colaborativa, no segundo. Em comum têm a aproximação e diálogo com os territórios em que atuam. “É preciso estar cada vez mais atento ao território onde atuamos, habitarmos os lugares e pensar a partir deles”, sustenta Elisabete Paiva, diretora artística da Materiais Diversos.

Para que esse envolvimento tenha o impacto necessário é, no entanto, importante que se faça “um diagnóstico do território, do seu tecido cultural e artístico, e um levantamento de pessoas e grupos”, sublinha o coletivo Ondamarela que já atuou em territórios como Bragança, Ílhavo, Guimarães e Açores. Neste processo, contam, “ganham-se comunidades e comprometem-se pessoas com o seu contexto geográfico, social ou político”. Sentem que esse contacto estimula nas mesmas “exercícios de reflexão e responsabilidade na resolução de problemas e na projeção de um futuro”.

Uma mediação que deixe lastro
Para a Ondamarela o trabalho com as comunidades deve deixar um lastro que estimule um “envolvimento real na criação e na discussão”, não sendo “de simples fruição ou figuração”. Na mesma linha, a Materiais Diversos defende que “falta fazer mais trabalho em relação à formação”, “envolvendo transversalmente instituições” em causas comuns.

O trabalho de aproximação que as instituições têm feito materializa-se em projetos de serviço educativo e mediação como por exemplo o programa “Boca Aberta” no TNDMII, que leva ao teatro os alunos da rede de escolas públicas de Lisboa; a “Fábrica das Artes” do CCB, um programa de espetáculos e oficinas para escolas e família; o programa “Tempestade Mental” da Culturgest, com conferências dirigidas a jovens entre os 14 e os 18 anos; ou “Paralelo”, o programa do TMP de aproximação aos públicos.

Reforçando essa ideia de mediação, Tiago Guedes, fundador da Materiais Diversos e atual diretor do TMP, refere que mais do que umas simples apresentação de espetáculos, interessa que exista espaço para a continuidade da própria programação que envolva os públicos, através de “masterclasses, workshops, e do fortalecimento de relações com universidades e projectos comunitários”.

Medir o sucesso para pensar a programação
Desde as receitas de bilheteira até aos inquéritos feitos às pessoas, são várias as métricas que confirmam ou não, o bom desempenho da programação cultural. Existem no entanto, formas de cativar mais público, com o objetivo de o fidelizar.

O CCB criou o Cartão Amigo CCB, com vantagens e descontos nos espetáculos da instituição; já o TNDMII apostou numa campanha de assinaturas, em que os espectadores podem ter acesso a um conjunto de espectáculos, usufruindo de descontos.

Porém, a acessibilidade aos espetáculos não se prende apenas a questões financeiras. A atenção dadaa pessoas portadoras de deficiência ou até com problemas do foro psicológico está presenteno TDMII, onde todos os espectáculos têm sessões em linguagem gestual, com áudio descrição eoutras para pessoas com menor capacidade de atenção.

Para todos os entrevistados ecoa a esperança sobre uma maior valorização da cultura por parte das novas gerações. Os públicos jovens – realçam – são mais exigentes, curiosos e procuram na cultura estímulos para eles próprios poderem criar. Tiago Guedes destaca também “a quantidade de jovens que já se encontram hoje na direção de espaços e festivais culturais” que já levam consigo preocupações que se ligam aos avanços que se tem sentido no panorama cultural.

A cultura na primeira pessoa
Para falar sobre a cultura na primeira pessoa estivemos à conversa com seis intervenientes deste universo. Enquanto artistas, sentem-se representados?

Carla Chambel, atriz
É consensual que a programação cultural se tem diversificado. Enquanto atriz, Carla acredita que “o maior desafio será cada criador encontrar o seu lugar, perceber onde é que se encaixa ou se existe de facto a vontade de ter um rótulo.” No caso dos programadores, os desafios passam pela gestão de “artistas representativos da identidade cultural”.  Acredita que os espaços devem “tocar nas pessoas” e, assim, estimular a relação com os públicos que “têm aumentado a sua auto-estima cultural”.

Tomaz Hipólito, artista
“A diversidade e a forma de comunicar é que podem fazer com que as pessoas saiam da zona de conforto para se tornarem mais ecléticas”. Só desta forma é que um programador consegue alargar “o espectro de públicos”, evitando que se trabalhe “exclusivamente para nichos”. Para se mudar o paradigma, “a forma de comunicar deve ser menos abstracta, nomeadamente na arte contemporânea”, defende.

Né Barros, coreógrafa
Para Né Barros, o papel de mudar mentalidades não está na mão do artista; é uma questão que se prende à política e educação. Sensibilizar as pessoas para “o gosto de imaginar e de ter contacto com aquilo a que não estão familiarizadas” deve fazer parte de uma aproximaçãoa potenciais públicos. Nos grandes centros a aposta deve ser feita em “micro projetos mais plurais”. Já nas periferias, o desafio é a aproximação às dinâmicas locais. Um diálogo entre a inovação e a herança deve ser encontrado.

Luís Ferreira, diretor artístico
A ocupação das ruas pelas pessoas desencadeia um encontro propício ao questionamento, tornando o espaço público num local privilegiado para a cultura. “A cultura é um bem essencial e faz parte dos nossos direitos enquanto seres humanos termos acesso a esse bem”, sendo este um aspecto fundamental do envolvimento entre a criação e a fruição,realça. Além disso, as estratégias de programação devem ter um fio condutor, para que os projectos ocupem o seu “lugar de fala” e sejam entendidos pelos receptores.

Filipa Frois de Almeida, arquiteta e fotógrafa
Também para Filipa o envolvimento com o território e as pessoas é imprescindível, de forma a que o incentivo ao público seja eficaz. “Se não se conhecer o terreno e quiser, simplesmente, espalhar uma ideia, esta não irá funcionar”, salienta. Despertar curiosidade nos jovens e incentivar os adultos a avaliar as suas práticas culturais são pontos fulcrais para que as consigam “reinventar e adaptar”.

Selma Uamusse, cantora
“É fundamental vivermos numa sociedade que se entende, independentemente de etnias ou idades”; a perspectiva levada à cultura por Selma passa por incluir nas programações aqueles que ainda permanecem à margem da indústria cultural. Só assim é que poderá existir uma “cultura de respeito”, na qual “os artistas consigam expor o seu trabalho de uma maneira fielàquilo que é o seu objeto artístico”. Defende que nessa relação de respeito “a preservação do património artístico e cultural” não pode ser esquecida.

A cultura na vida de todos os dias
A formação de públicos tem sido um ponto destacado pelos intervenientes desta reportagem ou como lhe prefere chamar Barreto Xavier, a “formação de cidadãos”, uma vez que um cidadão bem formado será, certamente, parte de “um bom público”.

No entanto, estudos recentes demonstram que o nível de interesse não tem acompanhado o aumento da oferta cultural. De acordo com um levantamento da Fundação Francisco Manuel dos Santos de 2017, desde o ano de 2012 até essa data, o número de visitantes em museus nacionais subiu 70%. Porém, essa subida encontra-se alavancada no aumento do número de estrangeiros que os visitaram.

Nesse âmbito, o estudo do Eurobarómetro de setembro/outubro de 2017 revela ainda que nos 12 meses antecedentes 73% dos inquiridos portugueses não visitaram um museu ou galeria.

No que toca às visitas a salas de espetáculo, o levantamento da mesma Fundação mostra que desde o ano 2000 a atração pelos concertos disparou, o que, em comparação com a afluência a áreas como o teatro, a dança ou a ópera marca uma acentuada distância. Já o Eurobarómetro regista que, nos 12 meses que antecederam o estudo, 67% dos inquiridos não assistiua um evento de artes performativas tradicionais ou clássicas.

No novo estudo anual, feito entre março e maio de 2019, o Barómetro Gerador Qmetrics – do qual falaremos mais à frente –, 94% dos inquiridos afirma que se deve investir mais em cultura, sendo que 82% acredita a percentagem de investimento pelo orçamento de Estado na cultura deve aumentar. Destacam-se os 70% que consideram que a cultura está mais próxima da educação do que do entretenimento. O mesmo estudo indica que a falta de tempo, seguida da falta de interesse são um entrave à fruição cultural.

Atendendo às vozes ouvidas nesta narrativa, sobressai a ideia de que é na educação que poderá estar a chave para uma sociedade mais esclarecida e sensível ao universo cultural. Só assim, reforça Barreto Xavier, é que a cultura pode ser efetiva e estar “presente na vida de todos os dias, como ato ordinário, e conatural à nossa existência.”

 

A reportagem Formar cidadãos, formar públicos: que caminho(s) para a cultura em Portugal? encontra-se na Revista Gerador 26, que podes comprar aqui.

Texto de Carolina Franco e Ricardo Ramos Gonçalves

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