Quando fiz o serviço militar fui mandado para o quartel de Beja. Era verão e fazia muito calor. O treino consistia sobretudo em seguir ordens, virar à direita, à esquerda, correr e pular e assim por diante. Na verdade, não tinha nada para fazer e passava parte do dia sentado à sombra de uma figueira observando um ninho de formigas.

Elas saíam de um buraco no chão, atrás umas das outras em trilhos bem organizados. Levavam pequenas folhas para o interior, e de vez em quando um outro inseto morto ou parte dele. O comportamento geral era muito bem orquestrado como se alguém ou algo estivesse no comando. As formigas pareciam imitar a organização militar. Eu não podia estar mais enganado.

Com 150 milhões anos de existência, as formigas, que começaram por ser insetos solitários tal como as vespas de que derivam, desenvolveram uma sociedade radical. Dentro do ninho há apenas fêmeas e ninguém está no comando. Mantendo a abordagem antropocêntrica habitual que fala de rainhas, operários e soldados, na verdade, as formigas são feministas e anarquistas.

A rainha é na realidade o órgão reprodutivo do coletivo. Não manda nada. É “servida” por algumas outras formigas, mas enquanto assistentes desta efetiva máquina de reprodução.

De qualquer modo, é errado olhar para outras espécies usando os nossos comportamentos e conceitos como referência. Cada espécie tem uma maneira distinta de lutar pela sobrevivência e sua disseminação. Da pequena bactéria ao grande elefante, cada ser vivo desenvolve um tipo específico de comportamento, inteligência e consciência.

A antropomorfização é enganadora. Reduz a complexidade de outras formas de vida a descrições simplistas das características humanas. Torna mais difícil entender como outras espécies evoluíram e se comportam. Descrever a colónia de formigas como uma espécie de monarquia, com uma rainha e seus súditos leais, obscurece o verdadeiro mecanismo em funcionamento. Na verdade, as formigas são insetos sociais que vivem numa sociedade auto-organizada baseada na linguagem química, na interação e em regras simples. Há quem fale num super-organismo (E.O.Wilson).

Veja-se o caso da formação dos trilhos. Quando, pela manhã, as formigas saem do ninho em busca de comida, andam aleatoriamente até uma delas encontrar o que procuram. Nesse momento a formiga regressa ao ninho deixando um rasto químico, uma feromona, que atraí as outras, as quais, por sua vez vão reforçando o trilho com mais feromona. Em breve se forma um carreiro muito animado. Quando a comida acaba as formigas deixam de colocar feromona e o trilho desaparece.

Ao contrário dos humanos e restantes mamíferos, cujos mapas do território são abstrações mentais, nas formigas o mapa é realmente o território. As suas estradas emergem e desaparecem numa incessante dinâmica espacial. Não há, portanto, necessidade de nenhum comando, arquiteto ou gestor. Não existe controlo centralizado ou plano predeterminado. Tudo se faz através de simples comportamentos individuais e locais, capazes de produzir, coletivamente, uma conduta geral.

Acresce que as formigas não comunicam diretamente entre si, fazem-no através da feromona depositada no ambiente, ou seja, indiretamente. A deposição de feromona por um indivíduo tem efeito sobre a atividade de outro indivíduo, processo a que se deu o nome de estigmergia.

Cada inseto social, formiga, abelha ou térmita, demonstra individualmente uma capacidade limitada de reconhecimento ambiental e é capaz de efetuar um número diminuto de operações. Mas, coletivamente, as colónias resolvem problemas difíceis, otimização de percursos e recursos, realizando múltiplas tarefas ou fazendo construções altamente complexas. Pense-se nos fabulosos ninhos das térmitas, verdadeiras catedrais, que até ar condicionado têm.

As formigas têm sido uma inspiração importante no meu trabalho como artista. Nomeadamente, ao dotar grupos de robôs criativos com comportamento de formiga. Mas a inspiração nos insetos sociais pode e deve servir outros propósitos. Por exemplo, na própria organização da nossa sociedade. Não para nos tornarmos formiguinhas, mas para aplicarmos similares mecanismos de cooperação e auto-organização. As redes sociais, por exemplo, têm muito a ver com o modelo comunicacional das formigas. Uma pessoa coloca um comentário e imediatamente outras reagem, positiva ou negativamente, gerando tendências de pensamento coletivo, a que também se chama inteligência coletiva. Do mesmo modo, a convocação de manifestações, a criação de movimentos de gosto ou de opção política inscreve-se cada vez mais no mecanismo da estigmergia.

Enfim, temos muito a aprender com as formigas.

-Sobre Leonel Moura-

Leonel Moura é pioneiro na aplicação da Robótica e da Inteligência Artificial à arte. Desde o princípio do século criou vários robôs pintores. As primeiras pinturas realizadas em 2002 com um braço robótico foram capa da revista do MIT dedicada à Vida Artificial. RAP, Robotic Action Painter, foi criado em 2006 para o Museu de História Natural de Nova Iorque onde se encontra na exposição permanente. Outras obras incluem instalações interativas, pinturas e esculturas de “enxame”, a peça RUR de Karel Capek, estreada em São Paulo em 2010, esculturas em impressão 3D e Realidade Aumentada. É autor de vários textos e livros de reflexão, artística e filosófica, sobre a relação Arte e Ciência e as implicações, culturais e sociais, da Inteligência Artificial. Recentemente, esteve presente nas exposições “Artistes & Robots”, Astana, Cazaquistão, 2017, no Grand Palais, Paris, 2018, na exposição “Cérebro” na Gulbenkian, 2019 e no Museu UCCA de Pequim, 2020. Em 2009 foi nomeado Embaixador Europeu da Criatividade e Inovação pela Comissão Europeia.

Texto de Leonel Moura
Fotografia Bebot
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