Quando o Francisco atendeu a chamada já passava da hora combinada. Só nessa altura se apercebeu que não eram 18h30, mas sim 19h30. Perdera a noção das horas embrenhado no trabalho. Têm sido assim os últimos anos do Francisco, também conhecido como Francisco Fininho Sousa. Produtor Executivo de música, com anos de experiência e investigação na música tradicional dos PALOP, tem-se afirmado como produtor executivo de vários tipos de projectos. Foi já DJ e co-fundador dos Celeste/Mariposa, de onde saiu em 2016. Nos últimos anos tem trabalhado como produtor executivo independente, trabalho esse que viu a luz do dia no passado dia 13 de junho com o lançamento oficial do projeto, banda e álbum dos Bandé Gamboa.

Desafiado pelo aclamado produtor francês Guts, a banda foi editada pela parisiense Heavenly Sweetness. Francisco Sousa conta como Guts lhe bateu à porta e lhe confiou todo o projeto. Pensou e executou, endereçando o convite a duas bandas – uma da Guiné Bissau e outra de Cabo Verde – num projeto arrojado que recupera, reinventa e moderniza algumas músicas nunca antes lançadas. A banda intergeracional presta ainda neste álbum “Horizonte” homenagem à figura de Amilcar Correia – responsável pela libertação destes territórios da ocupação portuguesa – recuperando também a importância do respeito pela História e cultura africana.

Os Bandé Gamboa estão no alinhamento para o FMM de Sines do próximo ano e próxima edição do Trans Musicales de França, que é conhecido por ser uma montra dos novos talentos na World Music. O projeto, subsidiado pelo Ministério da Cultura Francês, tem sido muito aclamado na crítica francesa e, de acordo com Francisco, “foi um disco muito ambicioso”.

Gerador (G.) – Quando foi desafiado pelo Guts, ele já levava uma ideia bem definida do que pretendia ou já conhecia o trabalho do Francisco e confiou-lhe todos os detalhes deste projeto?

Francisco Sousa (F.S.) – Felizmente estou habituado a que confiem em mim e no meu trabalho. Eu, de facto, não conhecia o Guts pessoalmente, mas eu percebi que eles conheciam o trabalho em que eu participei, uma compilação para uma editora Alemã Analog Africa, que saiu em 2016, e que foi uma compilação de música de Cabo Verde chamada “Space Echo”, reeditada aliás 5 vezes. Então, a partir dessa referência eles vieram falar comigo porque eu estava num projeto chamado Celeste/Mariposa antes. Eu estava à espera que me desse responsabilidade mas ele entregou-me completamente tudo e depois só veio para acompanhar as gravações e, como estava tudo organizado, não teve uma intervenção muito direta, foi mais na fase da mistura. Esteve 15 dias em Lisboa para a mistura.

Não me interessava muito fazer mais um projeto e pensei bem como é que se podia marcar a diferença e pensei numa estratégia para que este fosse um projeto com impacto e, portanto, propus um projeto que na realidade achei que existia uma grande probabilidade de ser chumbado. E depois foi uma surpresa muito grande quando lhe apresentei e ele disse “avança”. 

G. – Então esta ideia de procurar os sons da Guiné Bissau e de Cabo Verde e juntá-los num só álbum partiu também do Francisco?

F.S. – Sim, eu apresentei-lhe a proposta tal e qual ela foi feita. No fundo eu montei um projeto: duas bandas, três cantores cada banda, com os tema escolhidos por mim, porque no fundo utilizei o meu conhecimento e investigação de há 10 anos e, portanto, é um álbum que junta por um lado alguém que investiga esta música e, por outro, uma banda ao vivo que investiga novos talentos. Esta é uma banda intergeracional, eu quis criar esse equilíbrio. Este álbum tem vários temas que nunca tinham sido lançados, mas quis também criar temas atrativos para uma nova geração e isso é muito difícil tendo em conta a grande distância de gosto entre o público jovem africano e o público jovem europeu. Foi um disco muito ambicioso.

G. – Aliado a todos esses desafios, pergunto se não foi um desafio também lançar um álbum em período de confinamento? 

F.S. – Este álbum foi gravado em 2019. Este foi o disco mais caro da história da editora e contamos também com subsídios do Ministério da Cultura Francês, que foi fundamental. O surgimento este ano do covid-19 não foi uma boa notícia evidentemente. O disco saiu oficialmente dia 13 de junho – íamos ter o lançamento em Paris e depois íamos partir para uma torné e tivemos que desmarcar tudo. Agora adiamos para dia 18 de dezembro o lançamento.

G. – Falava-me que o projeto foi subsidiado pelo Ministério da Cultura Francês, isto trouxe mais responsabilidade ao projeto? Como é que o Francisco geriu isto com os músicos?

F.S. – A minha estratégia é ter uma ambição desmedida e depois ver até onde conseguimos ir. Na realidade só soube do Ministério da Cultura Francês muito mais tarde no processo, na altura nós quisemos fazer um projeto de alta qualidade porque é a única forma de cimentar um trajeto, um circuito internacional ao mais alto nível. No Gumbé hoje em dia é muito difícil de arranjar e certamente que o mesmo no Funaná. O Funaná que surge de Cabo Verde nos circuitos internacionais é um Funána que não tem tantos elementos inovadores normalmente e então nós tivemos que fazer um experimentação. 

Mas depois quisemos concorrer com um nível de bandas mais elevado que existe. Houve uma preocupação muito grande em primeiro contextualizar e fazer um projeto moldado às necessidades e aquilo que podia ter um maior impacto hoje em dia, culturalmente, e também quis escolher os melhores interpretes para isso e, por isso, são várias cabeças envolvidas para conseguir planear algo. Não basta trazer a música de um determinado lugar e lançar um disco, esse disco tem de ter um determinado nível porque se não tiver fica tudo igual. 

G. – E como está a ser a receção por parte do público ao projeto, ao álbum e quais têm sido as críticas? 

F.S. – Nós esperávamos poder mostrar a música em palco. No passado dia 22 de julho gravámos um vídeo promocional em estúdio, no fundo um vídeo para mostrar a banda e a qualidade da banda. Mas custa um bocado não ter mesmo acesso às pessoas. 

Contudo, o disco tem tido críticas muito boas. Esteve em todos os boletins culturais mais importantes em França, que é um mercado de alta qualidade e super competitivo. Temos uma editora francesa e por isso temos também uma presença grande nos media em França. É um disco muito fresco. As pessoas não conhecem o Gambé, o Gambé não tem um trajeto forte então eu fico contente por sermos uma novidade e estarmos a fugir a alguns dos clichés da música tropical de hoje em dia.

G. – Este álbum é uma modernização de alguns clássicos, com novos sons, mas também não deixar a mensagem importante de fora (Amilcar Cabral)

F.S. – O público europeu que se interessa por música africana tem uma imagem muitas vezes parada no tempo. É uma imagem muito fabricada, temos uma imagem muito romântica ou de um país que já não existe ou que existiu, e há muito pouca abertura para a África contemporânea. Acho que a música tem de servir também para as pessoas e as culturas se conhecerem melhor e então isto é um disco que procura ter impacto tanto nos países de origem como em Portugal e na Europa. Esta é uma grande afirmação de estreitamento de culturas e distâncias.

A música que está no top na Guiné e a música que está no top em Portugal são totalmente diferentes, mas existe algo em comum. É possível fazer um disco. É como se diz das esculturas: a escultura já lá está, eu pego numa pedra e só tenho que encontrar o formato. Portanto, existe uma possibilidade de fazermos um disco que seja celebrado tanto na Europa como lá e nós tentamos ir à procura desse som.

O que tem acontecido nos últimos anos é que a indústria tem muito poder e diz aos músicos como é que eles devem fazer. E isso é estranho, porque por muita pesquisa que um produtor faça, o produtor europeu que trabalhe num contexto pós-colonial com música africana está sempre numa posição difícil. É importante respeitar o passado e a bagagem cultural. É importante dar poder aos músicos, criar um ambiente em que eles sintam genuinamente que podem testar e propor soluções. Eu tenho de ser principalmente um observador. Quando assim não é, ainda que os discos possam ser bons, perde-se muita cultura ao dizer aos músicos como é que eles devem fazer a música que eles conhecem. Isto é um compromisso de dar e receber.

G. – E assim num respeito ao passado, à História e às raizes, se encaixa tão bem a homenagem à figura de Amilcar Cabral.

F.S. – Sim, esta foi uma mensagem importantíssima. Aqui a figura do Amilcar Cabral encaixa bem nesta nossa tentativa de mostrar o esplendor da cultura africana da maneira que os africanos querem. E isso é que eu acho que é a grande força do álbum, que se ouve e se sente.

G. – E qual é agora o novo “Horizonte” à vista para a banda?

F.S. – É uma boa pergunta, porque em circunstâncias normais lança-se um disco, faz-se uma torné e volta a repetir-se o processo. Agora é estranho, lançamos um disco e as pessoas querem ouvir aquele disco que acabou de sair e estamos num situação difícil. Se o covid-19 se prolongar muito ou esperamos até que seja possível promover este disco ou então temos que gravar outro. Mas não dá para gravar outro porque a editora também tem que ter os seus retornos e estamos num incerteza.

Por enquanto temos a data de 18 de dezembro, mas nós temos a certeza que queremos lançar o segundo disco e o terceiro. Queremos ir ao fundo do baú. Eu tenho muitas ideias para lançar novas músicas. Isto é um projeto de longo prazo e queremos que a banda cresça álbum a álbum e que percorra o mundo todo. Acho que é uma banda feita para tocar ao vivo, com muita força. Um mistura entre experiência e grande irreverência e juventude, e essa combinação é muito forte.

Entrevista de Bárbara Dixe Ramos
Fotografias cedidas pela banda