Bem acompanhada da leitura do “Pequeno manual antirracista”, da filósofa brasileira Djamila Ribeiro, tropecei numa citação da arquitecta e urbanista Joice Berth: “Não me descobri negra, fui acusada de sê-lo”.

Li e reli a frase, percorri os múltiplos julgamentos sumários que enfrentei ao longo da vida, e demorei a recuperar o equilíbrio.

Agora, cerca de um ano depois do embate, regresso a Joice, e volto a deter-me na mesma palavra: “Acusada”. Ela transporta, na minha história, o sentimento de crescer com uma sociedade de dedos apontados contra mim, sempre à espera da minha ‘culpa’. A ‘culpa’ de ser uma pessoa negra, comprovada, desde cedo, na cobertura noticiosa.

Lembro-me perfeitamente que, estava eu ainda a anos de me imaginar jornalista – hipótese que só considerei a partir do momento em que vi José Mussuaili apresentar um telejornal (haja mais representatividade!) – e já identificava os inúmeros vieses racistas propagados pelos media.

A ofensiva dirigida a pessoas como eu era de tal ordem, que, a determinada altura, fazia apostas com as minhas irmãs de cada vez que ouvíamos uma notícia negativa, na maioria das vezes sobre criminalidade. “Se disserem a origem é porque é black”, repetíamos. Sempre que não era celebrávamos.

No nosso olhar ainda infanto-juvenil do mundo, já era notória a associação entre pele negra e crime. Mas, como pessoas negras e não criminosas que somos, sempre tivemos consciência desse enviesamento, e, por isso, nunca tivemos dificuldade de esvaziar essa narrativa.

A cobertura jornalística enquanto fundação do sistema estruturalmente racista

Podemos escrever o mesmo das pessoas brancas? Não, a avaliar pelos preconceitos que, consciente ou inconscientemente, mantêm em relação a pessoas negras, repetidamente representadas nos media de forma desumanizada e criminosa. A cobertura do assassinato bárbaro de Bruno Candé demonstra-o: nos dias que se seguiram ao crime, as notícias encheram-se de agravantes sobre o falecido actor, e de atenuantes em relação ao homicida confesso.

Sabendo nós que os media são formadores de opinião por excelência, não nos deveria surpreender que a cobertura jornalística seja uma das grandes fundações do sistema estruturalmente racista em que vivemos.

Choquei de frente com ela não apenas como leitora, mas sobretudo como jornalista. E o problema começa na ausência de pessoas não brancas nas redacções e cargos de chefia, traduzida numa agenda que perpetua privilégios brancos, e numa linguagem que normaliza discriminações. Depois estende-se às fontes, ou seja, às vozes consideradas para a construção dos artigos (quem importa para a narrativa?); acentua-se nas colunas de opinião, que se tornaram palcos para amplificar vieses racistas; e amplifica-se entre publicações nas redes sociais, cada vez mais intoxicadas de distorções noticiosas, construídas para polarizar e polemizar reacções.

E depois ainda se simula espanto e indignação diante da escala online – e offline – de discurso de ódio contra pessoas negras e de outras minorias.

Assim desanda a comunicação social e, com ela e como ela, a sociedade. Por isso não me surpreende encontrar Portugal entre os países com maior preconceito racial do globo.

Parece excessivo? Leia-se o estudo “Racial Bias Around the World”, da autoria de Alexander Coutts, professor auxiliar na NOVA SBE, onde se observa que mais de 70% dos portugueses mostraram um enviesamento pró-branco, atirando o país para a 26.º pior posição do mundo nesta matéria.

A conclusão, explicou o especialista à revista Exame, resulta da aplicação do Teste de Associação Implícita (IAT, na sigla em inglês), que tenta medir quão rápida é a nossa associação de palavras negativas ou positivas a rostos de pessoas brancas e negras, exercício indissociável da nossa dieta noticiosa.

Um tabu à portuguesa

“Em Portugal discutir racismo parece ser tabu”, constata Coutts, defendendo que os media têm um papel a desempenhar no aprofundamento desta discussão.

O professor, que vive no país desde 2015, dá como exemplo a cobertura dos protestos Black Lives Matter. “Eu imaginaria que os media se esforçassem mais para entrevistar manifestantes e ouvir o seu lado da história, partilhar as suas experiências em Portugal. Quando milhares de pessoas marcham por todo o país, seria importante tentar perceber porquê. Em vez disso, parte da cobertura foi muito literal, descrevendo simplesmente que houve um protesto. Outro tipo de cobertura noticiosa focou-se em outros temas, como cartazes ofensivos empunhados por manifestantes brancos”, nota o investigador.

Na crítica aos media, Coutts alerta para os efeitos prejudiciais dessa superficialidade. “Alguns na extrema-direita usam essa negatividade a seu favor”, nota, explicitando: “Quando os media não investigam os motivos de queixa dos manifestantes e até seguem as narrativas que o deslegitimam, não está a ser dado a quem está em casa um racional forte para justificar os protestos”.

Às observações deixadas pelo professor canadiano, acrescento o meu olhar de “acusada”, abreviado numa reflexão: se passarmos a vida toda expostos à representação negativa de uma realidade, conseguiremos, algum dia, olhar para ela de forma positiva?

Dificilmente, arrisco escrever, embora acredite que a viragem é possível. Ela começa no reconhecimento dos inúmeros preconceitos que a sociedade planta em todos nós, desde os currículos escolares à cobertura mediática. Está preparado para confrontar os seus? Basta querer.

-Sobre Paula Cardoso-

Paula Cardoso é a fundadora do “Afrolink”. Uma comunidade digital que dá visibilidade a profissionais africanos e afrodescendentes residentes em Portugal ou com ligações ao país. É também autora da série de livros infantis “Força Africana”, faz parte da equipa do talk-show online “O Lado Negro da Força”, e apresenta a segunda temporada do “Black Excellence Talk Series”, projetos desenvolvidos com o objetivo de promover uma maior representatividade negra na sociedade portuguesa.  Integra ainda o Fórum dos Cidadãos, que visa contribuir para revigorar a democracia portuguesa, bem como o programa de mentoria HeforShe Lisboa.
Paula Cardoso é formadora do curso "Filtros étnico-raciais nos media" que decorre nos dias 19, 20 e 21 de julho na Academia de Verão Gerador 2021.

Texto de Paula Cardoso
Fotografia de Aline Macedo
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