“Quando um povo cultiva a arte há progresso, quando a abandona há decadência”

Nietzsche

A popularização/banalização do Galo de Barcelos

Barcelos terra de artesanato e de lendas. Localizada no Alto Minho, mais precisamente, no distrito de Braga, é uma terra modesta, que transporta consigo mitos que permanecem ao longo dos séculos nas diversas gerações. Esta cidade portuguesa ainda carrega consigo a particularidade de acolher as águas límpidas do rio Cávado e de integrar o caminho de Santiago de Compostela.

Ainda assim, mais prioritário do que falar sobre os seus atributos, é falar sobre os seus costumes de olaria. Refira-se o principal: o Galo de Barcelos. A verdade é que quem passa pelo território barcelense sabe que é impossível distanciar-se desta arte artesanal, já que este símbolo está, atualmente, espalhado por toda a cidade. Tomemos como exemplo a entrada da cidade que nos brinda com a presença do famoso Cruzeiro. A verdade é que esta figura se tornou um símbolo de portugalidade, invadindo o quotidiano dos portugueses. Desde panos de cozinha, loiça, porta-chaves, estatuetas e outros, este símbolo português pode ser adquirido em qualquer loja de recordações do país. Sintetizando, poderíamos mesmo afirmar que o Galo de Barcelos representa a grande marca concelhia, agregadora de vários setores de atividade, envolvendo praticamente todas as áreas de atuação. Chegados a este ponto talvez devêssemos procurar descodificar porquê a figura do galo?

Fotografia disponível via Flickr

De acordo com o texto “Galo de Barcelos: Património e Destino Turístico”, de Francisco Gonçalves e Carlos Costa, “o costume de fabricar galos e outros animais domésticos remonta a tempos longínquos. Nessa época, os motivos mais comuns eram as representações de animais domésticos, nomeadamente bois, porcos, equídeos, galos e galinhas”.

Apesar da variedade de escolha, naquele tempo, eram os galos que predominavam uma vez que estavam, tradicionalmente, associados a virtudes mitológicas. Para além disso, o galo era um símbolo do povo, justamente, pela sua aproximação doméstica. Devido ao seu canto, este era igualmente associado à vitória e ao afastamento de bruxas e outros seres. Escolhido o animal doméstico, restava escolher o material para o transpor.

Ora, de acordo com Basto, no Jornal de Barcelos, de 1991, “o oleiro de Barcelos está em toda a parte: em casa, no campo, na estrada ou na rua. Vê tudo, e tudo transpõe para o barro, não raro lhe transmitindo um sentido aguçado de crítica. Por isso observar as suas peças é ter à mão e entender o próprio Minho”.

Traçando uma linha cronológica, podemos situar os registos mais antigos da história do Galo de Barcelos no ano de 1877. É a partir desta data que o galo começou a ser representado em olaria no século XIX e tornar-se-ia, assim, um símbolo da hospitalidade portuguesa no Estado Novo. Em 1935, fez a primeira incursão internacional, representando o país na Exposição de Arte Popular Portuguesa em Genebra.

Ainda assim, nem sempre manteve a mesma imagem. Tendo como base o artigo “Galo de Barcelos: Património e Destino Turístico”, o atual Galo de Barcelos, que surgiu em meados da década de 1950, “é um galo moderno, esguio e diferente dos anteriores, e caracteriza-se pelo seu fundo negro, com corações vermelhos, um pescoço esbelto e alto, crista e cauda mais desenvolvidas e serrilhadas”.

Mas recuemos mais um pouco sobre a origem do galo de Barcelos. Como referia acima, esta é uma terra de lendas e a sua origem não poderia deixar de estar, igualmente, associada a uma.

Face a isto, consta o povo português que acontecera um crime no burgo e, sem se saber quem o havia cometido, as suspeitas recaíam sob um peregrino galego chegado recentemente a Barcelos. O peregrino jurou inocência, mas os seus esforços foram em vão. Condenado à forca, pediu que o levassem à presença do juiz antes da sentença ser cumprida e, afirmou: “É tão certo eu estar inocente como certo é esse galo cantar quando me enforcarem.” Facto curioso é que no momento em que o galego estava a ser pendurado, o galo assado ergueu-se da mesa e cantou. O peregrino, em cujo pescoço o nó lasso da corda se desfez, por obra divina, foi libertado e prosseguiu o seu caminho até Santiago de Compostela.

Ainda assim, mitos há muitos e há quem não acredite na mesmo. Tomemos como exemplo o jornal Expresso, que, na sua edição de 26 de fevereiro de 1983, publicou um artigo intitulado “O Poder do Galo de Barcelos”. Neste artigo, aponta o turismo como o principal autor da associação entre a lenda e a venda de galos.

Independentemente da sua veracidade, e de forma a eternizá-la, foi a partir daí que o artesão Domingos Côto criou o primeiro Galinho de Barcelos. Neste seguimento, e tendo em conta os dias de hoje, os efeitos da lenda ainda são visíveis. A realidade é que Barcelos é um dos pontos de paragem e passagem mais importante para quem faz o caminho central português até Santiago. Para tal, basta olharmos para os números. De acordo com a revista Sábado, só em 2019 contaram-se cerca de 17 mil dormidas em albergues, e cerca de 36 mil em todos os alojamentos do município com relação direta à peregrinação, revelou Nuno Rodrigues, técnico de turismo do município.

Porém, nem tudo foi positivo. Fruto desta popularização adveio a banalização do Galo de Barcelos. De acordo com o artigo, “Galo de Barcelos – Made in China. Comprado numa ‘Loja dos Chineses’”, “a verdade é que com o passar do tempo o Galo de Barcelos transformou-se num objeto superficial e contrafeito, finalmente atingindo o seu estatuto de “objeto do mundo” quando passou a ser made in China.”

Para fazer frente a esta realidade, a Câmara Municipal de Barcelos avançou, a 18 de junho de 2021, com a aplicação de um novo estatuto para o Galo de Barcelos. Essa certificação permite ao símbolo barcelense ser uma marca exclusivamente registada em nome daquele município, por decisão do Tribunal da Propriedade Intelectual. Em comunicado, o município esclarece que a decisão daquele tribunal é “de extrema importância para a preservação e defesa da propriedade criativa e intelectual dos artesãos ligados ao território de Barcelos”.

Com isto, o “registo confere à Câmara de Barcelos, enquanto entidade titular, o direito de impedir terceiros de usar qualquer sinal igual ou semelhante em produtos ou serviços idênticos à marca agora registada, passíveis de causarem confusão junto do consumidor”, acrescenta.

Os artesãos da arte

Traçados os principais marcos desta arte, resta saber quem nos dias de hoje ainda se dedica a praticá-la. Olhando para o panorama em geral, em Barcelos, são cada vez menos os que se dedicam a esta e os que a praticam encontram-se cada vez mais numa faixa etária envelhecida, em regime part-time. Com a chegada da covid a Portugal, atualmente, o setor enfrenta uma forte crise financeira. Face a esta realidade, o Gerador foi procurar ouvir histórias de quatro artesãos: Helena Silva, João Rego, Rosália Abreu e Telmo Macedo, que encaram, diretamente, com esta realidade.

“Acho que devia haver escolas para aprenderem, mas não há quem a queira aprender.”

Natural de Barcelos, Helena Silva é artesã do Galo de Barcelos tradicional já “há muitos anos”. Apesar de em mais nova se ter dedicado à vida fabril, foi no Galinho de Barcelos que encontrou a sua verdadeira paixão “de uma forma natural”. Ainda assim, com tristeza, não esconde que teme pelo desaparecimento desta arte, já que as despesas são maiores do que os lucros, desde “há dois anos para cá”. Consequência direta desta arte mal paga é o desinteresse dos mais novos pela tradição. “Agora não se vê ninguém a querer aprender porque para pintar o verdadeiro Galo de Barcelos, pois dá muito trabalho. Eu vejo pelos jovens e pelos meus filhos que ninguém quis aprender. Depois, se pegam, dão ali uma pincelada e outra, mas não querem estar com aquele trabalho. Isto é só para aquelas pessoas que têm paixão mesmo”, afirma.

Exposta a crua realidade, para Helena a solução passaria por retomar o antigo, neste caso, repor as aulas de artes manuais nas escolas portuguesas. Ainda assim, acredita que “não há quem a queira aprender”.

Já com uma atitude mais positivista reage perante a aplicação do Galo de Barcelos enquanto marca nacional registada. “Isso foi muito bem feito, já devia ter sido feito há muito, porque entravam aqui no mercado muitos galos que vinham da China. As pessoas olham muito só por ser um galo e como estão a um valor mais baixo adquiriam os outros. Aquilo nunca chegou aos pés dos nossos, mas vendia-se. Temos de manter a tradição, não há nada que chegue ao nosso Galo de Barcelos”, conclui.

Fotografia disponível via facebook Passatempo Criativo - Rui Pires Fotografia

“Isto será uma arte que nunca será para viver exclusivamente desta.”

Em igual pé encontra-se João Rego, de 54 anos, natural de Barcelos, que pratica esta arte desde “os tempos da escola”. Ao contrário de Helena Silva, ao invés de se dedicar à construção do Galo de Barcelos tradicional (em barro), constrói-o tendo por base pinhas e troncos de madeira.

De momento, “eu sou o único que faz em pinhas. Lembro-me de que este meu interesse começou na escola quando éramos desafiados a fazer perus com base nestes materiais. Há uns 10 anos, lembrei-me de que se fazia um peru e também era capaz de dar para fazer um galo”, explica.

Apesar do gosto por esta arte lhe “estar no sangue”, admite que nos dias de hoje não passa de um hobbie. Neste seguimento, afirma que “se a gente vivesse só disto não conseguia sobreviver.” Apesar de ter uma filha com interesse em prosseguir, acredita que no futuro a fará, como o próprio, em regime part-time.

No que toca à aplicação da marca registada contrariamente a Helena confessa “estar de pé atrás”. Para João, a medida “deveria ser mais bem pensada”, já que basta “trocarem-lhe a cor de um olho que já se podem apropriar da nossa marca”. Nesta linha de pensamento, confessa ainda que não sabe bem por onde poderia passar a solução. “Seria necessário aplicar um estudo”, aponta.

Fotografia da cortesia de João Rego

“A covid parou o galo.”

Quem enfrenta igualmente esta realidade é Rosália Abreu. Barcelense de nascença, com 39 anos, revela que a ligação a esta peça de arte advém de geração em geração, já que “pra aí há 30 anos” que se dedica à olaria com os pais.

Quando questionada sobre a duração da construção de um galo confessa que demora alguns dias. “Temos os moldes, depois vão ao banho, aplicamos-lhe um líquido que se deita por dentro dos moldes, depois ficão lá umas horas. Posteriormente, tornamos a virar o molde, ao contrário, para sair o excesso. Depois, tem de estar outro tanto tempo para abrirmos o molde e tirarmos a peça, ao retirarmos temos de a endurecer para a limpar, limpar a barbela, fazer aqueles recortes na crista, na cauda e depois tem de tornar a secar para ir para o forno. Numa última etapa, tira-se, cobre-se de preto e vai- se pintando.”

Apesar das inúmeras horas de trabalho, acredita, tal como os outros artesãos, que esta arte é mal paga. “O problema é que as pessoas dão muito mais valor a uma peça pintada à mão do que ao galo que é todo pintado à mão. Pega-se nele para aí dez vezes, antes sequer de se pintar, mas muita gente não dá valor a isso”, reflete.

Face a isto, exemplifica. “Por exemplo, de cada vez que fazemos galos são 600 euros em gás, para cozer três vezes, depois mais tinta, mais barro, é muita coisa. Não fazemos dinheiro para as despesas todas. Não dá mesmo, uma pessoa vai ao armazém está tudo cheio, é preciso escoar.”

Assim sendo, admite que um dos grandes causadores deste panorama desfavorável foi a chegada da covid a território nacional, uma vez que desde aí o “galo está parado”. “O turismo não vem e as pessoas daqui já conhecem e não dão tanto valor”, confessa. Ainda assim, mantém uma chama de esperança que, com a chegada da vacinação, a Portugal o povo regresse e visite esta arte. “O que quero é que o galo seja cada vez mais bem visto e que as pessoas tenham todos um em casa”, finaliza.

Fotografia da cortesia de Rosália Abreu

“No meu caso, as perdas chegaram aos 80 %"

Telmo Macedo é um dos artesãos mais novos desta terra minhota. Com apenas 28 anos, admite que já se dedica a esta arte do artesanato, tendo por base ferro e barro, há cerca de nove anos. Como tal, começa por explicar como surgiu o gosto pela tradição. “Isto já vem de família porque os meus pais já se dedicavam a fazer peças de artesanato, mas não neste ramo. Na altura, acabei o estágio em marketing, estávamos em crise, e acabei por me dedicar a esta arte.”

Apesar da precariedade do setor, acredita que a culpa não passa pela Câmara de Barcelos. “Acho que estão a trabalhar bem e acho que estas decisões também influenciam o próprio turista a procurar as peças.” Tal como Rosália Abreu, acredita que o verdadeiro ponto de viragem do setor se deu com a chegada da pandemia. “No meu caso, as perdas chegaram aos 80 % porque as lojas fecharam, não vendemos para revendas e as feiras também fecharam. O que fazia era online e pouco mais.”

Face à aplicabilidade da medida enquanto marca registada refere que a mesma já deveria ter “sido feita há mais tempo”. No entanto, admite que desde a sua aplicação “teve mais pessoas a comprar os galos de Portugal”.

Fotografia da cortesia de Telmo Macedo

Face a estes quatro testemunhos, resta a ânsia que o setor reveja melhores dias e que as pessoas voltem a valorizar esta tradição portuguesa.

Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via facebook Galo de Barcelos