Quatro dias de programação. Trezentos e trinta e oito artistas de sete países. Dezoito companhias em representação das artes de rua. Cento e dezoito horas de conteúdos programáticos. É assim que a 20.ª edição do Imaginarius – Festival Internacional de Teatro de Rua se faz representar, de 9 a 12 de setembro, em Santa Maria da Feira.

Após um primeiro momento, em maio, em que o Imaginarius privilegiou o palco digital, chega agora o momento do Festival Internacional assumir o seu espaço natural, as ruas e praças do território de Santa Maria da Feira, com a presença e a interação do público.

Tendo como foco dois temas centrais, nomeadamente, o mito e a marca, a programação conta com diferentes projetos artísticos a nível nacional e internacional. Ao longo destes quatro dias, serão esperadas propostas de teatro de rua e de arte no espaço público que partem do circo contemporâneo, passando pela dança, música, performance e teatro físico, para chegarem à arte digital, urbana e a projetos com enfoque no pilar da sustentabilidade. A garantia é que nenhum público ficará excluído do Imaginarius.

Ainda assim, não só de atividades se compõe esta programação. Porque a gastronomia também é arte, o festival Imaginarius voltou a desafiar a restauração local para uma encruzilhada de sabores, privilegiando menus que tenham por base produtos endógenos e sazonais, e revelem criatividade na confeção e empratamento. Adega Monhé, Lago, Taberna do Xisto e Terra Mãe são os quatro restaurantes oficiais do Sabores Imaginarius.

Preocupado com a proximidade das datas e com o mau tempo exterior, o Gerador esteve à conversa ainda que online, com Gil Ferreira, vereador do Pelouro da Cultura, Turismo, Museus e Bibliotecas e diretor executivo do festival, acerca da essência do Imaginarius. Ao longo da conversa, o diretor procurou refletir acerca da história do festival, sobre a programação e sobre os temas centrais da presente edição.

Gerador (G.) – O Imaginarius – Festival Internacional de Teatro de Rua de Santa Maria da Feira celebra, este ano, a vigésima edição, consolidando o seu posicionamento como o maior evento de artes de rua em Portugal e como festival de referência nas redes internacionais de difusão das artes de rua e circo contemporâneo. Gostava que me começasses por contar como é que nasceu esta ambição de criar um festival de artes de rua?

Gil Ferreira (G. F.) – Isso já é uma história antiga... O festival surge há precisamente 20 anos e a primeira sessão ocorreu a 5 de setembro de 2001... Esta correlação não deixa de ser interessante já que o festival urge por circunstâncias de uma estratégia da pandemia que implicou a divisão da programação em duas etapas. Uma etapa não presencial, online, em maio, e uma segunda etapa com um palco privilegiado no espaço público, em setembro, mas não deixa de ser interessante que, na celebração dos 20 anos, o festival regresse, ainda que temporariamente e por força das circunstâncias, ao mês de setembro que foi precisamente o mês que viu nascer o festival na cidade de Santa Maria da Feira. 

Aqui, há que destacar dois pontos. De facto, o festival chega a Santa Maria da Feira em 2001, no entanto, há um precedente que já vem, certamente, influenciado pelo acolhimento do festival Sete Sóis, Sete Luas, que chegou a Santa Maria da Feira, em finais dos anos 90, no qual já aconteciam manifestações culturais no espaço público e algumas incursões no teatro de rua. Na realidade, hoje temos esta grande definição das artes de rua, numa tradução quase direta do termo outdoor art. No entanto, gostaria de sublinhar que o Imaginarius tem um impacto e um alcance na disciplina de teatro de rua. Aliás, ainda hoje faz parte do ADN proteger os artistas e as companhias que se dedicam ao teatro de rua.

Então, surge num contexto muito específico, na viragem do século, onde já aqui algumas sementes tinham sido lançadas sobretudo pelos responsáveis da Direção Artística e da Direção Criativa do dito festival dos Sete Sóis, Sete Luas. Na altura, tinham já um contacto com esta forma de programar os lugares, com o recurso ao teatro de rua. Surge também num contexto em que alguns territórios estavam a desenhar estratégias de marketing territorial, sobretudo, para a captação de residentes. Santa Maria da Feira que não tinha tradição ao nível de equipamentos culturais convencionais, hoje, efetivamente, tem um conjunto de bibliotecas públicas, um conjunto de museus, que foram também criados de acordo com o novo paradigma no século xxi. Ao longo do tempo, encontrou no espaço público o seu espaço preferencial. 

Assim sendo, e na minha perspetiva, concorrem sobretudo duas realidades. Uma realidade que foi a sequência natural de uma programação, no espaço público, do festival Sete Sóis, Sete Luas, e, por outro lado, foi muito por força dos diretores artísticos. Aliás, não podemos dissociar que o teatro de rua já existia em Santa Maria da Feira por força das manifestações culturais da Semana Santa e por força das manifestações da recriação histórica no tema da Idade Média.

O Imaginarius vem trazer uma cultura mais cosmopolita. 

G. – Atualmente, o Imaginarius assume-se como um projeto de abrangência plural, promovendo a acessibilidade social, intelectual e física a todos os públicos, sem exceção, para que estes possam evidenciar a sua participação e fruição cultural. De que forma têm procurado manter estes princípios base?

G. F. – No fundo, o Imaginarius é quase como uma ágora de participação que possui no seu ideário este princípio basilar de ser um lugar plural, aberto e universal. E, como é que temos mantido esta chama viva? No que diz respeito ao acesso social, o festival é também um espaço de intervenção na comunidade porque muitos dos projetos que são apresentados no festival, atualmente, são projetos que derivam de ações continuadas na comunidade. Por exemplo, uma das apresentações, nesta vigésima edição, convoca a Sinfonia das Hortas. Para além do propósito na criação em si, que nos remete para valores da sustentabilidade, é um projeto continuado, organizado pela Orquestra Criativa. Um projeto eminentemente social.

Neste sentido, a acessibilidade social é dinamizada, entre outras formas, por exemplo, através da política de acesso gratuito. O propósito da medida passa por garantir que a condição económica e financeira não seja um entrave ao contacto com a oferta de programação que o festival contém. Referi aqui o Projeto Orquestra Criativa como poderia referir outros projetos de dimensão comunitária e intervenção social, que já aconteceram, que estão em curso, e que hão de acontecer.

No que diz respeito à acessibilidade intelectual é todo um princípio que o próprio festival veicula inclusive no conteúdo porque muito dos espetáculos têm gestualidade, movimento, mas não têm texto. Então, nesse contexto já está aí uma das ações-chave para uma política de acesso intelectual. No entanto, nós também procuramos que numa parte da programação sejam adicionadas ferramentas de apoio à acessibilidade, nomeadamente, as legendagens, a acessibilidade do site do festival, entre outros. 

G. – A presente edição propõe como desafio a abordagem das temáticas do Mito e da Marca. Porquê a escolha destas abordagens?

G. F. – Essa escolha diz respeito a uma trilogia temática que tinha a particularidade da letra. No fundo, representa a ligação entre três temas: o da memória, do mito e da marca. O facto de na presente edição concorrerem dois temas tem, exclusivamente, que ver com a necessidade de adiamento da edição de 2020. O que estava definido é que no ano de 2019 trabalharíamos o tema da memória, o tema do mito em 2020 e o tema da marca no ano em que celebrava a vigésima edição. Então, passamos da memória enquanto marca da nossa caraterística principal enquanto humanos, para o mito. Aqui, no mito existe a dualidade entre o mito urbano e o mito geracional. Depois, na marca reunimos os vinte anos da presença do Imaginarius, em Santa Maria da Feira, e os impactos diretos ou colaterais que o mesmo teve em Portugal e na Europa, enquanto elemento de uma rede alargada de festivais e de espaços de criação que se dedicam à promoção das artes de rua. No fundo, queríamos convocar a marca que o Imaginarius deixou nos artistas, no seu público, na comunidade, com esta relação local, nacional e internacional. 

Esta orientação também servia o propósito de que todos os equipamentos culturais pudessem ter ofertas de programação que tivessem relacionadas com este fio condutor, esta trilogia temática. 

Resumindo, no ano de 2021 existem dois grandes temas porque na realidade é a reprogramação do ano de 2020 e a programação definida de forma a celebrar os 20 anos. 

G. – No que se refere à temática do Mito, toda a programação foi desenhada para ser uma proposta de reflexão das várias perspetivas dos mitos e da sua interligação com as artes e com as sociedades. Relativamente ao tema da Marca, o desafio colocado, em 2021, aos artistas e criativos locais, nacionais e internacionais foi que construíssem projetos artísticos para o festival. Desta programação há algo que gostasses de destacar?

G. F. – No fundo, há sempre uma relação difícil entre a minha história, enquanto representante de uma equipa e os conteúdos. Se pudesse destacava as 118 horas de programação e o trabalho dos 338 artistas que estarão em evidência ao longo dos quatro dias de festival, mas vou destacar alguns na lógica, exclusivamente, da diversidade dos conteúdos e de segmentos de públicos. Começo por destacar O Mundo da Rosa, que é um projeto de uma companhia que também ela celebra 20 anos, ou seja, acaba por ter uma relação íntima com o festival, a companhia ARTELIER?. Estamos perante uma companhia que convoca valores de sustentabilidade e, por outro lado, representa uma intervenção da escola clássica do teatro de rua.

Também queria destacar a presença do circo contemporâneo, no Imaginarius, designadamente através de uma relação continuada que o festival construiu com duas escolas de circo federadas: a Salto International Circus School e o INAC. De destacar aqui o espetáculo Variações, uma estreia absoluta em Santa Maria da Feira.

Depois, não posso deixar de destacar outras criações imaginárias, num contexto local, que decorrem das chamadas ao apoio da criação local. Na realidade, este apoio consiste em convocar artistas de Santa Maria da Feira a apresentarem propostas de criação para o festival. Aqui gostava de destacar duas criações, designadamente, o Universo Reverso, da companhia Contador de Fábulas, que no fundo vai colocar em confronto o mito e a ciência. É ainda uma performance que acontece na Quinta do Castelo. Por outro lado, destaco também a Nova Refutação do Tempo, que vai perspetivar o espaço público local de reinvenção e percorrer as 20 edições de Imaginarius no Claustro do Convento dos Loios. 

De uma forma mais generalista, também queria fazer referência à secção infantil que é uma secção de programação, especificamente, pensada para o público infantil. No fundo, convoca as famílias a participarem em espetáculos, criados de raiz, com foco no teatro de rua e no circo contemporâneo. Queremos que estas crianças e jovens possam ser o público do futuro e que potencialmente esteja até nos seus horizontes serem os artistas do futuro. Nesse sentido, temos um conjunto de workshops pensados para esta faixa etária. 

Uma outra dimensão é a da criatividade na gastronomia. Nesse sentido, o festival também é promotor de uma relação com a restauração local, com os chefes da restauração local, que foram desafiados a apresentar propostas arrojadas de uma visão de gastronomia contemporânea, mas que tenha por base a identidade local por via do recurso a produtos regionais e, sobretudo, a produtos sazonais e locais. 

G. – Como agora me referias, este festival não é só para graúdos, mas também para miúdos. Neste seguimento, existe o Imaginarius Infantil um projeto que procura fomentar e estimular as crianças como público e intervenientes no espaço público, através de espetáculos, workshops e experiências que proporcionam outras formas de sentir a realidade e estimulam a sua criatividade. Esta aposta é uma forma de alcançarem a abrangência plural que falávamos no início da nossa conversa?

G. F. – Sim! É uma clara estratégia de desenvolvimento de públicos. No fundo, é uma iniciativa que permite tornar mais plural o festival.

O festival, até ao ano de 2014, esteve muito centrado na noite e numa geração de públicos, aquela que corresponderia hoje à geração Y ou Z. A secção infantil vem alargar a paleta, vem alargar o espetro, vem convocar um conjunto de gerações que em tempos foram públicos do festival, hoje pais e mães de família. 

Por isso, e nesse sentido, concordo que essa leitura é totalmente correta. No fundo, estimula a pluralidade de acesso e participação do festival. 

G. – No que toca à apresentação desta programação estará apenas disponível de uma forma física?

G. F. – Nós fomos rebuscar, face ao sucesso da primeira etapa, algumas criações que foram apresentadas no modelo online, nomeadamente, o Very Very Funny, de Rui Paixão, André Costa Santos e Mariana Machado e o Urban Pantheon, do Teatro em Caixa. Ambas são curtas-metragens. No entanto, a celebração desta etapa privilegia o presencial e a razão de ser festival que é o encontro de comunidades, neste caso, de artistas e públicos no património natural de Santa Maria da Feira.

G. – Nos dias de hoje, acreditas que as artes de rua são valorizadas? Sentes que tem havido um maior investimento nestas?

G. F. –Eu sinto que são valorizadas, muito por força daquilo que Santa Maria da Feira trouxe aquando da viragem do século com uma programação para espaços públicos de referência nacional e internacional. Essencialmente, são valorizadas porque são experiências inusitadas em lugares-comuns, por vezes em diálogo com o património cultural e histórico, por exemplo, em praças, em monumentos, em artérias nas ruas, entre outros.

G. – Há algo que gostasses de acrescentar à conversa?

G. F. – O Imaginarius começou por ser um espaço de programação. Fundou-se por permitir à programação, que apresentou ao longo dos anos, ser um espaço de capacitação da comunidade do território e até de uma forma da região. 

Hoje, o festival é muito mais do que um espaço de programação. É um espaço de produção de novas criações e uma marca de apoio à difusão dessas criações. 

Texto de Isabel Marques
Fotografias da cortesia da organização