O Festival Imaginarius, palco privilegiado do teatro de rua e do circo contemporâneo, regressa este ano à cidade de Santa Maria da Feira para a sua 20.ª edição. A somar duas décadas de encontro e partilha cultural entre artistas e companhias locais, nacionais e internacionais, o Festival Internacional de Teatro de Rua, Imaginarius, lança, em 2021, uma programação em duplo formato, digital e presencial, que celebra “O Mito” e “A Marca”. O mapa virtual, a cargo do Gerador, abre portas já entre os dias 27 e 30 de maio, e a apresentação em espaço público está prevista entre os dias 9 e 12 de setembro.

Muitos foram os artistas que, ao longo dos 20 anos do festival, cruzaram a sua arte com as ruas da cidade de Santa Maria da Feira, “enriquecendo o património cultural e natural da região e cultivando a proximidade e o gosto pela cultura nos habitantes e visitantes do concelho”, como aponta Gil Ferreira, vereador da Cultura da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira e diretor executivo do Imaginarius.

Hojas al Viento, Imaginarius @2019

É esta essência cultural, que se faz intrínseca em todos os artistas, companhias e públicos envolvidos no projeto, que cultiva o crescimento do Imaginarius, como alavanca impulsionadora de talentos e de promoção das artes de rua. Neste contexto, o festival torna-se, não só um atrativo para quem deseja vivenciar um conjunto de intervenções artísticas em espaço público, mas também um lugar para jovens criadores de todo o mundo apresentarem os seus projetos, se tornarem mais capazes e mais aptos, e usufruírem do intercâmbio cultural e humano que lhes é proporcionado.

Em entrevista ao Gerador, Gil Ferreira aponta o carácter inovador da 20.ª edição do Festival Imaginarius, que passa pela primeira vez para uma fase inicial no meio digital. A génese do Imaginarius faz-se perdurar ao longo dos anos, tendo presente a democratização da cultura, a internacionalização, e a valorização das artes de rua e do circo contemporâneo no território nacional.

Gerador (G.) - A 20ª edição do Festival Imaginarius comemora os 20 anos de festival. Nesta celebração, torna-se interessante relembrar como tudo começou, há 20 anos.
Gil Ferreira (G. F.) - A dinâmica do festival iniciou-se com uma vontade de posicionar Santa Maria da Feira enquanto território para além da vertente industrial, de forma a afirmá-la como cidade europeia e cidade de diversidade. É nesse contexto que se manifesta o festival, inicialmente denominado Festival Internacional de Artes de Rua. Vivíamos o virar do século e uma primeira experiência, que derivou de um conjunto de eventos prévios que conduziram à maturidade de realizar um festival. Destacaria as manifestações teatrais no espaço público, a Semana Santa, a Viagem Medieval em Terras de Santa Maria, e também o festival Sete Sóis Sete Luas. Nesse festival, para além das músicas do mundo, há uma incursão provocadora, que sempre foi uma característica no festival, ter conteúdo que provoca inquietude no pensamento. Já nas últimas edições do Sete Sóis Sete Luas, houve uma expansão para todo o território o que, à data, era completamente novo. Sabemos que derrubar a “quarta parede”, trazer as artes para o espaço público, já são fenómenos dos anos 60 e 70 na Europa. Contudo, em Portugal, Santa Maria da Feira, pelo Imaginarius, foi precursora. Não é por acaso que muitas das companhias locais e nacionais estão hoje a celebrar connosco os seus 20 anos. Num âmbito em que os territórios competem cada vez mais por talentos residentes, os grandes eventos e manifestações culturais no espaço público são fundamentais. É nesse contexto que surge o festival, com o acolhimento das primeiras companhias mundiais de artes de rua, até então só acessíveis nas grandes capitais europeias da cultura, que Portugal celebrava, mas não com uma programação tão cosmopolita.

La Grande Tempiesta, Imaginarius @2019

(G.) - Destes 20 anos, é a primeira vez que apresentam este formato misto, digital e presencial. Que novas estratégias e desafios trouxe ao festival?
(G. F.) - Começo por uma frase, algo poética, “nós, neste momento, estamos a caminhar em direção ao horizonte”. Todos somos elementos promotores da mudança, a equipa e os parceiros, e reconhecemos que o horizonte vai mudando à medida que nos aproximamos dele. Nós temos de manter tudo aquilo que são as atividades regulares do festival, todo o trabalho de criação e residência, a mentoria, pré-produção e os ativos da criação Imaginarius. O festival é, hoje, um centro produtor de conteúdos, e não um mero espaço de programação, e por isso devemos adaptar-nos aos novos tempos. O primeiro grande desafio é pensar como as artes de rua, no espaço público e no processo de criação artística, podem ser interpretadas no digital. Paralelamente acontece outro desafio, a capacitação da equipa, que tem a necessidade de acelerar a literacia nos campos da criação do, e para o, digital. O outro desafio é como chegamos aos públicos, como somos provocadores e capazes de promover o interesse e a interação com os conteúdos do festival.

Já antes da pandemia este posicionamento digital, centrado na geração Z, era um plano. Agora encaramos como uma oportunidade. Na última edição que realizámos em pleno, já programámos conteúdos que tinham realidade aumentada e virtual em tempo real, para dar aos públicos uma experiência destas disciplinas. Destaco que o grande desafio é mesmo provocar e levantar questões aos artistas, que possam ser respondidas com um pensamento inovador, de nos capacitarmos com ferramentas necessárias para levar esse tipo de conteúdos.

(G.) - Como irá funcionar o mapa virtual do Imaginarius, que acontece já entre os dias 27 e 30 de maio?
(G. F.) - O Imaginarius vive do diálogo entre o património cultural e o património natural, e nós quisemos que o mapa virtual pudesse transpor todo o território de Santa Maria da Feira. O património cultural começa pelas pessoas e a diversidade composta pela diferença, que se torna uma força, nas múltiplas culturas que se encontram no festival. Numa outra perspetiva, o património natural, são os ativos, que vão desde o espaço público e a arquitetura, às identidades associadas aos cursos ribeirinhos, à água, aos lugares do território. Graças à ferramenta digital, conseguimos trazer todo o território para o mapa virtual e proporcionar uma experiência integrada ao visitante. Por exemplo, o conteúdo do Castro de Romariz leva-nos a visitar o passado milenar da cidade e tem uma interpretação do espaço físico, que é lançada a partir do próprio lugar. Esperamos públicos de todo o mundo, numa escala que não seria possível de forma presencial. E porque também queremos promover os produtos sazonais e autóctones de Santa Maria da Feira, temos uma área alimentar, na Praça do Rossio, que vai conter um conjunto de operadores da restauração, selecionados em concurso, que foram desafiados a criar menus Imaginarius que valorizassem produtos nossos, como a Fogaça da Feira, e trazer a visão criativa à gastronomia. Refiro também o olhar para as disciplinas holísticas, como o yoga e o mindfulness que se encontram no festival como um espaço para dar espaço, o intervalo para que os públicos digitais possam fazer um detox deste meio que, embora interativo, não deixa de ser veiculado por uma tecnologia que queremos humanizar. No mapa virtual levamos as pessoas do mundo aos sítios mais encantadores do território, através de conteúdos dispersos. Esta descentralização não seria possível caso se realizasse exclusivamente presencial, convidando todos a aceder através do site oficial do Festival Imaginarius.

Viagens de Memórias, Imaginarius @2019

(G.) - Este ano, encerra-se a trilogia de 2019, iniciada com “A Memória”. Fale-nos sobre a temática desta edição, “A Marca”, que se alia à anterior “O Mito”, e como se conjuga com os objetivos do festival.
(G. F.) - O tema vem de uma trilogia integrada em três momentos, 2019, 2020 e 2021. Planeámos que houvesse um fio condutor, uma consistência e coerência. Até porque, ao longo do ano, o Imaginarius relaciona-se com projetos locais e internacionais. Quisemos que, nesse processo de trabalho e mediação da interpretação dos conteúdos, existisse um ciclo anual de programação, a partir das criações em residência e das obras convidadas a apresentar o seu trabalho. O objetivo é criar um conjunto de diálogos com comunidades, também para lançar, a longo prazo, o desafio de se relacionarem com o festival. O festival é multicultural, tem uma comunidade artística consistente que se encontra com a perceção de que somos uma família. Há uma relação de continuidade e é importante partilhar e pensar como podemos ativar essa identidade. “A Memória” permitiu fazer uma recolha de saberes e tradições que foram depois catapultadas para a contemporaneidade, para o pensamento atual e, em alguma medida, futuro. Das memórias vamos até ”O Mito”, porque queremos confrontar a dualidade entre o mito urbano e o mito histórico, que nos aproximam culturalmente. Santa Maria da Feira, outrora conhecida por Terra Fronteiriça, volta a juntar a cultura ocidental com a cultura árabe. A chave da multiculturalidade é essa, que foi prevista para 2020 mas que será contida na programação deste ano. Nesta 20.ª edição, “A Marca” para Portugal está nas muitas companhias locais e nacionais, e no reconhecimento das artes de rua e circo contemporâneo no palco nacional. O Imaginarius tem alianças e parcerias com redes de festivais europeus, e por isso quisemos abordar a marca Imaginarius e as marcas que tem deixado nos públicos e nos artistas.

(G.) - A propósito da multiculturalidade, a fusão de artistas e companhias, nacionais e internacionais, é parte integrante do projeto do festival. Que vantagens se adquire deste encontro e intercâmbio artístico?
(G. F.) - O ponto-chave é mesmo esse, ter um festival arrojado e um lugar plural de encontro e procura do novo. Nesse sentido, a dimensão internacional permite que pensamentos de diversas geografias sejam partilhados no festival, com os públicos e com os pares. Esse cruzamento é fundamental no despertar de consciências nos próprios públicos. Quando um artista do México, da Indonésia, de Madagáscar, está na residência da cidade, convive com a comunidade, é um processo muito rico, que deixa marcas. Não tenho dúvidas que somos um território muito mais tolerante por via deste encontro com a multiculturalidade artística, da qual o Imaginarius é precursor. Mas, num plano mais técnico, reconhecemos que há linguagens estéticas que, efetivamente, em determinados países, estão já muito aperfeiçoadas, e o facto de podermos facilitar o encontro com artistas de vanguarda, com um percurso académico e profissional notável, e permitirmos que artistas nacionais e internacionais possam privar com esses elementos, é uma grande oportunidade de capacitação. Recordo companhias como a La Fura Dels Baús, agora extinta, Transe Express, entre outras.

Street Coffe, Imaginarius @2019

Lembro-me de que na origem do festival, na minha geração, bebia muito dos workshops proporcionados pelo festival com uma intensidade e curiosidade para aprender enormes, determinantes para o que hoje somos, um viveiro de artistas que atuam nestas áreas. Esse contributo do festival é fundamental para o ecossistema local, mas também para o ecossistema nacional. Muitas companhias nacionais passaram a ter oportunidade de apresentar os seus trabalhos no espaço público como a Artelier?, Erva Daninha, Paulinha Almeida, que são companhias de grande competência e que começaram por ter um lugar privilegiado para apresentar o seu trabalho. Mais tarde acabámos por evoluir para a aproximação ao circo contemporâneo, uma tendência europeia forte, que nos fez procurar por organizações e escolas nacionais de circo contemporâneo que são hoje parceiros. A programação de 2021 conta com a SALTO – Internacional Circus School, e o INAC – Instituto Nacional de Artes do Circo, que são duas escolas federadas que vêm ao Imaginarius apresentar, em estreia absoluta, as suas criações, num processo orgânico em prol das artes de rua e do circo contemporâneo, conseguido através deste encontro e parceria.

(G.) - Falava dos workshops e dessa vertente educacional que encontramos no Festival Imaginarius. Qual a importância dessa ação formativa?
(G. F.) - Enfatizo dois importantes projetos que nasceram no festival. Em 2014, foi criado o Imaginarius Infantil, uma secção destinada ao públicos infantis e pensada de raiz para trazer as artes para o universo do público mais novo, mais associado a workshops técnicos. Procuramos desafiá-los através da experiência técnica, da manipulação de objetos, de exercícios de corda vertical. Foi também proposto uma disciplina extracurricular na área de circo contemporâneo nas escolas de primeiro ciclo. Aproveitando a qualidade das companhias e dos artistas, proporcionamos um lugar de encontro e educação, seja uma conversa com os artistas, onde apresentam o conceito filosófico e estético subjacente à criação, ou uma capacitação técnica de cenografia, produção, figurinos, the clown, teatro físico. São essas as oportunidades educativas, especialmente a acontecer na segunda fase do festival, mas que também estão presentes no digital em várias secções.

The Last One to The Grab fall First SALTO, Imaginarius @2019

(G.) - Em termos de apresentação de conteúdos, que dá espaço a artistas para apresentar o seu trabalho, que novidades surgem nesta 20.ª edição, resultado também das “Chamadas Públicas”?
(G. F.) - Nesta primeira etapa digital, de 27 a 30 de maio, vamos ter cinco nacionalidades, Brasil, Espanha, França, México e Portugal, na medida em que temos também uma chamada destinada a artistas locais. Nestas “Chamadas Públicas”, tivemos propostas de 20 nacionalidades, o que não deixa de ser paradigmático, uma vez que foi um conjunto de chamadas de criações pensadas para o digital. Mais de 100 candidaturas de 20 países distintos. Nesta ação, estarão presentes 171 artistas, e nove estreias absolutas, das quais sete são criações Imaginarius. Destaco o projeto que decorre da “Chamada Pública” para artistas locais, “Despojos da Torre de Babel”, que, no meu ponto de vista, é um projeto extraordinário, uma vez que liga a nossa relação com fenómenos migratórios, os imigrantes, reunindo testemunhos de pessoas normais que vivem atualmente no território da cidade, oriundas de Itália, Angola, Brasil, Espanha, Síria, China, Ucrânia, Venezuela, França, Roménia e Chipre. Um projeto que tem por base uma instalação física na Quinta do Castelo, mas que pode ser descoberto a partir do mapa virtual. Temos projetos na área do circo contemporâneo, da dança, da música, que de alguma forma se relacionam com as pessoas a partir do digital. Também destaco a “Sinfonia das Hortas”, que desperta em nós uma consciencialização para os valores da comunidade e da sustentabilidade, de forma multidisciplinar e com enfoque na música, nos valores sustentáveis, na gastronomia, nutrição e no modo de viver e aprender, a partir de uma horta, sobre a importância do tempo no crescimento consciente das coisas. Entre outros, a obra de Rui Paixão “Very Very Funny”, ou o “Subtil Prelúdio à Humanidade”, em estreia em formato presencial, no Cine Teatro António Lamoso, com transmissão digital.

(G.) - Olhando agora os públicos. A nível local, de que forma a presença do festival marca os habitantes de Santa Maria da Feira, a economia e atratividade da região?
(G. F.) - O primeiro impacto que o festival tem na economia local é ao nível da hotelaria e restauração. Nesta dimensão económica de impacto direto, temos o aumento significativo de pernoitas, devido à média de 300 a 400 artistas, profissionais da cadeia de valor e públicos que se deslocam à região, chegando a um total de 15 mil pessoas que, por noite, percorrem os vários pontos da cidade. Outro é nos produtores da Fugaça da Feira, que alavanca a economia local. Sobre as pessoas, o povo, caracterizado por bem receber, devido à experiência de imigração que está no nosso ADN. Talvez essa característica, o saber estar na terra do outro, nos tenha tornado bons acolhedores. É possível assistir a esse diálogo num pequeno café, onde, apesar da barreira de idiomas, a população recebe o público internacional. Diria que o maior impacto é mesmo na comunidade, nas pessoas se terem habituado a consumir cultura, a assistir a espetáculos. Por exemplo, na secção infantil, vemos uma família completa a usufruir do festival, ou mesmo voluntários a quererem fazer parte do Imaginarius Participa, que é uma secção de voluntariado cultural. Grande parte dos projetos das companhias envolve pessoas, nem sempre atores profissionais, para fazer parte de etapas de produção e apresentação dos conteúdos. Daí essa proximidade gerada que tem um enorme impacto na comunidade.

La Calle es nuestra, Imaginarius @2019

(G.) - 20 anos depois, que essência se mantêm no Festival Imaginarius e o que mudou?
(G. F.) - Nestes 20 anos tenho o privilégio de estar em funções de direção executiva há 8 anos, e a caracterização do Imaginarius, como sendo palco das artes de rua, é uma identidade que se mantêm. O festival continua a ser um espaço plural e gratuito, de democratização dos acessos à cultura e aos espetáculos. Depois a programação, que não obstante é provocadora, continua a visar a formação e desenvolvimento de públicos. Mas claro, temos de evoluir e dar respostas aos novos desafios da sociedade contemporânea. Em 2014, aderimos à Rede Internacional Europeia Circostrada, que mudou o sentido do trabalho para um projeto com uma vertente europeia, passando de uma situação passiva, em que recebíamos conteúdos, para passar a ser ativa, com criações próprias e com os pares da rede. Depois, a dimensão multicultural, que deixou um rasto de competências práticas, de sensibilidade para o consumo dos bens culturais. Também a partir de 2014 que temos a “Chamada Pública” local, que mantemos até hoje. O Imaginarius Infantil, procura dar continuidade ao imaginário do festival na comunidade mais nova, introduzindo a disciplina das artes de ruas e do circo nas escolas. Nos últimos anos, foram estes os principais pontos, que se traduzem numa evolução e inovação das artes. Nesta 20.ª edição, que celebramos em breve, o circo em espaços não convencionais e em teatros passará a ser parte do conteúdo, tornando-se um marco que, na sua soma, só enriquece e dá maior dimensão ao Festival Imaginarius.  

Texto de Ana Mendes
Fotografias de Diana Santos e da cortesia de Festival Imaginarius

O Gerador é parceiro do Festival Imaginarius

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