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Giulia Yoshimura: “Não entendemos o quão rico é poder estar sempre cercado da natureza”

Giulia Yoshimura trabalha como artista plástica e muralista e apresentou a obra “Ruderal” na Mostra Nacional de Jovens Criadores (MNJC), que decorreu em Almada, entre 1 e 3 de dezembro. Premiada na área da Arte Urbana do concurso, a jovem brasileira falou ao Gerador sobre a sua pesquisa, com enfoque na botânica, e o objetivo de despertar o olhar das pessoas para a natureza.

Fotografia da cortesia de Giulia Yoshimura

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Apesar de se sentir atraída pela pintura desde pequena, aos 11 anos Giulia já tinha certeza sobre a formação em arquitetura – uma alternativa “mais criativa”, recorda, fora do campo artístico, no qual não contava, naquela altura, com o incentivo da família. Uma disciplina de artes plásticas, como um sinal, não a deixou esquecer os pincéis durante os estudos. Passou a pintar murais em paredes residenciais como fonte de renda extra e, dois anos depois, foi introduzida à arte urbana ao colaborar como produtora do grafiteiro Binho Ribeiro.

Estava convencida de que o seu destino era colorir muros e galerias quando concluiu o curso no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), mas a artista orgulha-se da decisão. “A minha visão de cidade, de sociedade e de espaço se deve muito à faculdade de arquitetura”, assegura, em videochamada com o Gerador. Atualmente, Giulia é mestranda em Artes Plásticas na Universidade de Belas-Artes do Porto e dedica a sua produção à temática floral.

Reconhecendo o papel significativo da academia na sua evolução, a muralista afirma que Portugal abrigou a si e a sua arte de uma maneira “extremamente positiva” e celebra um ano de oportunidades e descobertas. Em 2022, além de receber o prémio da MNJC, promovido pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), Giulia levou um toque de cor às ruas do Porto, de Fafe, Paris e Pinneberg (Alemanha).

Obra Ruderal, exposta na 25ª Mostra Nacional de Jovens Criadores. Fotografia de Jenniffer Lima Pais.
Gerador (G.) – Com base nas tuas experiências no Brasil e na Europa, sentes que a arte urbana é reconhecida e devidamente valorizada?

Giulia Yoshimura (G. Y.) – A arte urbana tem um histórico de rejeição por conta do vandalismo, mas acho que ela vem sendo cada vez mais recebida de uma forma positiva. Sempre que começo um mural, os primeiros dias ou horas, quando estou a riscar o desenho, são geralmente os momentos que as pessoas têm uma reação negativa. No geral, é muito mais bónus do que ónus. Guardo uma experiência positiva de todos os lugares que tenho pintado.

No Brasil, as pessoas estão muito acostumadas [com a produção de arte urbana], então é difícil alguém parar e perguntar se eu tenho permissão [para pintar o mural]. Em Portugal, muda bastante, até por eu estar sozinha, sem uma equipe de apoio, e não perceberem se se trata de um trabalho ou não.

G. – Gostas de trabalhar sozinha?

G. Y. – Muito. Quando preciso, chamo um assistente, mas pintar sozinha, para mim, é a melhor parte. Na rua, gosto que a interação com as pessoas sempre agrega, porque a arte mexe com elas enquanto você ainda está lá. Essa é diferença entre o ateliê e pintar na rua: a pessoa observa o processo, não [só] o resultado – pedem muito para ver o desenho final. Gosto de estar um pouco em cada lado, porque enquanto no ateliê eu fico muito sozinha, na rua eu fico muito exposta.

G. – A tua produção está focada na arte botânica. Como que a flora te inspira?

G. Y. – Só depois, mais madura, foi que parei para refletir sobre isso. Nunca tinha percebido a forma como a flora apareceu na minha arte, mas a minha avó é artista, e ela pintava muitas flores. Os meus momentos com ela sempre foram ligados à pintura, ao crochê e ao artesanato. Hoje, vejo que talvez seja por isso o meu interesse nas plantas, porque eu era uma menina de São Paulo e nunca tive um contacto nítido com a natureza.

De forma sutil, comecei a gostar de pintar flores e o interesse foi crescendo mais e mais, até que eu não me interessava por produzir outras coisas. Atualmente, tento estudar como os organismos funcionam e trazer esse repertório científico para a minha arte, não só pela reprodução, mas para refletir sobre a relação da humanidade com a natureza, especificamente com a flora.

Mural Passiflora, nas Escadarias do Monte Tadeu, no Porto. Fotografias da cortesia de Giulia Yoshimura.
G. – Que expetativa tinhas com a candidatura à MNJC?

G. Y. – Queria fazer uma coisa nova e única. Tenho uma separação do que eu produzo no ateliê e o que eu produzo na rua. Queria quebrar um pouco isso e começar a encontrar um caminho que juntasse os dois, com algo que remetesse ao urbano, mas, ao mesmo tempo, tivesse uma proporção de galeria. Foram vários testes e composições até chegar em algo que eu gostasse, que foi bem perto da entrega (risos).

G. – Na tua opinião, qual o impacto de concursos como esse?

G. Y. – Além do incentivo à produção, quando, por exemplo, é exigida uma obra inédita, o que é mais importante para um artista recém-chegado no mercado é a visibilidade, porque é algo que é muito difícil de adquirir e que todo mundo luta o tempo todo para ter – é o que você precisa para fazer o seu trabalho girar. O meu objetivo, saindo da minha cidade, do meu país e do meu continente, sempre foi levar a minha arte o mais longe possível e alcançar cada vez mais pessoas, então concursos assim ajudam-me nesse sentido.

G. – Conta-nos mais sobre o processo criativo da tua obra premiada, Ruderal.

G. Y. – A pedra, que eu recolhi de um entulho, comunica o urbano e a escala [simboliza] a pintura mais intimista que eu tenho no ateliê.

O material foi a primeira coisa definida. Recolhi diversas pedras e comecei a entender qual seria a composição. Depois, pensei qual espécie seria retratada e porquê. Sempre gosto de pesquisar as espécies e entender o que elas trazem para o trabalho – a estética, a história e o significado para o espaço e a cultura na qual ela vai ser exposta. Estudando, lembrei das plantas ruderais, que crescem em ambientes inóspitos – no cimento, num chão de pedra, no meio de uma parede de um prédio ou no asfalto –, muitas vezes causados pela ação humana. Elas não são muito notadas, porque nem era para estarem ali, então eu sabia que era difícil dela ser reconhecida, mas, mesmo assim, queria algo que fosse realmente possível de estar presente na pedra que eu recolhi, por isso escolhi [retratar] a erva-doce.

Detalhe da obra Ruderal. Fotografia da cortesia de Giulia Yoshimura.
G. – De que forma a obra questiona a relação da humanidade com a natureza?

G. Y. – Há todo esse significado forte de resistência. Ela representa muito a luta da natureza de tentar, num mundo contemporâneo, persistir, viver e estar presente. Queria gerar essa reflexão em torno da relação que estamos a criar – será sempre de quem é mais forte? Não precisa. Ela é pequena, num tamanho que é mais parecido com o tamanho real, para também estarmos mais atentos a essa delicadeza. Eu podia pegar uma placa bem grande e fazer uma coisa que parecesse com grafite, mas eu não queria produzir uma coisa literal.

G. – Como te sentiste ao saber que foste selecionada para a exposição da MNJC e, depois, premiada?

G. Y. – Apesar de ter criado [Ruderal] para o concurso, ela parte da minha pesquisa. Mesmo se ela não fosse aceita, ela seguiria como parte da minha trajetória e do estudo para a minha produção. Inscrevi-me feliz porque o concurso me instigou a criar isso e a pensar fora da caixa. Quando fui selecionada, para mim, já foi incrível. Eu já estava muito feliz só com isso, mas triste por não estar em Portugal e não poder vivenciar toda a emoção presencialmente. Quando recebi o email com o resultado do prémio, foi inacreditável. Estava com a minha família e foi um êxtase muito grande. É um reconhecimento de todo o trabalho que eu tive durante o ano e de tudo que estou a investir. Sinto que estou a criar num espaço que é recetivo da minha arte.

G. – Além da reflexão que propuseste em Ruderal, que outras questões costumas ou gostarias de levantar no teu trabalho?

G. Y. – Todo o meu trabalho, principalmente a minha tese de mestrado, é sobre a cegueira vegetal, que é um fenômeno estudado por dois botânicos, James H. Wandersee e Elisabeth E. Schussler. Eles questionam o facto de, no mundo contemporâneo, tudo estar tão cinza que, quando há uma árvore, uma planta ou uma flor, você não volta a sua atenção para aquilo, não contempla, apenas acha que faz parte de um plano de fundo. Não é que você não vê, porque, fisicamente, você está a ver aquilo, mas, psicologicamente, você não está a absorver e refletir sobre as espécies. Eles discutem como isso também acontece por conta da defasagem no ensino, em que as pessoas dão mais ênfase à fauna, já que somos animais e estamos mais conectados com aquilo que parece mais connosco.

Tento despertar o olhar das pessoas para a natureza vegetal. O meu objetivo é fazer com que se olhe com mais curiosidade e atenção para as plantas e para as flores. Questiono o movimento delas para lembrar que existe vida [na flora] e que [a planta] não é um objeto inanimado. Trago essa reflexão de diversas formas, com materiais, técnicas e perspetivas diferentes, mas sempre à espera de um olhar mais cuidadoso para a natureza.

Mural Brésil, em Paris. Fotografia da cortesia de Giulia Yoshimura.
G. – A tua experiência como imigrante inspira-te de alguma forma?

G. Y. – Não vou dizer que eu não olhava para a flora do meu país com muito encanto, mas, ao viajar para lugares frios, percebi que a estética é muito diferente. [No inverno,] sinto que hiberno com toda a natureza e são meses estranhos para mim, que vivi num país tropical. Valorizo ainda mais a riqueza de ter flores em todos os lugares o tempo todo – até em São Paulo. Não entendemos o quão rico é poder estar sempre da natureza. Isso fez eu prestar mais atenção ainda na flora brasileira e dos lugares que vou. Conhecer outros povos e culturas permite ver todas essas diferenças e perspetivas e vivenciar novas experiências, não só pela convivência humana, mas também pela observação da natureza.

G. – No geral, como costumas pensar numa nova obra?

G. Y. – O processo é sempre muito diferente. Num projeto urbano, preciso considerar o entorno, como aquilo vai ser aplicado e qual a história que vai contar. Sempre tento fazer algo que se relacione especificamente com o local em que [o trabalho] vai ser inserido ou com as pessoas que vão passar ali. Quando é uma criação de ateliê, não existe a limitação de um tamanho ou de como é o espaço, então a criação é muito mais solta.

No momento, a minha pesquisa vem sendo voltada para o vidro, para a criação de vitrais e esculturas e pinturas em vidro. Costumo guiar-me pela mensagem que eu quero passar e o material para entender a forma e o que vai ser produzido.

Mural Persistência, em Pinneberg (Alemanha). Fotografia da cortesia de Giulia Yoshimura.
G. – Quem são as tuas inspirações?

G. Y. – Na arte urbana, e dentro da botânica, a Mona Caron e o Thiago Mazza. Quando falamos em produção de vidro, mesmo não sendo pintura, a Toost Zynsky inspira-se na música e muitas das esculturas dela, para mim, parecem flores. O jeito como ela transforma o vidro numa peça orgânica me inspira muito, além do uso das cores, porque as obras dela são muito coloridas. A Georgia O’Keefe pintava muito a natureza sob uma perspetiva e um enquadramento diferente, numa dimensão que as pessoas não estavam acostumadas a ver. Gosto de trazer as plantas e as flores ampliadas, porque gosto que olhem aos detalhes, então, geralmente, quem vê uma tela dela percebe essa minha inspiração. Falando de toda a experiência de pesquisa e investigação, é a Margaret Mee, uma artista botânica incrível, que viajou até a Amazônia para pesquisar e ver espécies que ainda não estavam documentadas. Inspiro-me muito nessa pesquisa de campo ativa.

G. – Que lições já podes tirar desse início de carreira?

G. Y. – Principalmente nesse [último] ano, no qual me propus a estudar, é que estudar realmente agrega de uma forma que eu mesma já estava a sentir falta. Se não refletirmos e pesquisarmos, acabamos estagnados, e eu quero sempre estar em evolução. Meu desejo é, mesmo depois de me formar, nunca parar de estudar, sendo ou não numa instituição. De longe, esse foi o maior investimento na minha arte.

G. – Para além disso, quais são os teus planos para o futuro?

G. Y. – Sou uma artista bem nova em tudo. A minha primeira exposição da vida, ainda coletiva, foi no ano passado, dentro da faculdade, então os planos são inúmeros, porque ainda não realizei praticamente nada. Quero muito pintar, seja em arte urbana ou através de exposições, em diversos países, impactando culturas e pessoas diferentes e levando a incrível, impressionante e linda flora brasileira para fora. Além disso, [espero] criar um trabalho que me orgulhe e que eu veja sempre em evolução. Para este ano, [a meta] é concluir a minha exposição solo do mestrado de uma forma bem satisfatória. Estou empolgada.

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