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Gloria Comunello: “Vir para cá foi a minha oportunidade de crescer e tornar-me mais madura”

Gloria Comunello estava apenas há um mês em Lisboa quando aceitou dar uma entrevista ao Gerador. Com ela, quisemos trazer a perspetiva de uma jovem que viu no nosso país uma boa oportunidade e decidiu escolhê-lo para vir estagiar. Gloria, com o seu inglês pouco fluente, conseguiu mostrar a sua opinião, segura da sua escolha.

Gloria Comunello. Fotografia cedida pela estudante

As oportunidades de trabalho podem, por vezes, parecer mais entusiasmantes no estrangeiro do que as que o país de origem pode oferecer. São muitos os jovens que, hoje em dia, aproveitam a existência de várias organizações para poderem obter um estágio ou um trabalho noutro país. A AIESEC é uma dessas organizações. Para além de ser uma plataforma global que promove a liderança nos jovens, ajuda os mesmos a encontrar um bom estágio na sua área, realizando várias parcerias com empresas de vários países do mundo.

Gloria Comunello é uma jovem italiana, de 24 anos, e encontra-se a estagiar em Lisboa, faz agora dois meses. No dia 14 de julho, a estudante de Economia e Gestão Internacional deu uma entrevista ao Gerador e contou-nos como é ser uma jovem a trabalhar num país desconhecido e como foi (e ainda está a ser) a sua adaptação a uma nova cultura.

Estando, de momento, a terminar o seu mestrado, decidiu pedir ajuda à organização AIESEC. Veio para Portugal em junho, deixando para trás a sua família e a sua cidade, Bassano del Grappa, em Itália, a uma hora de Veneza.

A jovem admite que Portugal não foi a sua primeira escolha. Mas será que o nosso país pode oferecer boas condições de trabalho e boas oportunidades para os jovens evoluírem na sua área de estudos? Será o nosso país subvalorizado ou será uma escolha atraente para os estudantes estrangeiros? Com o ambiente da Baixa-Chiado e o barulho dos turistas que percorriam as ruas de Lisboa, Gloria contou-nos a sua experiência e explicou-nos como é “escolher Portugal”.

Gloria Comunello em Lisboa. Fotografia cedida pela estudante

Gerador (G.) – Qual é o teu background académico e porque decidiste seguir esse caminho?

Gloria Comunello (G. C.) – Durante o ensino secundário, estudei Relações Internacionais relacionadas com a área do Marketing, por isso acho que sempre tive uma ideia do que queria fazer. Sabia que tanto a área económica como o estrangeiro tinham de estar envolvidos de alguma maneira. Mais tarde, fiz a licenciatura em Gestão de Empresas, na Universidade Ca’Foscari, em Veneza. Depois, como quis alargar os meus conhecimentos, decidi ingressar num mestrado em Economia e Gestão Internacional, na Universidade de Verona. As questões da economia sempre me interessaram muito. É algo que me apaixona imenso, especialmente a área da Gestão de Empresas. Contudo, quero que a minha futura carreira profissional se foque na economia internacional. Por exemplo, gostaria de trabalhar numa firma que vendesse produtos para outros países que não o de origem. Para além disso, quero muito poder viajar enquanto trabalho. Sou muito ambiciosa!

G. – Como é que encontraste a AIESEC?

G. C. – Bem… é uma longa história! [risos]. Inicialmente, a minha ideia era fazer Erasmus em Londres para poder melhorar o meu inglês. Portugal não era um plano. Contudo, houve alguns problemas com a empresa que tinha sido selecionada. Exigiam coisas para as quais não tinha estudado, como por exemplo usar as redes sociais como método de trabalho. Então, tive de organizar a minha vida de outra forma. Perguntei a um professor meu se conhecia alguma empresa que me ajudasse a estagiar no estrangeiro e ele indicou-me a AIESEC. Eu nunca tinha ouvido falar! [risos]. Mas decidi arriscar e enviei-lhes um email a pedir ajuda. Eles propuseram-me várias experiências e vários estágios em diferentes cidades e acabei por escolher Lisboa. É uma cidade incrível, muito diferente do que estou habituada. Já cá tinha estado há anos com os meus pais e achei que seria uma boa oportunidade para conhecer melhor um lugar que já me era, de certa forma, “familiar”. Por outro lado, o estágio que me propuseram era bastante interessante e correspondia às minhas expectativas. Neste momento, estou a trabalhar numa startup do ramo imobiliário, o que é ainda mais giro, porque o meu pai trabalha numa empresa de construção!

G. – Qual foi o maior desafio que sentiste ao vir para Portugal?

G. C. – Viajar de férias para Lisboa não é a mesma coisa que vir trabalhar. Acho que a minha maior dificuldade foi conhecer pessoas novas. Tens de te adaptar a novas pessoas, mas também a novas formas de pensar e Itália é muito diferente de Portugal. Uma das coisas que mais reparei ao vir para cá é que o meu país é muito mais formal, mais close-minded. Aqui não, os portugueses têm uma mente muito mais aberta e são mais acolhedores! A adaptação a uma nova vida também foi complicada. Estou aqui para trabalhar e tive de aprender a trabalhar com pessoas que não conhecia e com maneiras de pensar totalmente diferentes da minha. Mas acho que isso me ajudou a crescer enquanto pessoa e, de um modo geral, senti-me bem-vinda.

G. – Como lidas com o facto de estares afastada da tua família e de teres de conviver com pessoas tão diferentes de ti?

G. C. – Bem… inicialmente foi mesmo muito difícil. Sou muito agarrada à minha família. Tenho um irmão, cinco anos mais velho, e uns pais incríveis. Eu decidi vir para Lisboa mais cedo do que os outros estagiários italianos. A minha família veio comigo e ficou cá os primeiros dias para me dar apoio. Depois, tive de ir para o apartamento onde estou a morar atualmente e tive de aprender a dividir esse espaço com treze estagiários. Isso sim, foi desafiante [risos]. Partilhamos tudo! Não é horrível, mas é muito diferente da minha vida em Itália. A única vantagem é que somos todos italianos, por isso é fácil de nos compreendermos. Mas olha, por outro lado, gostava de estar com pessoas de outros países e de falar mais português! Ao sermos todos do mesmo país, tornamo-nos preguiçosos. No trabalho ainda falo um pouco de inglês, mas, até aí, converso maioritariamente em italiano, pois trato do arrendamento de alojamentos para pessoas que vêm de Milão. Quando saio para passear, tento estar com pessoas portuguesas e de outras nacionalidades. Estou aqui para aprender. Eu não percebo nada de português. Nada [risos]! A única coisa que aprendi foi a dizer: “obrigada” e “de nada”.

Gloria Comunello com os amigos no Cais do Sodré. Fotografia cedida pela estudante

G. – Disseste que o teu estágio consistia em arrendar alojamentos para o estrangeiro. Como é que isso funciona?

G. C. – O meu primeiro dia foi bastante entusiasmante. Estava a conhecer novas pessoas e um novo espaço de trabalho. Esta é a minha primeira experiência de trabalho, por isso estava com algum receio. Mas na empresa foram todos muito acolhedores. Nos primeiros dois dias, explicaram-me tudo direitinho, o que ia fazer e como é que funcionava a dinâmica da firma. Prepararam-me bem. Portanto, agora eu arrendo alojamentos de vários países, mas faço parte da Equipa Italiana, ou seja, as minhas “vendas” são dirigidas a Milão e a Roma. Basicamente, eu sou a intermediária entre o proprietário da habitação e o comprador.

G. – Explica-nos um pouco melhor a tua escolha de vir para Portugal estagiar. Como foi o impacto cultural?

G. C. – Eu sinto que Lisboa é subvalorizada. Mas, na realidade, quando chegamos cá percebemos que existe um pouco de tudo. Existe tudo! Admito que tive algumas dúvidas em escolher a vossa cidade, mas depois percebi que estava completamente enganada. Foi uma boa escolha. Em Itália somos muito sérios e rígidos, por isso foi bom vir para um país que me mostrasse que é possível ser-se mais descontraído. Gosto mesmo do vosso mindset. Vir para cá foi a minha oportunidade de crescer e tornar-me mais madura. Posso-te dar um pequeno exemplo: aqui, sou eu que tenho de cozinhar, sou eu que tenho de comprar as minhas coisas e eu não estava nada habituada a isso. Logo aí, já sinto que estou a mudar e quando regressar ao meu país já vou ser uma pessoa totalmente diferente e, quem sabe, com um mindset mais português [risos]. Eu saio do meu trabalho às seis da tarde e, a seguir, saio com os meus colegas e amigos para explorar a cidade. Adoro isso! Gosto de sair à noite também, mas descobrir lugares novos em lisboa, seja um mero café, já completa o meu dia. Só vou estar aqui durante três meses, não posso ficar em casa, sozinha, sem aproveitar. Às vezes, quando estou mais cansada e não tenho tanta vontade de ir passear, aproveito para dar uma caminhada ou uma corrida pela Alameda, e isso relaxa-me imenso.

Gloria Comunello no Terreiro do Paço. Fotografia cedida pela estudante

G. – Consideras Portugal uma boa escolha para encontrares novas oportunidades de trabalho?

G. C. – Sim. A startup onde trabalho pode não ser uma grande, grande empresa, mas dentro dela só trabalham pessoas jovens. Isso deixa-me feliz. Nota-se que querem trabalhar a sério, que querem crescer e criar alguma coisa a partir daí. Em todas as empresas existe uma missão e as que estão sediadas em Portugal também têm objetivos a cumprir. Não é assim tão diferente dos outros países como algumas pessoas podem pensar.

G. – Achas que o nosso país seria um bom lugar para viveres, trabalhares e sentires-te segura?

G. C. – Para trabalhar, sim. Para viver… acho que não. Por exemplo, na Alameda, durante o dia, eu sinto-me segura. Vou correr muitas vezes e gosto de simplesmente me sentar nos jardins e aproveitar o sol. Durante a noite, a cidade é o oposto. Já saí com os meus amigos para o Bairro Alto, porque estava a haver lá uma festa e, claro, porque existem muitos bares. Mas eu não me senti segura. Havia muitas pessoas, talvez as pessoas erradas. Pode ser assustador, tens de sair sempre em grupo, porque senão não sabes o que pode acontecer. Para poder viver, acho que preciso de um país que seja menos imprevisível.

Gloria Comunello (ao centro) numa saída à noite com os amigos, em Lisboa. Fotografia cedida pela estudante

G. – Para além do estágio, como é o teu dia-a-dia e como é que geres as várias atividades?

G. C. – Eu trabalho desde as nove da manhã até as seis da tarde. Depois, como disse, gosto de fazer uma corrida ou uma simples caminhada nos dias que não estou com os meus amigos. Sinto que consigo absorver mais da cidade assim. Quando os meus colegas estão disponíveis para passear, vamos a algum lado beber qualquer coisa. Ficamos sempre juntos, mas isso também é algo difícil de lidar. Eu preciso do meu tempo e do meu espaço. Às vezes tenho de criar algum distanciamento para poder estar sozinha. Estar constantemente rodeada de pessoas pode-se tornar exaustivo. No que diz respeito a gerir a minha vida aqui… bem, nós recebemos um pequeno salário, mas não é suficiente para sustentar todas as despesas. Cá me arranjo. A AIESEC apenas nos ajuda a estabelecer a ligação com a empresa onde vamos trabalhar. Se tiver algum problema, é com eles que falo. O melhor disto tudo é que acabamos por ficar amigos dos que trabalham na AIESEC e até chegamos a sair com eles! Somos todos jovens trabalhadores, por isso compreendemo-nos e isso ajuda-nos a criar mais relações.

G. – Imagina que ias embora de Portugal já amanhã. Qual seria a única coisa que não poderias deixar de fazer antes de saíres do país?

G. C. – Surfar! Quero muito surfar, nunca o fiz! E aqui tenho essa oportunidade, não a posso deixar escapar.

G. – Se pudesses descrever esta experiência em apenas uma palavra, qual seria?

G. C. – Devastante [responde em italiano]. Em português, significa “devastador”, mas não é isso que quero dizer [risos]. Em Itália é uma expressão bastante utilizada quando queremos dizer que algo é impressionante ou inacreditável. Esta experiência está a ser extraordinária, mas também bonita. Lisboa é uma cidade cheia de cor, tal como Veneza. As pessoas são brilhantes. Em termos económicos, Portugal pode ser “menos” que Itália, pode estar menos avançado. Nós produzimos muitos produtos de grande qualidade em Itália. Mas, por outro lado, vocês são mais avançados na maneira de pensar, fazem menos julgamentos e aceitam os outros tal como eles são. Questo è stato devastante (isto foi incrível).

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