Estamos em pleno centro de Braga, mais precisamente na praça Conde de Agrolongo. Por quem cá passa, seja de carro ou a pé, sabe que há um edifício que se destaca pela sua dimensão “gigantesca” e pela sua estética criativa. O gnration. Aliás, é aqui que este espaço, pelo menos enquanto edifício cultural, permanece há cerca de oito anos.

Idealizado durante o ano em que a cidade bracarense foi Capital Europeia da Juventude, em 2012, o gnration assume-se, nos dias de hoje, como um espaço de criação, performance e exposição no domínio da música contemporânea e da relação entre arte e tecnologia. No entanto, nem toda a sua história foi assim tão colorida.

A verdade é que este espaço já foi um antigo edifício, frio e sem cor, da GNR, daí o seu nome atual. Reconstruído em 2013, nas palavras de Luís Fernandes, diretor artístico do espaço, desde 2014, o gnration nasceu de uma “vontade natural da cidade de Braga expandir a sua oferta cultural”.

Durante o verão, o pátio exterior recebe os ciclos Julho é de Jazz e o Cinema no Pátio

Mas não se deixem enganar…. Esta não é uma sala de espetáculos tradicional. Apesar da sua recente história, poderíamos até afirmar que o gnration representa vários espaços. Em primeiro lugar, integra, no seu seio, uma incubadora de empresas, a Startup Braga. Em segundo lugar, possui um perfil multidisciplinar, já que simultaneamente é uma sala de concertos, um espaço de apoio à criação artística, uma galeria de arte e um lugar de lazer e entretenimento. “Somos um híbrido entre diferentes contextos e tipologias que normalmente associamos a estruturas culturais”, afirma Luís Fernandes.

Concertos, cinema ou conversas são algumas das atividades acolhidas na Blackbox, uma sala de espetáculos com cariz multifuncional.

Analisando, agora, de uma forma particular a sua programação, se numa fase inicial o gnration aliava à sua programação cultural um conjunto de programas de capacitação para a juventude, progressivamente este padrão foi-se alterando. Atualmente, é uma estrutura dedicada exclusivamente a um programa cultural assente na criação contemporânea nos segmentos da música e da relação entre arte e tecnologia. Particularizando, e de acordo com o seu site, integram este programa conteúdos de cariz expositivo, um programa regular de concertos, múltiplas atividades de serviço educativo e o apoio sistemático à criação de novos conteúdos artísticos.

“The Invention of Sense”, do artista visual Marcel Weber, na galeria INL, um dos dois espaços onde o gnration apresenta um programa de exposições e instalações

Para o diretor artístico, a justificação da aposta neste tipo de oferta é simples: “Ao focarmos a nossa programação nos domínios da música e da arte e tecnologia, estamos a posicionar-nos de forma muito particular no contexto do panorama cultural nacional. Procuramos também ser audazes nas propostas programáticas, dando voz a artistas emergentes e a figuras consagradas que, por vezes, escapam ao olhar do público geral. Tudo isso contribui para uma distinção identitária.”

Outro motivo recai sobre o público alvo. Como a oferta do gnration é diversificada “conseguimos chegar a vários tipos de públicos. Aliás, sentimos uma tendência de evolução positiva até à chegada da pandemia”, completa.

A saxofonista britânica Nubya Garcia em concerto na edição de 2019 do ciclo Julho é de Jazz

Online: Um investimento futuro do gnration

Com a chegada da covid-19, a Portugal, o online parece ter sido a solução encontrada pelo gnration para sobreviver a estes dias de incerteza. De acordo com o diretor artístico, os dois confinamentos, e, por consequência, a aposta no virtual permitiram “aproveitar para aumentar o apoio ao desenvolvimento de novos trabalhos.” Em resposta à pandemia, entre março e agosto de 2020, o espaço cultural apoiou 16 novas criações.

“Somos uma estrutura de criação, não só de acolhimento, e nesse sentido a principal ação que fizemos, em março, foi de forma significativa aumentar esse tipo de programas. O online é algo em que queremos continuar a investir no futuro”, explica.

Face a isto, surgiu, ainda, um novo projeto de criação apelidado de “Cultura em Casa”. Um espaço virtual de recuperação de conteúdos programáticos como conversas, documentários e playlists por artistas que pisaram, anteriormente, o “palco” do gnration.

Na galeria INL, o gnration dá a conhecer trabalhos artísticos que resultam do Scale Travels, programa de criação que alia arte e nanotecnologia e desenvolvido em parceria com o INL – Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia

Independentemente do investimento no online a realidade é que esta estrutura veio para ficar. Ainda assim, nas palavras de Luís Fernandes “está muito por fazer. Somos uma estrutura muito jovem”. Num futuro próximo fica a ânsia de crescer e de envolver cada vez mais a comunidade local. Até lá resta usufruir da sua reabertura.


* O artigo surge a propósito da parceria entre o Gerador e a Braga´27 (Capital Europeia da Cultura).


Texto de Isabel Marques
Fotografia de ©Carvalho Araújo