Cláudio Garrudo é fotógrafo profissional, mas, a par da fotografia, desenvolve muitas outras atividades paralelas, sobretudo relacionadas com produção cultural. Membro da direção da associação Isto não é um cachimbo, faz parte da organização do Bairro das Artes e do Mapa das Artes. É também diretor editorial da Série Ph. da Imprensa Nacional, e, desde 2008, representado pela Galeria das Salgadeiras.

Foi neste mesmo espaço que decorreu, no passado dia 24, a inauguração do seu novo trabalho, “Trinus”, uma série fotográfica que nasceu de uma viagem de dois dias em alto mar, a bordo de um cargueiro. Juntamente com o lançamento da exposição, o autor lançou o livro desta série fotográfica, que inclui um texto inédito do escritor Gonçalo M. Tavares, bem como uma edição especial.

E foi completamente envolto por mar, imortalizado pelo artista e agora colado às paredes, que o Gerador se sentou à conversa com o Cláudio Garrudo no espaço da exposição, para ficar a conhecer mais sobre a sua obra e este seu novo trabalho. “Trinus” permanece em exposição na Galeria das Salgadeiras até 19 de janeiro.

Gerador – Como é que surgiu o projeto “Trinus”?

Cláudio Garrudo – Apresentei este projeto para poder ir num cargueiro em alto mar, com certo isolamento. A ideia foi como se fizesse uma residência artística em alto mar, em isolamento, com essa reclusão necessária para ter tempo para a contemplação e a reflexão, e poder estar rodeado de mar a 360 graus. Estive no cargueiro dois dias e duas noites. Lá, passava o dia a filmar, a fotografar, a tomar notas, a escrever e a pesquisar. A reclusão foi essencial para desenvolver este trabalho. A ideia foi estar este tempo em alto mar para poder criar um trabalho à volta da viagem, seja ela física, metafórica, sentimental. Queria trabalhar esse lado da viagem, de caminho, de percurso. A exposição é acompanhada por um poema do Miguel Torga, chamado “Viagem”, que acaba precisamente a dizer que, em qualquer aventura, o que importa é partir, não é chegar. A mim, interessa-me também explorar todo o caminho, toda essa dimensão de viagem que não tem a ver com sair do ponto A ao ponto B, mas que é mesmo uma ideia de partida em que a pessoa desconhece aquilo que vai encontrar no caminho. Trata-se da atitude de te colocares fora da tua zona de conforto para te poderes questionar e desenvolver o teu trabalho.

G. – Porquê uma viagem no mar e não uma viagem em terra?

C.G. – Também já fiz esse tipo de trabalho em terra. A série “Quinteto”, com um texto do Eduardo Lourenço, é toda feita em terra, com uma dimensão de arte e Natureza muito forte. Aqui, precisei de outro espaço e de outro tempo, e acho que o mar foi fundamental para isso. É engraçado que este trabalho também podia, de certa forma, ter sido feito no deserto, e o Gonçalo M. Tavares, que escreveu um texto inédito para este mesmo trabalho, a certa altura fala sobre isto mesmo, esta ideia de isolamento que é preciso ter, quer no deserto, quer em alto mar.

G. – De certa forma, procuras o isolamento e queres fugir à rotina. Mas não precisas também de ir encontrando diferenças ao longo deste percurso monótono e sempre igual?

C.G. – Na realidade, as imagens têm uma coerência muito forte, e todas elas permitem um ato de ilusão, fruto de uma dupla exposição que eu produzi no ato de fotografar. Com exceção da última imagem que surge na exposição, a única em que existe de facto um elemento físico. Em todas as outras, mesmo as que aparentam possuir uma linha de terra, essa linha é ilusória, criada pela dupla exposição na fotografia.

G. – O que é a dupla exposição?

C.G. – São dois disparos consecutivos que se sobrepõem. Tecnicamente, foi assim que a exposição foi feita. Eu nunca faço pós-produção nas imagens. Eu não critico quem faça, mas tem a ver com o meu processo de trabalho. Faço muitos esquemas, ando sempre com caderninhos, estou sempre a tomar notas e a fazer esboços e a escrever, e o meu processo de fotografar é um pouco a antítese do instante decisivo. Eu quando vou fotografar já tenho bastante presente aquilo que quero, fruto desses esquemas que vou fazendo ao longo do processo. O momento de fotografar é já um momento muito final em todo o processo. Claro que depois tenho de deixar uma parte para o acaso.

G. – E corre sempre bem?

C.G. – Claro que não corre sempre bem (risos). Há muitas coisas que vão mudando ao longo do processo, por isso é que ele é tão interessante, gosto muito de o explorar. E claro, se depois de definir um conjunto de coisas que me interessavam explorar, ideias, conceitos, e ao chegar ao fim, quando os materializo, vejo que não são aquilo de que estava à espera, aí abandono essa ideia, mas felizmente isso acontece poucas vezes.

Sala inicial da exposição “Trinus”, de Cláudio Garrudo, na Galeria das Salgadeiras

G. – E que variedade tão grande de conceitos é essa que há para explorar na imensidão repetida do mar?

C.G. – Bem, podíamos estar aqui horas a falar sobre isso. Sabemos que há 12 milhões de toneladas de plástico que são atiradas para os oceanos por ano, podemos falar sobre o facto de no Mediterrâneo terem morrido 34.000 emigrantes desde 1993 a tentar atravessá-lo ou até já em terra. Portanto, podemos começar a falar do mar e criar ideias e estar aqui horas. Eu acho que as imagens transmitem uma certa paz, mas, sempre que falo delas, acho que é importante trabalhar outras coisas que são paralelas. Eu fui num cargueiro para alto mar e as imagens transmitem-me muita paz, mas essa paz pode ser só aparente.

G. – Ou seja, mesmo que a mensagem não esteja à vista, ela existe e está de facto presente por detrás de toda esta ligação ao mar?

C.G. – Eu acho que a arte é essa força de questionar. Se não tiveres nada para dizer, mais vale não fazer nada. Há muitas leituras que se podem explorar, e eu, sempre que falo de trabalho e da minhas exposições, tento mostrar todos esses lados. A dupla exposição pareceu-me a técnica adequada para criar nessas imagens a ilusão de terra. E a dupla exposição, ao desalinhar ligeiramente o horizonte, cria em algumas imagens essa linha de terra que não existe.

G. – Porquê a vontade de criar a ilusão de terra?

C.G. – Há sempre aquela ideia de chegada. Se estás em alto mar, de chegar a bom porto, de terra, e eu quis, com essa ilusão, passar uma sensação que era comum a quem navegava no mar, que era avistar terra para poder ter esse ponto de chegada. E aqui é um ponto de chegada que nunca se atinge. Ou seja, aquelas imagens só têm um ponto de chegada aparente, portanto é um caminho permanente, essa ideia de viagem permanente e não de chegada.

G. – Achas que cada foto, cada elemento, tem uma força distintiva relativamente às outras?

C.G. – Eu procuro nelas uma grande coerência, com exceção desta última imagem, dentro do barco, que eu considero que é a realidade, todas as outras para mim são a ilusão. Eu procuro que sejam o mais coerentes possível. Interessa-me esse lado de continuidade. É mais difícil criar essa continuidade e coerência, mas, mesmo sendo mais difícil, para mim justifica-se, pelo meu trabalho. É o trabalho quase ao detalhe, mudar apenas o tom de azul porque estou a fotografar em horas diferentes, a questão da luz. Todas as imagens de noite ficaram de fora da exposição, não me identifiquei tanto com elas. É normal eu começar a fotografar antes de o sol nascer até depois de o sol se por e há imagens que ficam de lado.

Cláudio, à esquerda, junto aos trabalhos pertencentes à sua exposição “Trinus”

G. – Tens optado por apresentar, em todos os teus trabalhos, um texto de autor original a acompanhar. Porquê?

C.G. – Eu gosto sempre que haja estes cruzamentos interdisciplinares, seja com a poesia, a literatura, ou outros, e tento inclusivamente fazer referências à música, à dança, ou outras áreas. Eu pessoalmente, compro muitos fotolivros, que são só imagens, mas nos meus próprios, gosto de ter esse lado do texto. E tento encontrar sempre uma pessoa que conheça o meu trabalho e que o possa explorar do ponto de vista de uma narrativa que não seja de imagem, mas de texto.

G. – Não tiveste receio de que o Gonçalo M. Tavares, pudesse ter lido o teu trabalho de uma maneira diferente da tua?

C.G. – Seria a leitura dele. Cada um de nós vê estas imagens com o background que tem, com o que foi vivendo e experienciando. Eu vou olhar para esta imagem e ver uma coisa, tu vais ver outra. Umas tocar-me-ão mais a mim, outras tocar-te-ão mais a ti, isso é normal. Quando alguém escreve sobre um trabalho, já é um outro trabalho.

G. – E dizes que “Trinus” também é amor.

C.G. – Eu gosto sempre que fique uma ponta solta nos meus trabalhos. Que cada pessoa olhe e leia aquilo criando a sua própria narrativa. Portanto esta viagem, “Trinus”, é uma viagem que pode ser simbólica, de certa forma, e o amor é uma bela viagem.

G. – E por que é que gostas de deixar pontas soltas?

C.G. – Acho que é uma parte que me dá um gozo enorme, saber que aquilo não fica fechado ali, apesar de estar confinado a um espaço físico, a uma moldura. É bom saber que depois as fotografias são projetadas em quem as vê e cada um cria ou pode criar a sua própria história.

Texto e fotografias de Carolina Gaspar

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