Greta Thunberg continua imparável apesar da pandemia que ultimamente tem dominado o nosso quotidiano. Basta digitar o nome num qualquer motor de busca, e o ecrã fica repleto de imagens desta singular rapariga sueca, associadas às dezenas de intervenções, depoimentos, entrevistas, discursos, tomadas de posição que divulga e profere, algumas perante as assembleias mais “notáveis” do planeta. Entre os organismos que a acolheram estão as Nações Unidas, a Comunidade Europeia, o Parlamento britânico e a Assembleia Nacional francesa, o Congresso americano, o Fórum Económico Mundial (Davos), etc., etc., etc.

Capa da revista Time, person of the year 2019, a pequena ativista tem acumulado prémios e homenagens. Distinguida, entre outros, com o Prémio Laudati Si do Vaticano, o Prémio Gulbenkian para a Humanidade, o título de Embaixatriz da Consciência da Amnistia Internacional e, segundo a Forbes, uma das 100 Mulheres mais Poderosas do mundo, Greta Thunberg conta já com duas vezes nomeações para o Prémio Nobel da Paz.

Os fóruns científicos, por seu lado, saúdam-na como o seu melhor arauto em matéria de alterações climáticas e crise ambiental. Sócia honorária da Sociedade de Geografia da Escócia, doutora honoris causa da Universidade de Mons e uma das “10 pessoas que importam” para a revista Nature (2019), o nome de Greta Thunberg transitou até para designações de espécies animais recém-descobertas. 

A epopeia que a conduziu, fisicamente ou em modo virtual, da sua Estocolmo natal até aos 4 cantos do mundo que quer por força salvar, começou no verão de 2018. Iniciou então uma greve às aulas até às eleições gerais suecas, exigindo respostas políticas concretas às alterações climáticas. A partir daí passou a fazer greve às aulas todas as sextas-feiras, permanecendo só, frente ao parlamento sueco, com um cartaz onde apenas se lia: “Greve escolar pelo clima”. 

A atenção dos media disparou a sua mensagem para toda a parte e desde aí as audiências de Greta seguiram em crescendo. 

As campanhas que lançou - Fridays for climate, Our house is on fire, #SOSAmazonia - falam para o mundo global em que vivemos e chamam a atenção de todos para um problema que é de todos. Os cerca de 5,4 milhões de seguidores de Greta Thunberg no Twitter, ou os 10,6 milhões do Instagram e os 3,3 milhões do Facebook, assim como o sucesso das greves estudantis e das manifestações globais pró-Terra do último biénio, comprovam que nem todos somos cegos, surdos e mudos.  

O fenómeno Greta Thurnberg resultou de um desafio lançado à sociedade contemporânea por uma teenager perplexa com o silêncio e a inação dos políticos, dos governos e das pessoas em geral perante a intensificação do aquecimento global e do ritmo de extinção das espécies que connosco deveriam poder partilhar o planeta. 

Segundo ela própria conta, a consciencialização da gravíssima crise ambiental em curso atingiu-a muito precocemente, aos 9 anos, desencadeando uma crise pessoal que a marcaria para sempre. Seguiram-se diagnósticos de depressão infantil, de síndrome de Asperger ou de autismo, a que a medicina recorreu para interpretar a profundíssima indignação de uma criança que não conseguia compreender, nem aceitar, a passividade dos adultos perante o desastre ecológico que se desenrolava à vista de todos. 

Nos nossos melhores momentos de consciência ambiental, todos somos autistas, todos somos Asperger.   

Aos 18 anos, feitos em janeiro último, Greta Thunberg viu a sua efígie ser queimada publicamente, durante manifestações de opositores ao movimento de protesto dos pequenos agricultores indianos contra as medidas de “modernização” da sua atividade, avançadas pelo governo. As imagens daquele rosto infantil envolto pelas chamas, erguidas na rua pela multidão, causam desconforto e apreensão. 

É inevitável a analogia com outra heroína de pouca idade cuja força, mais simbólica do que efetiva, fez mudar a sorte da Guerra dos Cem Anos, abrindo caminho à definição da atual cartografia da Europa: Joana d’Arc. Esta outra jovem ativista teria uns 17 anos quando em 1429, por sua intervenção direta, Carlos VII foi por fim solenemente coroado rei de França. Joana d’Arc acabaria sacrificada na fogueira em 1431, por obra do partido inglês e borguinhão, acusada de heresia, práticas de adivinhação, blasfémia… Outros tempos, não tão longínquos assim, se tivermos em conta algumas das reações negativas que o ativismo ambiental de Greta Thunberg desencadeou.  

Há quem pense que o fenómeno Greta é manipulado, considerando toda a equipa de conselheiros, financeiros, copywriters que necessariamente a apoiam. Juízos à parte, importa sobretudo sublinhar que, em termos de consciencialização global, o fenómeno Greta foi claramente mais eficaz do que a maioria das campanhas antes realizadas, em particular junto das camadas mais jovens. 

Existe sem dúvida um “efeito Greta” detetável em alguns sinais de mudança das mentalidades e dos comportamentos ao nível individual, corporativo e governativo. 

Aconteça o que acontecer, importa reconhecer o valor de uma miúda que, aos 15 anos, teve não só a perceção clara da urgência do problema ambiental que ainda hoje falta a grande parte da classe política e a uma parcela importante da população, como também a capacidade de encarar, enfrentar e abalar individualidades, lobbies e poderes instalados. São razões de sobra para nos deixarmos inspirar plenamente pela clarividência ambiental e pela generosidade de Greta Thunberg.

-Sobre Maria Helena Barreiros-

Maria Helena Barreiros, historiadora de arte e mestre em Conservação do Património. Integra o Pelouro do Urbanismo da CM Lisboa e exerceu funções de coordenação na ex-Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Foi docente de história da arquitetura na Universidade Autónoma de Lisboa, entre outras. Autora de diversos trabalhos publicados no âmbito da questão patrimonial e da história da arquitetura e do urbanismo, prepara tese de doutoramento sobre a habitação pré-moderna em Portugal. Fez parte da direção da APHA - Associação Portuguesa de Historiadores da Arte, é membro da EAHN - European Architectural History Network e da Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável.

Texto de Maria Helena Barreiros, com Ana serrão e Joana Guerreiro Silva| Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável
Fotografias cedidas por Maria Helena Barreiros

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O Sobressalto é o projeto do Gerador e da ZERO que une a cultura e o ambiente, criando ferramentas para a transição verde e promovendo reflexões e debates junto da comunidade cultural. Um dos seus eixos é a criação de conteúdos jornalísticos, como este, dedicados à sustentabilidade nos meios do Gerador. Sabe mais aqui.