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Greve climática estudantil: “Porque é que é tão inesperado que interrompamos uma aula com um tema que trata do nosso futuro, como a crise climática?”

Os ativistas do clima querem ocupar as escolas e universidades, este outono, para exigir o fim da indústria fóssil. Matilde Ventura e Teresa Núncia estão entre os estudantes que acreditam que está na hora de mudar e estão dispostos a criar perturbações para que isso aconteça.

Fotografia de Markus Spiske via Unplash

Matilde Ventura tem 18 anos, Teresa Núncio, 21, e estão entre as estudantes que querem ocupar as escolas e universidades, este outono, para exigir mudanças em prol do planeta. O movimento Fim ao fóssil: ocupa promete criar perturbações para sensibilizar para a urgência da questão em mãos: a crise climática.

Em entrevista por Zoom, a estudante do ensino secundário e a estudante universitária, respetivamente, que fazem parte da greve climática estudantil em Portugal, falam sobre como as questões climáticas entraram nas suas vidas, o poder da ação coletiva, a inação dos Governos de todo o mundo e as ações que vêm aí em nome da luta contra as alterações climáticas.

Gerador (G.) – Quando é que as questões climáticas começaram a despertar o vosso interesse?

Teresa Núncio (T. N.) – Na altura, estava a estudar no [Instituto Superior Técnico] e fui assistir uma palestra do Climáximo. Achei muito surpreendente haver ali mensagens que eram completamente novas para mim. Por exemplo, a ação ser coletiva e desresponsabilizarem o indivíduo. Falaram em ação em massa e em desobediência civil, e nos benefícios que isso tem. Abordaram também a gravidade da situação com um realismo refrescante. Na altura, foi muito inovador. Vi a palestra e, depois, entrámos com pandemia. Por isso, não me envolvi logo diretamente. Simpatizava com o movimento e passei a acompanhar mais, mas não tinha noção do que se passava por detrás do cortinado. Foi a última greve que me envolveu. Foi das mais importantes para mim, em particular porque tive oportunidade de falar com certas pessoas. As pessoas ficaram com o meu contacto e, passados dois dias, fui contactada, porque havia uma nova ação e muito que fazer. Foi uma coisa muito orgânica. Acho muito refrescante em comparação com outras ofertas que temos na sociedade, porque [estes] são grupos muito horizontais e qualquer pessoa pode participar.

G. – Mas antes do envolvimento ativo, que papel tinham as preocupações com o clima na vossa vida?

T. N. – Já estavam presentes, mas de uma forma que dava para ignorar. Via-se um documentário e a seguir ia-se almoçar. Houve uma mudança de ritmo.

G. – Matilde, a tua história foi semelhante?

Matilde Ventura (M. V.) – A minha entrada [no movimento] teve também muito que ver com o Climáximo. Já ia às greves de 2019. Fazia greve e faltava às aulas, mas nunca me tinha envolvido na preparação de uma. Este ano, em abril, houve a caravana pela justiça climática e muita gente da greve climática também estava lá. Participei na caravana sem estar em nenhuma organização e falei com a Matilde Alvim, que me perguntou se eu estava interessada em participar.

G. – Em 2019, já participavas nas greves. Mas, antes disso, que perspetiva tinhas sobre as questões climáticas?

M. V. – Se calhar, estava consciente, mas era algo que não era tão presente. Havia uma consciência e um sentido de urgência e de necessidade de agir, mas não estava organizada. Depois da caravana, percebi que era o momento [para me juntar ao movimento]. 

G. – Com o arranque do ano letivo, estão a promover agora o Fim ao fóssil: ocupa. O que está previsto nesse âmbito?

T. N. – O ocupa é uma ação direta em função das nossas reivindicações. Neste caso, o fim da indústria fóssil. Vamos cobrir as ruas com cartazes, vamos usar flyers [panfletos] e vamos promover palestras. Além disso, o ocupa é um escalonamento da ação. Temos de construir o movimento. Temos de nos organizar em cada escola. Portanto, se queremos uma coisa disruptiva, temos de andar até esse ponto, com eventos para a comunidade no geral, palestras nas faculdades, um ambiente de disrupção nas faculdades, seja nas cantinas ou nas salas de aulas. Não [podemos] permitir que as pessoas ignorem isso. O ocupa visa permitir que não sejamos ignorados e, para isso, ocupamos os nossos espaços. Não é só um cartaz que está na rua. Também pode ser divulgar o ocupa em sítios inesperados. Porque é que é tão inesperado que interrompamos uma aula com um tema que trata do nosso futuro muito mais do que se calhar essa aula? 

M. V. – A partir de 1 novembro, vamos ter uma semana de escalonamento. Vão ser promovidas várias ações muito concentradas. 

G. – Qual costuma ser a reação dos outros estudantes quando levantam estas questões? Essa sensibilidade para as questões climáticas já está generalizada?

M. V. – Na nossa geração, é unânime a opinião de que estamos perante uma crise e de que nem nosso Governo, nem nenhum Governo do mundo estão a ser competentes o suficiente para sequer fazer um plano para atenuar ou acabar com ela. Ainda assim, não sinto que toda a gente perceba o sentido de urgência. Acho que a maior parte das pessoas não percebe que se pode organizar e reivindicar. Estamos sempre à espera de alguém que já percebemos que não virá. Temos de ser nós.

T. N. – Estive numa reunião na reitoria da Universidade Nova de Lisboa. Era um fórum de estudantes e levantei-me e pedi para falar. Falei durante cinco minutos sobre [o aquecimento global], o que nos espera, o plano que temos e porque não faz sentido não romper o sistema. Estava nervosa, mas uma pessoa chega ali, e ninguém pode dizer que não tem legitimidade [para falar]. Viu-se uma mudança na reunião. No fim da reunião, já estava toda a gente a falar sobre a gravidade [da crise climática]. A maioria das pessoas está numa inação inconsciente. Não é bem voluntária. É fácil cair na normalidade, quando não temos um plano. Quando rompemos o silêncio, as pessoas ouvem.

G. – O que falta para mais pessoas tomarem consciência da gravidade da situação em causa?

M. V. – É sempre difícil imaginarmos um modo de vida diferente do nosso. Neste momento, não há hipótese. Não podemos esperar que toda a gente se ilumine. A inação será o fim desta suposta normalidade que estamos a viver. Não há outra hipótese que não agirmos. Não sei honestamente o que falta para as pessoas se organizarem e exigirem. 

T. N. – Acho que falta quase tudo. Há um total desencontro entre aquilo que está a acontecer e aquilo de que se fala e é normal. O que falta é o silêncio não ser considerado uma resposta normal. O que falta é ser considerado absurdo ir às aulas como se não se estivesse a passar nada. Isto tem de se tornar absurdo para toda a gente. Isto tem de estar a ser resolvido como se fosse a maior emergência dos nossos dias. Como na pandemia tivemos toda a sociedade e a comunicação social a orbitar em torno [da covid-19], neste momento deveríamos estar todos a orbitar em torno da crise climática. Para algumas pessoas, ainda é difícil perceber porque é que achamos que vale a pena substituir o tema de uma aula [pela crise climática]. É uma questão de criar disrupção.

G. – Que papel podem ter as redes sociais na promoção dessa sensibilização?

M. V. – Neste momento, são essenciais. São o motor das campanhas. Mas não bastam, porque sabemos que a maior parte das coisas que estão nas redes sociais, passado algum tempo, caem no esquecimento. Penso que as pessoas estão sensibilizadas, mas não estão organizadas, e esse é um problema maior.

T. N. – Às vezes, faz-se a crítica das redes sociais e da comunicação social dessensibilizarem as pessoas. Acho que isso é um problema sério. As pessoas não podem ficar cansadas da sustentabilidade e não podem receber uma mensagem que não tem nada que ver com a realidade. Não recebemos nada [das redes sociais e da comunicação social] que transforme a ansiedade e o medo que temos num plano efetivo. Por um lado, sente-se que o mundo está a acabar, mas, por outro lado, dizem que temos de mudar para copos reutilizáveis. 

G. – Ou seja, é preciso ir além da divulgação dos pequenos gestos a favor do planeta e explicar o poder da ação coletiva. 

T. N. – É compreender e transmitir o problema como ele é. O problema é sistémico. Transmiti-lo de forma correta não pode ser transmitir mudanças de comportamento. Tem de se transmitir as soluções que ele tem.

G. – Se pudessem ser líderes de um país por um ano, que país escolheriam liderar e que mudanças fariam em prol da luta climática?

T. N. – Não sou especialista em nenhuma das áreas que seriam necessárias para tomar o nível de decisões que acho que a crise climática precisa. Temos políticos e órgãos de decisão e é a eles que temos de exigir [as mudanças]. A tecnologia e a infraestrutura existem, mas as coisas não estão a ser feitas. Há uma transição energética a fazer.

G. – Certo, mas se trocasses de lugar com esses órgãos aos quais dizes que é preciso colocar reivindicações, que ações tomarias?

T. N. – Se tivesse algum poder de decisão, gostaria de o transferir para quem tem menos voz no assunto e devia ter mais voz. Por exemplo, os países do sul global estão a sofrer em grande escala as consequências de uma crise que não criaram. Muitas vezes, se essas vozes fossem incluídas na solução, chegaríamos a algo muito melhor do que aquilo a que estamos a chegar. 

M. V. – Concordo. Escolheria um país do norte global, porque são esses países os responsáveis pela maior parte das emissões. Passaria o poder para as comunidades locais, que já estão a sofrer os efeitos da crise climática. Vemos isso nas cheias do Paquistão e as ondas de calor na Índia.

G. – A invasão da Ucrânia pela Rússia tem agravado a crise energética. Acreditam que, desta vez, se fará uma aposta mais musculada na transição energética?
M. V. – O que temos visto ao longo dos anos tem sido uma expansão energética e não uma transição energética. A aposta nos combustíveis fósseis continua e, paralelamente, tem havido uma expansão das energias verdes. A nossa economia é liderada por barões da indústria fóssil. Não tenho muita esperança de que seja feita realmente uma transição, quando são essas pessoas que lucram com a continuidade do statu quo. A guerra na Ucrânia mostra a necessidade de acabarmos com a indústria fóssil, que é baseada na exploração de pessoas e recursos.

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