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Quarta-feira, 10 Junho 2020

Guilherme Furtado: “Na mudança de país, deixo um Gui numa fronteira e levo outro”

Antes de imaginar que uma pandemia ia mudar o rumo de um novo caminho pelo incerto, com muitos destinos ainda por explorar, Guilherme Furtado lançou-se à aventura para conheceres outros lugares — mas sobretudo a si mesmo. Inspirado na história de Alex Supertramp, o norte-americano que deixou a sua vida embrulhada no sistema capitalista e começou uma viagem até ao Alaska apenas com o suficiente para sobreviver, Guilherme procurou-se nas paragens que foi fazendo pelo desconhecido. Com uma máquina fotográfica e um diário de viagem, registou essa metamorfose que ainda hoje, em Portugal, continua a processar-se. 

A vontade de de romper os limites da Península Ibérica foi o mote da viagem por quatro continentes ao longo de três anos, que foi sendo partilhada através da conta de Instagram Red Tour. No período de isolamento social, em que se viu obrigado a voltar da Austrália para Portugal, pegou nas memórias em papel e regressou ao lugar que, de certa forma, definiu um marco na viagem: Marrocos. Juntou a experiência em Design, área em que se licenciou, com os registos escritos e fotográficos e desenvolveu “Outside is Home”, um livro que está disponível para download gratuitamente e que convida quem lê a entrar nesta viagem de auto-conhecimento. 

Se em “Viagem a Itália” Goethe procurou o melhor da Geologia e Botânica, acabando por se encontrar com uma nova parte de si mesmo em cada cidade italiana que visitava — influenciado pelas suas paisagens, gentes e encontros —, em “Outside is Home” Guilherme Furtado procurou um furacão em que pudesse entrar e acabou por ir juntando as peças da estabilidade que encontradas por quem se olha a si mesmo. “Na mudança de país, deixo um Gui numa fronteira e levo outro”, garante-nos.

Depois de partilhar “Outside Is Home”, Guilherme conversou com o Gerador sobre a importância de sair da bolha e viajar além do ecrã. 

Gerador (G.) – A reflexão inicial do teu livro remete para uma procura por algo mais do que aquilo que conseguias atingir através de um ecrã. O que é que te levou a começar esta viagem pelo mundo?
Guilherme Furtado (G.F). – Antes de começar este projecto “Red Tour”, sentia-me preso, desfocado, pequeno, sentia uma vontade gigante de sair e entrar num furacão… (risos) É engraçado pensar que na altura nunca tinha tido a possibilidade de me aventurar para além das fronteiras com Espanha, daí também toda essa vontade de sair logo que possível. Queria mais experiências, e não estava pronto para “estagnar” em busca de uma carreira. Queria mais significado para o meu trabalho e para a minha vida, mais do que meras inspirações retiradas da internet. Cada vez temos mais acesso a tudo, mas cada vez estamos mais hipnotizados, acríticos, dependentes do que nos é apresentado…

A diversão da vida vem do encontro com novas experiências e não há maior prazer do que um horizonte sempre em mudança. Temos de perder a inclinação para uma vida monótona, de segurança, e procurar a “confusão” que no inicio é avassaladora mas rapidamente nos mostra as verdadeiras cores ao superarmos esses obstáculos. Encontramos significado e ficamos viciados.

G. – Nesse mesmo texto inicial dizes algo como “Outside is Home”. O que há de íntimo no desconhecido?

G.F. – Neste momento estou quase que numa relação amorosa com o desconhecido (risos). Viajar torna-se um vício – não é o mero cruzar de países que me interessa, até porque normalmente fico vários meses em cada país, mas absorver o mais possível. Também há algo mágico em encontrarmos problemas e os superarmos.

A presença de Gui em “Outside is Home” convida a que entremos numa viagem pela memória consigo

G. – Em que medida é que Marrocos foi tão marcante para ti que decidiste que querias eternizar essa parte da tua viagem num livro, para posteriormente o partilhares com outras pessoas? Foste fotografando e escrevendo o diário de viagem já com essa intenção, ou as peças juntaram-se mais tarde?
G.F. – Este estado de procurar o desconforto, de que falava anteriormente, veio ganhando coragem, e bateu à porta, aos pontapés, em Marrocos. Como vão poder ler mais detalhadamente no livro, logo no primeiro dia em Marrakech apanhei a grande chapada de choque cultural de que estava a precisar e me fez acordar. Vivemos todos os dias na nossa bolha, no nosso ritmo mecanizado rotineiro e, naqueles primeiros dias, aprendi a comer tudo o que serviam, e os detalhes ficaram focados. Acho que as viagens só nos ajudam a deixar de viver tão quadrados!…

A ideia para este livro surgiu dessa adaptação a uma nova realidade. Juntando esse tema ao deslumbramento que sinto por todo o visual de Marrocos, achei piada usar o design para retratar um sentimento e um marco.

A escrita e a fotografia juntaram-se espontaneamente: mantenho um diário de viagem e tento usar a fotografia para retratar alguns dos sentimentos escritos.

G. – Ao longo das páginas vamos viajando um pouco contigo, também — até porque tanto pela escrita na primeira pessoa, como pela tua própria representação em algumas fotografias, estás lá. Quando chegamos ao fim encontramos um convite para que façamos as nossas próprias viagens. Sentes que é urgente pensar em sair da bolha? O que ganhamos todos com isso?
G.F. – Ui! Isso é uma pergunta incrível, ficava aqui o dia inteiro a falar sobre os benefícios! Aprendemos a menosprezar problemas, a confiar nas nossas capacidades e ficamos frente a frente com as nossas qualidades e defeitos. Mais do que viajar em férias, convido a saírem da zona de conforto e encontrarem problemas, quanto maiores melhor. Problemas geram oportunidades para ver uma situação de outra perspectiva. Entender as pessoas e o mundo sob novas e mais fundamentadas perspectivas. Adoro a frase que diz algo do género: Viaja o mais longe possível, e encontra-te a ti. Para mim acho que é o fruto imprescindível para uma vida com significado

G. – Acabas por juntar a fotografia e o design num livro que, de alguma forma, é muito teu. Sentes que no teu campo de trabalho faz sentido pensar sempre o design e a fotografia em conjunto?
G.F. – Nunca consegui ter uma ideia muito singular do que gosto de fazer ou que ferramentas utilizar. Mais do que design, multimédia ou outra coisa qualquer, gosto de criar mundos, comunicar ideias e gerar sentimentos.

Em cerca de 100 páginas, Gui narra uma viagem que mudou o seu olhar sobre o mundo

G. – Agora que estás de novo em Portugal e, de certa forma confinado, podes olhar para revistar as viagens que fizeste através dos registos visuais e da tua memória, consegues notar o que em ti mudou em cada paragem?
G.F. – Porra para a Covid-19 e obrigado Suíça pelo voo de repatriamento! (risos) Mas claro que sim, é engraçado que consigo até pôr por tópicos o que cada país representa e mudou em mim, sentindo até que, na mudança de país, deixo um Gui numa fronteira e levo outro (risos). Mesmo sem grandes choques culturais, ao nos depararmos com os hábitos de cada povo, como vivem, como fazem, as personalidades que conhecemos, até como se sai à noite, trazemos sempre parte desse país, acabando sempre por crescer e evoluir. A despedida final é o que mais custa, mas o novo confronto com o desconhecido vale a pena.

G. – Obrigada por esta partilha, Guilherme.
G.F. – Se me permitires, gostava ainda de acrescentar uma coisa para aqueles que pensam fazer algo do género. Eu sei que à partida não é fácil para muita gente iniciar um projecto semelhante, pois para mim também não o foi. No entanto, quando queremos alguma coisa, encontramos o nosso caminho e só custa o inicio. Vale mais do que a pena! Qualquer dúvida, conselhos e tudo o resto, falem comigo por Instagram em @guifurt. Adorava ouvir de vocês.

Apesar de o livro ser digital, Guilherme fez uma cópia impressa para si

Podes folhear “Outside is Home” e juntar-te a esta viagem, aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografias de ©Guilherme Furtado

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