E se daqui a um ano, de um momento para o outro, ficássemos todos sem internet? Gulliver, a nova peça de Tiago Cadete para crianças e jovens, viaja pelas problemáticas de um mundo sem internet — algumas delas comuns ao mundo com internet —através da história do B, interpretado por Bernardo de Almeida, e da L, por Leonor Cabral: a dupla que quer trazer de novo a net para os dispositivos móveis. Em cena na Culturgest entre os dias 27 e 31 de março, Gulliver tem sessões para escolas e famílias em março e oficinas para jovens dos 6 aos 16 anos marcadas para abril. 

“Ninguém fica fora do mundo digital” e é uma “revolução digital à escala global” são algumas das primeiras frases lançadas para o lado do público por B e L, numa tentativa de contextualizar o nível de importância da internet no ano de 2019. Quando percebem que não a podem utilizar mais (ao que algumas crianças na plateia respondem “e agora?”) decidem criar um ajudante com Inteligência Artificial para reorganizar aquilo que chamam de Big Data. Nem Siri nem Alexa; Gulliver é o nome que o dispositivo sugere e que melhor soa a B e L. 

Numa tentativa de se reconectarem, percebem que só terão a ajuda de Gulliver se lhe contarem a sua história e este conseguir identificar a narrativa como sendo sua. Do reino de Lilliput, onde Gulliver é um gigante no meio de mini homenzinhos que inicialmente lhe cravam lanças cuja sensação é semelhante à de agulhas de acupuntura a serem espetadas no corpo, passando por um mundo virtual onde sente que ninguém o leva a sério porque é pequeno, até a uma viagem através de Emojipatia (sim, uma história lida através de emojis), as aventuras de Gulliver vão pisando terrenos como o feminismo, o pós-colonialismo, a (falta de) auto-estima, e a apropriação cultural, até que finalmente o ajudante de B e L consegue cumprir a missão de salvar a internet. 

Se o papel de Gulliver nas aventuras românticas das suas viagens era consciencializar os leitores do que estava à sua frente e aparentemente não conseguiam ver, o papel deste ajudante de B e L não é muito diferente. “O principal objetivo de um viajante deve ser tornar o homem mais prudente”, ouve-se na peça. 

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De um ensaio com público composto por três turmas diferentes, Tiago Cadete conseguiu retirar reações das crianças que inevitavelmente o ajudam a pensar nas possíveis mudanças que poderá ter (ou não) de fazer até à estreia. “Há coisas que eu acho que são possíveis de mudar” — começa por dizer o encenador — “No caso das crianças é mais pensar nas armadilhas de reação que coloquei. Hoje aconteceram muitas coisas, como na substituição que fizemos numa colagem, com a figura de São Sebastião misturada com o rosto do Nelson Évora, e que adjetivamos como sendo uma pessoa linda. Várias crianças na sala disseram que era feio, e há qualquer coisa que revela uma objetividade de uma xenofobia ou de um conceito de beleza que é tencionada. Não vou pôr a cara do Leonardo Di Caprio em vez da do Nelson Évora; interessa-me que eles se confrontem”. “Se calhar vai haver um colega ao lado ou até a professora que vão discordar. Nós lançamos uma coisa para as crianças, mas há um trabalho que tem sempre de ser feito por toda a gente porque os espetáculos não são auto-explicativos, são acima de tudo interrogações”, remata.

“Esta figura (Gulliver) que é conhecida por quase todas as pessoas, que de alguma forma foi apropriada como um objeto para crianças — por isso a famosa primeira viagem, onde ele é um gigante no meio de pequenos liliputianos, a mais conhecida e adaptada. Então achei que me apetecia pegar no universo dele e tencioná-lo um pouco com este lugar de um navegador, um “descobridor” — isto com muitas aspas — e (pensar) como é que nós conseguíamos ter essa abordagem para as crianças, para os jovens ou para outras faixas etárias”, diz Tiago. 

Foi a pensar numa dramaturgia paralela que criou Gulliver, entre a tensão em paralelismo de um navegador marítimo com um navegador de internet, o “novo viajante da contemporaneidade”. “Interessava-me pôr esta dramaturgia entre o medo das crianças; o meu antigamente era falar a luz, o das crianças de hoje é não existir internet”, conta o encenador. “Eu lembro-me de acordar às 7 da manhã para ver desenhos animados. Existia uma hora, nós não tínhamos uma autonomia; claro que tínhamos o VHS e tudo isso, mas havia qualquer coisa que nos juntava a uma determinada hora num determinado momento, que se dissipou um pouco.”

Para Tiago o teatro pode ter uma dimensão pedagógica e sente que o facto de as crianças irem a um espaço que não é aquele em que normalmente estão a aprender. “Quando nós fazemos uma curva e eles sentem que não estão no lugar da educação, há qualquer coisa que entra, há algum canal que está aberto. Tanto é que cada vez mais há metodologias de ensino em que tu não sabes que estás a ser ensinado mas estás — os passeios, as visitas aos museus, tudo o que é uma ideia de paralelo à educação”, conta Tiago que com a distância dada pelo tempo percebe hoje que foi o que lhe ficou mais a si também. 

“Eu faço trabalhos para crianças porque ainda não sou pai e há uma coisa de dar aos filhos do outros”, diz Tiago. Além disso, sente que “há ideias que não servem nem para uma performance, nem para um vídeo nem para um objeto tridimensional, mas que servem para uma peça de teatro para crianças”. 

Tiago Cadete estreou recentemente Pangeia no Brasil, uma criação que estreou na Culturgest em 2017 e que parte do universo dos irmãos Grimm. Os bilhetes para Gulliver podem ser comprados na Culturgest e na Ticketline

Texto de Carolina Franco
Fotografia de Patrícia Blázquez

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