“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

Livro dos Conselhos, em Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago (1995)

A capa do livro sobre a mesa de madeira da casa dos avós era demarcada pelo revérbero das últimas centelhas de luz do dia. A menina, sentada no sofá, não o conseguiu ignorar, acolhendo-o. Inscrita numa das suas primeiras páginas encontrou uma epígrafe que a inquietou. Virou a página. A história era inaugurada com um “disco amarelo” que se iluminava. Perfilavam-se uma série de frases, revestidas da descrição de episódios do quotidiano em catadupa, que não tardaram a ser assaltadas pelo anúncio de uma ocorrência ímpar. Estas não eram frases banais, como as que eram ensinadas nas aulas de português. Não se pautavam pelas regras gramaticais, mas sim pelo sentir da respiração de cada momento que marcava a narrativa, da singularidade do sentir de cada personagem e do narrador. Experiência imersiva imediata. A menina não largou o livro até que a chamassem para entrar no carro e voltar a casa. A chegada ao seu lar foi atrasada pela necessidade visceral de uma paragem: uma livraria em que pudesse comprar o seu volume de Ensaio sobre a Cegueira, um livro de José Saramago que viria a mudar a sua forma de reparar no mundo.

Tinha cerca de doze ou treze anos. Nenhum dos meus amigos falava deste tal Saramago e da memória dos momentos em que escolhia partilhar o impacto que resultava da sua leitura, seja com miúdos ou graúdos, permanece o esboço dos seus olhares intrigados e temperados com incompreensão. Uma menina de doze anos deveria estar a ler Saramago? Também uma menina de doze anos encontra um enorme ganho na perceção da diferença marcada pelos verbos “olhar”, “ver” e “reparar”. Igualmente, a noção de tempo e eternidade precisava de ser encarada. “Para sempre, não, para sempre é sempre demasiado tempo.” Esta é uma asserção com que ainda hoje me bato, pela força do desejo utópico que em mim se abriga. Por isso, caro leitor(a), sim, uma menina ou menino, independentemente da sua idade, deve ler todas as palavras nas quais encontrar um desafio às perguntas que lhe assomam a mente ou àquelas que, sem saber, já residem em si, mas operam em surdina.

Esta semana perfizeram 25 anos da publicação da primeira edição de Ensaio sobre a Cegueira, e a sua atualidade e pertinência face ao momento ímpar que vivemos não podiam ser maiores. O livro narra a história de uma pandemia facinorosa, uma cegueira branca, que deixa a descoberto os vícios do ser humano, dá corpo à brutalidade de seres racionais, demonstra o colapso de uma sociedade, mas que destaca um olhar que permanece benévolo e edifica a possibilidade de reconstrução dessa mesma sociedade e civismo esquecidos.

Um início marcado pela dúvida que gera aflição. Reações de desvalorização inicial. A perceção de que efetivamente se trata duma situação crítica que necessita de medidas rigorosas para ser combatida, mantendo-se a incredulidade de alguns. Uns primeiros tempos de pequenos descontrolos inconscientes e de histeria generalizada. A tentativa de romantização de um cenário pandémico versus a desinformação assente num discurso catastrófico. Encontras alguma semelhança nesta descrição em relação ao que tens observado e vivido nas últimas semanas, leitor(a)? Portugal entrou em estado de emergência no passado dia 18 de março devido à situação de emergência de saúde pública, causada pela covid-19, com vista a conter a pandemia, tal como o fizeram muitos outros países. Esta é também a narrativa que inicia Ensaio sobre a Cegueira, com a diferença na índole pandémica e no desenvolvimento da sua expansão.

Proponho o exercício de relembrar pontos importantes deste ensaio que permitiu conceber um cenário possível face a uma evolução pandémica descontrolada, por acreditar que nele conseguimos prever evoluções e reações, assim como adequar a nossa resposta às mesmas de forma mais consciente e calma.

Começo por destacar este primeiro momento em que um homem se encontra parado ao volante perante um “disco amarelo” iluminado, aguardando a luz verde. Quando ela chega, o carro não avança e nele acolhe o homem que esbraceja aflito. “Estou cego.” De olhos aparentemente sãos, o relato é o da invasão de uma cegueira branca. Este homem era um homem normal. Não era idoso. Não tinha uma doença crónica a priori. Não havia nada que fizesse prever este desenvolvimento. No entanto, marca o início de um rol de contágio acelerado duma doença sem cura e sem precedente. Embora os idosos e as pessoas com doenças crónicas constituam um grupo de risco, não nos podemos esquecer de que qualquer um de nós está suscetível a contrair o vírus da covid-19 e passar a ser um veículo de transmissão do mesmo, inclusive para pessoas que estejam incluídas nesse grupo. Pelo que é de extrema importância que todos cumpramos a medida de isolamento social ao máximo.

No romance, a pandemia espalha-se de forma descontrolada pela sociedade que até então vivia com a máscara do civismo e autodomínio. Porém, não tarda a instalar-se o caos personificado numa série de personagens sem nome próprio que abraçam por completo o seu instinto animal e se desumanizam de dia para dia. Esta alegoria traçada por Saramago faz-me refletir acerca da fragilidade presente nos vários domínios da existência humana, desde logo nas relações que estabelecemos com o outro. O não saber viver em solidão, não conseguir encarar o reflexo do nosso rosto no espelho marcado a compassos de silêncio, o explodir de emoções que estavam reprimidas, ou a exclamação de conjunturas preexistentes que agora enunciamos como novidades incrédulas, que resultam na entrega a uma pandemia que não é só física, mas também emocional.

“Provavelmente, só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são”

Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago

Pergunto-me se haverá algum desafio realmente novo neste cenário, ou se apenas se subiu a cortina num momento em que os rostos dos atores ainda não estavam protegidos por uma máscara. Talvez não haja embuço que resista ao isolamento. Os problemas que temos vindo a ver noticiados no domínio da saúde, cultura, desporto, economia, entre outros, parecem-me ser apenas o acentuar de um percurso ignorado.

“Já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos”

Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago

E do que temos medo? Custa-nos a possibilidade de morte? Vivemos com medo de ser esquecidos? O que acontece perante a contradição da imposição do ser-se afamado com urgência? Por que razão nos custa tanto passar tempo na nossa própria companhia? Por que depositamos na presença física de outrem a autoridade do nosso bem-estar? Por que vemos os nossos níveis de ansiedade subir em isolamento? Por que passamos os dias entre altos e baixos, Alpes e Fossas das Marianas, como se de uma montanha-russa nos tratássemos? Por que escolhemos viver cegos? O que de pior pode acontecer se consagrarmos tempo apenas para pensar, apenas para nos deixarmos existir sem máscaras?

“Levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas, é o único lugar do corpo onde talvez ainda exista uma alma”

Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago

Pela vida fora, fui colecionando olhares e tenho-me recordado deles frequentemente nos últimos dias. Há olhares serenos que me confortam, olhares graves que me deixam alerta e olhares por resolver e para os quais continuo na demanda de encontrar sossego. Raramente me encarei. Reparo que no tiquetaque assoberbado do dia a dia tenho escolhido, frequentemente, reagir a estímulos. Poucas são as vezes em que me tenho olhado de forma séria e comprometida. A vertigem para o ver e reparar é sublinhada. E se conquistássemos este tempo para abandonar os remendos, externos e internos, e nos propuséssemos a procurar respostas mais eficazes para aquilo que nos tem cegado?

Este é um livro em que me encontro sempre que a vida se torna demasiado complexa e o cérebro começa a ceder a instintos mais primitivos. Quando a inquietude toma proporções assoladoras é neste Livro dos Conselhos que me protejo e procuro repostas, mas, acima de tudo, perguntas que me permitam continuar. É o meu mentor particular que, por mais inscritas que estejam as suas palavras no meu âmago, não deixa de me aduzir novos caminhos e momentos de profunda solidão necessária para uma evolução perseverante.

Na minha mesa de cabeceira encontram morada vários livros, mas há um que lá descobre estadia permanente. Há um com que sei poder contar pela vida fora. Há um em que atento na urgência de não repetir os erros cíclicos da História. Consigo ver o dia em que os noticiários vão abrir com a boa nova de que podemos sair à rua e a normalidade estará reposta. Nesse dia, almejo dispor da inteireza de todos os conselhos que nesse livro conseguir desvendar, sair à rua, encarar a cidade e ver que continuamos cá. Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago: o Livro dos Conselhos de que jamais me aparto.

-Sobre Andreia Monteiro-

Cresceu na terra que um dia alguém caracterizou como o “sítio onde são feitos os sonhos” e lá permanece, quer em residência, quer na constante busca por essa utopia. É licenciada em Comunicação Social e Cultural, na vertente de Jornalismo, pela Universidade Católica Portuguesa, onde se encontra a concluir o mestrado em Ciências da Comunicação. É, desde maio de 2019, a diretora editorial do Gerador, Associação Cultural a que se juntou no final da sua licenciatura. Apaixonada pelo mundo artístico, é uma leitora insaciável, a companheira constante de um lápis e papel, uma curiosa de pincel na mão, uma amante de teatro e cinema e está completamente comprometida com a beleza da música que tem vindo a descobrir. É, desde 2019, aluna na escola de Jazz do Hot Clube de Portugal. Acima de tudo, é uma criatura com pouco mais de metro e meio cujo desassossego não deixa muito espaço para tempos mortos.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de Joana Ferreira