HEAL é um projeto audiovisual que pretende sensibilizar para a saúde mental, formado pelo realizador Miguel Mendes (@MadeinLx) e pelo bailarino e editor Tomás Martins (@elohim.atoms). Fora de ti é a experiência sensorial dada através de um vídeo que simula a vivência de um ataque de pânico, inspirado por momentos que ambos os criadores já viveram. 

Miguel e Tomás, agora amigos, começaram por trabalhar juntos noutros projetos. Ocupavam respetivamente as funções de realizador e de produtor executivo dos videoclipes de Slow J. Com a amizade, veio a vontade de criarem em conjunto. Começaram com improvisos de dança e rapidamente investiram em projetos de maior produção, como Experiment 13, com Francis Dale, e os videoclipes dos temas Encontrar, de Holly, e Lágrimas, de Slow J.

HEAL é a mais recente aposta da dupla que, partindo da música de Miguel Mendes, lhes confere total liberdade criativa, dentro do universo da saúde mental. Fora de ti quer dar a perceber que, “às vezes, só queremos fugir. E nunca podemos fugir de nós mesmos. Mas e se soubéssemos que não estamos sozinhos?”. O Gerador foi falar eles.

Gerador (G.) - Por que motivo um realizador e um editor/bailarino se juntam para falar de saúde mental?

HEAL (H.) - Em primeiro lugar, juntámo-nos porque somos amigos. Este projeto não foi super ponderado, foi apenas evoluindo naturalmente a partir de conversas sinceras que tivemos sobre como nos sentíamos. Para qualquer um de nós, a arte é a nossa ferramenta de catarse. É a nossa purga, por assim dizer. Ao criar estas imagens e estes ambientes, podemos ver o que sentimos fora de nós e isso é libertador. A nossa relação connosco próprios, com os nossos sentimentos, pensamentos e crenças foi surgindo como o denominador comum dos nossos trabalhos. Decidimos continuar a explorar o tema.

G. - O projeto audiovisual HEAL remete-nos para dentro. Qual é a importância de sabermos ouvir e observar os nossos pensamentos?

H. - A maior parte de nós vive de certo modo escravizado pelos seus próprios pensamentos. Eckhart Tolle fala do pensamento como o grande vício do ser humano. Temos a tendência de confundir quem somos com o que criamos. E nós criamos os nossos pensamentos. A maior parte das vezes, criamo-los inconscientemente, da mesma forma que respiramos. Mas assim como podemos respirar conscientemente, também podemos pensar conscientemente. Ao observar os nossos pensamentos, temos a oportunidade de escolher não nos identificarmos com eles e, por isso, de os transformar. 

G. - Fora de Ti são quatro minutos em que "às vezes, só queremos fugir". A experiência sensorial que trazem a público é reveladora de que é urgente falar sobre os ataques de ansiedade, mostrando o que são? 

H. - Sim, a ideia desta peça é a de, ao explorar a sensação, criar diálogo. A saúde mental e os distúrbios de ansiedade em particular são muitas vezes acompanhados de fortes sentimentos de vergonha e solidão. Como ninguém fala sobre isso, achamos que só nós é que nos sentimos assim. E por isso, muitas vezes, escolhemos fingir que estamos sempre bem. A sociedade, de certo modo, ostraciza as doenças mentais porque todos temos medo de ser vistos como loucos e frágeis aos olhos dos outros. Mas a própria sociedade, como está hoje organizada, parece que nos empurra para uma vida borderline crazy porque nos faz sentir que o nosso valor é determinado pela nossa capacidade de produção. Por mais que façamos, parece que estamos sempre atrasados.

G. - Consideram que a arte deveria ser mais vezes colocada ao serviço de temas sociais relevantes?

H. - Essa é uma pergunta com rasteira… Acho que a arte já tem esse papel e já é usada desse modo. Todas as pessoas que se expressam artisticamente de forma autêntica não conseguem senão tocar em temas pessoais e sociais relevantes. E o valor disso é inestimável. Questão diferente é se a sociedade dá o devido valor à arte e aos artistas. Mas no fim, cabe aos artistas comunicar de forma a que o público os entenda e se relacione. Há imensos criadores em Portugal e no Mundo que o conseguem fazer e que com as suas obras refletem e transformam as pessoas e a sociedade.

Deixamos-te, enfim, o vídeo Fora de ti. Respira, não estás sozinho.

Texto de Rita Dias
Fotografia da cortesia de HEAL

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