“És do Hip Hop? Ui! Que fixe! Dá lá um toque daqueles com os pés…”.
O que é o Hip Hop? Pode ser uma série coisas, mas na sua essência e origem, a forma mais simples de explicarmos o que é o Hip Hop, é dizendo o mesmo blá blá blá de sempre: é uma cultura com quatro vertentes. E são elas: Dj, o Breakdance, o Mc e o Bling Bling. Isto parece que é algo que só é conhecido por quem faz parte da cultura. Agora, recua um pouco… e substitui o bling bling por Graffiti (foi apenas para assustar o pessoal, os puros, os chamados Hip Hop Heads!).
“Ai! O Varela disse que o bling bling é umas das vertentes do Hip Hop!”. Se houvesse uma espécie de clube do Hip Hop, por esta altura já estaria a ser contactado (e não pelos melhores motivos) antes mesmo de lerem o resto do texto! Continuando: nós, os da cultura, vemo-nos de uma forma e achamos que o resto do mundo nos vê de outra mas, meus amigos, só a partir dos 30 é que comecei a perceber como a sociedade nos vê e o que a maior parte das pessoas pensa de nós. Não é totalmente bom, mas podia ser pior.

As confusões variam. Por isso, quando digo que trabalho com Hip Hop, costumo ouvir as seguintes frases: “… manda lá a tua rima então…”, ou “… mas danças há quanto tempo?”, ou ainda: “Uau, não sabia que dançavas…”. Acho que a confusão das pessoas sobre o Hip Hop acaba por não ser tão grave quando me dizem a cena do “manda lá a tua rima” ou “canta aí”, do que quando acham que danço Hip Hop. Isto deve-se à minha grande ligação com o Rap. Agora, os tais “dançarinos de Hip Hop” que a maior parte das pessoas pensa que as pessoas ligadas a este meio são… disso já tenho as minhas dúvidas e já vou explicar porquê. Tive noção disto ao passar por uma dessas escolas de dança em que uma das modalidades que ensinam é o Hip Hop. E, normalmente, aparece um tipo musculado, vestido com umas calças de capoeira, a ensinar turmas de 20/30 alunos e que pagam valores acima de 50€ por mês. Chamam-lhes aulas de Hip Hop… e pensei: para muitas pessoas, quando falo de Hip Hop ou que trabalho com Hip Hop, esta é, de facto, a referência e a imagem que têm…

É de tal forma grave que posso questionar, tanto a um Rapper da nova escola como a um professor de Hip Hop de uma escola numa zona chique de Cascais, que nenhum deles saberá dizer-me quem é o Kool Herc. Mas isto é grave? Na minha opinião, sim, é, contudo, temos grandes artistas de Rap nacional que não sabem quem são os Wu Tang… e isso, isso é muito mais grave.
Sendo assim, a forma como te vês e achas que te veem, pode não corresponder à realidade. Dou por mim a pensar que nos anos 90, quando o meu tamanho era o M e eu usava o XXL, cheio de estilo e armado em mauzão, algumas pessoas na rua olhavam para mim e pensavam estar a ver um dançarino. Porventura, até pensavam que as roupas que usava eram mais largas para facilitar os movimentos. Ou que, quando os rapazes da linha de Sintra andavam com pensos na cara, estilo Nelly, se tinham lesionado a dançar, coitados… dá que pensar.

Então gostaria que vissem o Hip Hop como um mundo de possibilidades, onde tu podes vir a ser um vasto número de coisas, quem sabe até um bilionário como o Jay Z ou o Diddy, entre muitas outras. Não somos todos rappers, nem todos damos aulas de dança com calças de capoeira, mas todos devemos ser fiéis quando falamos desta cultura e todas as suas vertentes. Além das quatro vertentes que referi, existem muitos Hip Hop heads, Og’s, etc.…, que inserem e defendem a entrada de novas vertentes na cultura. Por falar nisso, na minha opinião, a única vertente que conseguimos ver totalmente fiel ao que o Hip Hop foi na sua origem é, de facto, o Graffiti. Isto porque, o Graffiti puro e real, é o Graffiti ilegal, tudo o resto pode e deve ser chamado de Street Art. Nesta vertente, é também onde já assisti a um maior número de confusões. É algo muito territorial, com uma enorme defesa das crews e do respeito neste meio. É algo complicado, mas muito interessante. Iniciei-me no Graffiti em 1997, mas, depois de vários encontros com a polícia e muitos gastos em latas, resolvi deixar. Nessa altura via-me como um verdadeiro Picasso nas ruas, mas muitos viam-me como um destruidor de paredes. Não por pintar pela cidade de forma ilegal, mas pelo péssimo trabalho que fazia. E, na verdade, tinham razão, eu não era nada bom, confesso. Uma vez mais, a minha realidade era diferente daquilo que as pessoas viam ou pensavam. Não é que nos devamos importar com o que os outros pensam, ou dizem mas, no caso do Hip Hop, devemos importar-nos, sim. Quanto mais não seja para não estarmos sempre a passar por dançarinos com calças de capoeira. Mas atenção pessoal, não tenho nada contra dançarinos! Boa quarentena e saúde para todos.

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas.Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
Fotografia de Lucas Coelho
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