A História e a memória da antiga “Manchester Portuguesa” estão agora retratadas num documentário interativo de acesso livre, que está disponível online. “Covilhã Cidade Fábrica” é o nome do ‘webdoc’ que parte de documentos, testemunhos de antigos operários, e relatos de investigadores para trazer a público as histórias esquecidas da indústria dos lanifícios daquela cidade da Beira Interior.

A ideia original de Ivo Rocha da Silva foi concretizada com a produtora Ocidental Filmes e teve realização de Inês Teixeira. A concepção, design e programação da plataforma ficou a cargo da MajorTom. O projeto foi iniciado em 2018, após obter financiamento do Instituto do Cinema e Audiovisual sendo o melhor classificado no concurso de Inovação Audiovisual.

“Fui habituado desde muito novo a ouvir as histórias das fábricas, e sempre me fez um bocadinho de confusão que isso não estivesse a ser salvaguardado, não estivesse de certa forma a ser aproveitada esta ligação tão forte que a Covilhã tem à indústria”, diz Ivo Rocha da Silva que refere que foi este o fator que acabou por impulsionar o projeto.

A escolha do formato interativo esteve ligada à personalização da experiência, que desta forma se torna não apenas lúdica, mas cultural e educativa.

Segundo Inês Teixeira a intenção “foi também tentar que as pessoas pudessem visitar os conteúdos de uma maneira livre”.  A realizadora explica ao GERADOR que apesar de existir um fio condutor na narrativa “as coisas estão organizadas de forma fragmentada e é possível começar no início da história ou a meio, por exemplo”.

O documentário está, por isso, dividido em três partes: “Passado”, “Cidade Fábrica” e “Presente”, que podem ser vistos de forma sequencial ou seletiva. Enquanto a primeira parte mostra documentos históricos que permitem compreender todo o processo ancestral de produção dos lanifícios, o segundo trecho foca-se na componente humana e nas transformações sociais intrínsecas à paulatina modernização tecnológica e industrial. A pobreza dos trabalhadores, a opressão durante o Estado Novo e a revolta dos operários que tiveram a coragem de entrar em greve são alguns dos momentos relatados na primeira pessoa. “Estamos ali muito focados no século XX”, diz Ivo Rocha da Silva.

A última parte, dedicada ao “Presente” pretende mostrar como a cidade continua a  “respirar a indústria” mostrando como muitos dos espaços se transformaram e se reconverteram para servir outros propósitos. Este último capítulo está ainda em construção mas prevê-se que fique concluído em meados de maio deste ano.

“O que o documentário interativo tem de bom é que na verdade não precisa de acabar nunca. Se daqui a algum tempo quisermos acrescentar mais isto aquilo ou o outro podemos sempre fazê-lo, e foi isso que nos motivou também um bocadinho a ir para este formato”, explica o autor do projeto.

Inês Teixeira sublinha que, apesar do trabalho retratar uma cidade do Interior do país, pretende “fugir a essas divisões” porque “a Covilhã, apesar de estar localizada onde estava, sempre tentou comunicar com o resto do mundo e conseguiu-o de uma forma impressionante, nunca esteve isolada”.

Já o autor da ideia original afirma que a cidade “tem um potencial de turismo industrial muito forte, que pode ser muito melhorado, pode ser explorado de forma muito mais assertiva”. Ivo Rocha da Silva espera por isso que este documento possa servir de “provocação” a novos e diferentes projetos de futuro.

Texto por Sofia Craveiro
Fotos cortesia de Ivo Rocha da Silva

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