A história de desconfinamento desta semana conta o processo de reabertura do Teatro Viriato. A sala de espetáculos da cidade de Viseu fechou as portas no passado dia 12 de março, tendo reaberto no dia 1 de junho, a data de abertura emanada pela Direção Geral de Saúde para os espaços culturais. Apenas o edifício físico esteve fechado ao longo destes quase três meses –  as equipas do Teatro continuaram a trabalhar, não para o momento da reabertura, mas para o Teatro se manter ativo durante todo o período de confinamento. Agora, com as portas novamente abertas, aos seus fiéis espectadores, o Teatro retoma parte da programação inicialmente prevista, reinventa uma outra parte, e mostra-se motivado para contornar as limitações que, à partida, poderiam dificultar o regresso dos artistas a palco.

Desde o dia 13 de março que o Teatro Viriato mostrou ser capaz de contornar os desafios que tinham pela frente, na altura ainda com total imprevisibilidade da data de retoma. O espetáculo marcado para esse dia já não pôde acontecer. Pelo menos, não em palco e com a plateia em sala. Contudo, uma das cenas foi transmitida via streaming e este foi o toque de saída para uma realidade que se fazia prever de apenas algumas semanas. Patrícia Portela, atual diretora do Teatro Viriato, tendo assumido funções em março de 2020, fala numa “sensação muito avassaladora”.

Chegada apenas há três meses à direção do teatro, confessa que este foi um “processo muito peculiar”, tendo-se visto obrigada a começar ao contrário: “a programação é algo que é feito sempre com muita antecipação e eu comecei por ter de reorganizar espetáculos que estavam já decididos até ao final do ano”. O teatro começou a trabalhar a reabertura logo no dia 12 de março, “através do diálogo com todos os artistas, procuramos ou adiar o espetáculo ou transformá-lo noutra plataforma. Foi tudo muito a par e passo e sempre com vontade de não perder nada”. Durante todo este processo, a diretora do Teatro Viriato fala no diálogo como a peça-chave para a reabertura em força: “conseguimos gerir toda a situação com diálogo, com muito diálogo, muita tentativa erro e muita proximidade com todas as equipas técnicas”.

Embora se tenha falado que o mundo parou durante estes três meses, para Patrícia Portela e os restantes funcionários do Teatro estes tempos vividos em confinamento e teletrabalho foram “uma aceleração quase desajustada para o momento que se vivia”. Fala em ter de “parar o comboio a alta velocidade com cuidado para não danificar nem o comboio, nem os seus passageiros”. 

Toda a calendarização do Teatro foi assinalada, de alguma forma, na data prevista para o mesmo acontecer. Criaram o Festival Telefónico e depois o Sub-Palco, um placo streaming, sempre com a preocupação de permanecerem perto do público e de não perder a imediatez e o tempo de cada espetáculo.

O dia de reabertura, 1 de junho, também Dia da Criança, ficou marcado pelo espetáculo “Tangerina” do grupo Gira Sol Azul. Um espetáculo que acabou por resultar em quatro apresentações diferentes – o espetáculo ao vivo para as escolas, nesse dia 1 de junho; um vídeo para as escolas que tinham já adquirido os bilhetes; uma gravação e conversa de Ana Bento com a AVISPT21 – Associação de Viseu dos Portadores de Trissomia 21 – e ainda o espetáculo para público em geral, que tem data marcada para hoje, dia 6 de junho. Patrícia Portela fala num “momento de reencontro mágico”.

Depois de “Tangerina”, o Teatro Viriato terá ainda semanalmente os “Gráficos da Cidade e das Coisas”, de Gonçalo M. Tavares, “uma criação que se pretende construída em proximidade com o público” e que “que poderá ainda ocupar palcos diferentes até à sua apresentação final”. Marcada para o dia 14 de junho está ainda a apresentação final de P.E.D.R.A. – Projeto Educativo em Dança de Reportório para Adolescentes, em streaming, promovido em parceria com a Culturgest e Teatro Municipal do Porto. Este é um projeto de dança contemporânea “pensado e criado com o objetivo de estimular o conhecimento e a participação na dança contemporânea por parte de adolescentes”. Nas palavras da coreógrafa Vera Monteiro, convidada da terceira e última edição do P.E.D.R.A., “se por um lado foi desoladora a interrupção das práticas que estavam em curso no interior de estúdios de dança, repletos de adolescentes que experimentam com o corpo e com o espaço e com o tempo, por outro lado foi puro fascínio vê-los prosseguir essas práticas de forma mais introspectiva, e íntima, quase diarística, no interior das suas casas, continuando a descobrir, a experimentar, a arriscar”.

A nova edição do “Noite Fora”, com Alex Cassal estará de regresso à sala principal do Teatro Viriato a 17 de junho, bem como as provas de aptidão da escola de dança Lugar Presente, marcadas para o dia 25 de junho. O palco telefónico e o Sub-Palco, criados durante o período de confinamento, vão continuar a receber atuações, nomeadamente os exercícios finais de interpretação da ESAD – Escola Superior de Artes e Design, e da Escola Superior de Cinema e Teatro, ambos dirigidos pela Artista Residente, Joana Craveiro.

Apenas onze das atividades que estavam agendadas até julho de 2020 serão integradas na próxima temporada de setembro a dezembro de 2020 e durante o próximo ano, entre eles Aurora Negra, de Cleo Tavares, Isabél Zuaa e Nádia Yracema; Assim Devera Eu Ser, de Catarina Moura, Celina da Piedade e Sara Vidal; Cantigas da Lua, de Luís Lapa, Medo e Feminismos, do Teatro do Silêncio.

Quanto aos espetáculos “Guardar Segredo” e “Às Cegas – Visita pela mão aos Tesouros Nacionais e Acervo do Museu Nacional Grão Vasco”, apesar destes viverem do toque e da proximidade física entre atores e visitantes, ouvintes e espectadores, têm regresso previsto para 20 de junho. Os novos tempos e circunstâncias resultaram num novo formato pensado para o espetáculo – “Guardar Segredo” – que ao longo de cinco horas apresenta 60 performances de cinco minutos para 60 espectadores. A experiência será a mesma, já que “os armários permanecerão no palco e as pessoas são convidadas a participar através de uma videochamada – entram no cenário em tempo real – com o telefone a permitir a intimidade e o diálogo”, afirma Patrícia Portela. No que respeita ao segundo espetáculo, confessa que está ainda a analisar, juntamente com a equipa técnica, a viabilidade do mesmo, sob o risco de “partilhar uma obra que já não é o que era”, já que “o toque é fundamental e central, não só na forma da peça como no conteúdo”.

O Teatro Viriato conseguiu assim garantir a reprogramação de toda a sua atividade e continuará a trabalhar para que os espectadores possam voltar ao Teatro em segurança, procurando garantir as melhores condições tanto para colaboradores, como para espectadores e artistas. Apelam ao comportamento responsável dos seus visitantes e que a compra de bilhetes online seja privilegiada. 

Nas palavras de Patrícia Portela, “as pessoas estão muito interessadas em regressar – o Teatro Viriato é muito dos seus espectadores – e por isso as pessoas ficaram muito contentes por poder ter a sua casa de volta. Acredito que vêm aí coisas maravilhosas, coisas incríveis”. “O Teatro é o local de reencontro”.

Texto de Bárbara Dixe Ramos
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