“O que foi nunca mais será?”

                                                                                                           Vasco Araújo, Eco

Começamos pelo paradoxo: como pode escrever-se uma história do futuro? Não é a história investigação do passado, do já realizado, do morto? Não é o futuro o imprevisto, o inapreensível porque ainda inexistente?

Foi precisamente na argumentação para provar a possibilidade e a necessidade de escrever uma História do Futuro que Pe. António Vieira se demorou mais, no livro com esse mesmo título. E ao longo dessas páginas inteligentes, mostra como a profecia a que se propõe não é a adivinhação de um porvir traçado na palma das mãos, nas cartas ou nas estrelas. Não é destino. A profecia a que se sente impelido é a leitura projectiva da história. O futuro está, assim, escrito no passado. Não nos factos exactos, mas nos processos onde se revela a condição humana.

A história podia ser mestre, a maior de entre eles, mas aprendemos pouco com ela. Cada geração parece sempre a primeira, um começo, pouco ou nada assimilando da anterior. A grande pre-vidência de Vieira é compreender que ao olharmos o passado podemos ver mais longe para o futuro. Não se dirige o olhar em direcção ao morto, mas ao vivo[1]. A história é feita do que nela permanece vivo para o presente – e para o futuro. Do fecundo. Daquilo que nos ajudar a orientar no horizonte que é ou será o nosso. Não apenas o que nos agrada, mas o que incomoda e nos pode mesmo por em causa. Nesse sentido, perceber-se-á melhor a enigmática exigência evangélica de “deixar os mortos sepultar os mortos”[2], e retomar da história o que dá vida. O redivivo. O que se dirige ao que vem, ou melhor, o que é já futuro.

A história do futuro é, então, uma história feita da novidade de coisas não-novas: “É uma História nova sem nenhuma novidade, e uma perpétua novidade sem nenhuma cousa de novo”[3]. E Vieira percebeu bem que é a intencionalidade do olhar do receptor que produz o novo: “Quando Adão saiu flamante das mãos de Deus, abriu os olhos, e viu tanta cousa nova, e todas eram mais antigas que ele. Nem eram elas as novas; ele era o novo. A novidade da nossa História há-de ser mais dos leitores que dela”[4].

         Apesar da escrita da História ser uma heterologia, um discurso sobre um outro,  mudo e ausente; porque humanos, o que de humano (ou in-humano) da história se desprende não nos é estranho. São as nossas possibilidades - os meus horizontes do possível - o que procuramos na pesquisa histórica. E também por isso, Nietzsche, numa carta a Burckhardt, afirmou de modo radical: “no fundo, sou todos os nomes da história.”[5].

         Somos seres incarnados e históricos. O conhecimento da história é um dos necessários desvios hermenêuticos para fugir da ilusão de um conhecimento imediato de si, de uma consciência auto-transparente e segura. A história é mediação necessária, não só para o eu, mas para o nós, recusando o postulado de um cogito que se julga auto-conhecer imediatamente, claro e certo para si mesmo. Em vez da imediatez da intuição, chega-se a si por um desvio mais longo: “a de nos reapropriarmos de nós mesmos, através das múltiplas expressões do nosso desejo de ser”[6]. A história é o palco onde se expõe este desejo de ser. As obras de arte são a manifestação contínua e renovada dessa sede.


[1] Cfr José Mattoso, A Escrita da História. Teoria e métodos. Lisboa: Editorial Estampa, 1997, p.21.

[2] Lc 9, 60. Ou ainda, no mesmo sentido: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus”. Lc 9, 61

[3] António Vieira, História do Futuro, vol. I. Lisboa: Sá da Costa Editores, 2008, p.139.

[4] Ibidem, p.140.

[5] Carta a Burckhardt, 6 de Janeiro 1889: Friedrich Nietzsche, Sämtliche Briefe, Kristische Studienausgabe, Band 8. Berlin/New York, Walter de Gruyter,1986, p. 578 

[6] Paul Ricoeur, Le conflit des interprétations. Essais d´herméneutique I. Paris, Seuil, 1969. Trad. port. O conflito das interpretações. Porto: Rés, p. 221

Excerto inicial do texto Breve Sumário da História do Futuro publicado no livro Vasco Araújo, Debret. Lisboa: Assírio & Alvim. 2010

-Sobre Paulo Pires do Vale-

Filósofo, professor universitário, ensaísta e curador. É Comissário do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, desde Fevereiro de 2019.

Texto de Paulo Pires do Vale
Fotografia de Tomás Cunha Ferreira