Com o novo álbum lançado no início deste ano, Homem em Catarsealter ego de Afonso Dorido, nasceu em Barcelos, ainda nos primeiros anos da década de 1980. Depois do EP Homem em CatarseGuarda-Rios e Viagem Interior, chega agora Sem Palavras, Cem Palavras, um álbum que nasceu de um poema com cem palavras escritas.

Em entrevista, o artista fala dos seus últimos trabalhos, da descentralização da sua música e da emergência de novas bandas no Minho e no país. “Havia uma pessoa que dizia que só existem dois tipos de música: a boa e a má. Portanto, a boa música é sempre bem-vinda”. 

Gerador (G.) – Catarse remete para uma espécie de purificação pessoal. É assim que te vês enquanto músico?

Homem em Catarse (H. C.) – É uma necessidade pessoal que eu tenho daquilo que sinto, quase como uma lavagem interior. É uma coisa que eu necessito de fazer para me sentir bem e que é visível na própria música. Até à data, os trabalhos que tenho feito refletem essa catarse, sobretudo ao vivo. Ao vivo, essa catarse nota-se. Num trabalho de estúdio, tu ouves a música, mas não vês a intensidade com que está a ser feita. Ao vivo, é um duplo sentido: o visual e o musical. Nesse contexto, a catarse assenta em mim enquanto pessoa, mas também para a música que eu faço. Não foi nada premeditado, mas é um nome que tem esse duplo sentido. 

G. – Mas o Homem em Catarse e o Afonso são pessoas muito diferentes?

H. C. – Queria só referir que o Homem não é no sentido de género, podia sim significar a Humanidade em Catarse, o Ser em Catarse... A forma como eu faço as coisas é muito pessoal, varia de disco para disco, uns mais do que outros, mas eu não me consigo desligar. É óbvio que a nível de performance ao vivo, há uma diferença. Quando estou em palco, estou a escutar também uma performance que embora sentida, é uma coisa específica. Aí, a pessoa poderá separar-se do artista. Mas enquanto escritor de canções, compositor de música e guitarrista, não é possível desligar-me completamente. Embora, claro, o artista é o artista e a pessoa é a pessoa. 

G. – Lançaste este ano o álbum Sem Palavras, Cem Palavras. Este disco não possui mesmo palavras. Porquê esta escolha apenas de fazer um álbum completo instrumental?

H. C. – Houve um motivo de conceito. Este disco, pelo facto de ser instrumental, não quer dizer que eu, ao longo do tempo, viesse a não ter músicas com palavras para depois começar a ter palavras. Cada disco tem uma história, e este tem um motivo para não ter palavras. Ele nasce de um poema repleto de palavras, nomeadamente cem, se as contarmos. O conceito deste disco parte desse poema, que se chama Sem Palavras. Neste caso, nasceu de um desafio que me foi lançado depois de um concerto que fui ver a Coimbra, onde me desafiaram a escrever um disco instrumental. Aquela coisa começou a ecoar na minha cabeça, até porque no meu universo já havia e há músicas instrumentais. Entretanto, comecei a compor ao piano e ganhei mais força. Tive também o apoio da GDA para pôr o disco em prática. E, acima de tudo, sempre gostei de fazer discos diferentes, e este é, sem dúvida, diferente. Pela primeira vez, tem temas ao piano sendo eu guitarrista e consegue ter uma aura diferente e um conceito. Isto quer dizer que o próximo disco será diferente. É assim que eu acho que gosto de fazer as coisas, sem perder o meu ADN e as minhas características sonoras, mas certamente é muito provável que tenha voz, porque eu não faço discos iguais. Se eu fizer discos iguais, as obras perdem a capacidade de se distinguirem umas das outras. A minha ideia é sempre diversificar e apresentar algo que me estimule a mim e às outras pessoas. A pior coisa que pode ver é o marasmo e a monotonia apresentada às pessoas. 

G. – Pensas que é mais difícil para o músico passar a mensagem da canção sem uma letra? 

H. C. – No disco anterior, Viagem Interior, passei uma mensagem com um conceito social muito forte de chamar a atenção para o interior do país. Este é um disco que acaba por ser mais pessoal, mas mesmo assim há um apelo. Eu tento sempre dar força à palavra. Embora o disco seja instrumental, há neste disco alguns títulos que possam indiciar algo ligado à poesia, à 7.ª arte, a artistas que eu gosto... Tento sempre usar a palavra. Neste trabalho, eu limitei-me ao poema. Apesar de ser um disco sem palavras nas músicas, este disco tem muitas palavras. Eu acho que, apesar da música ser o que me move, eu estarei ligado à palavra, quanto mais não seja nos títulos, no conceito, nos poemas... As palavras têm sempre muita força. E a palavra não é só quando a dizemos, o silêncio pode ser a maior palavra. E há coisas que nós conseguimos dizer sem palavras... É por aí que este disco acontece. 

G. – Sentes que se desvaloriza a música instrumental e que a indústria ainda se foca muito na palavra?

H. C. – Atualmente, existem muitos nichos. O tipo de música que eu faço é uma música completamente alternativa, e o mundo é um lugar estranho e está numa fase muito estranha. Como existem muitos nichos, também existem as pessoas que se interessam pelas músicas e simplesmente pelas músicas, independentemente se é cantada, se as fotografias de promoção são chamativas... Há esse nicho em que normalmente o público está perto do artista, e o público sente-se privilegiado por conhecer e por contactar com a música do artista, sente-se especial ao ponto de gostar da música pela música. Portanto, eu acho que a música instrumental também tem o seu lugar hoje em dia. É óbvio que, a nível do mainstream e do comercial, cada vez as pessoas acabam por ingerir aquilo que nos dão. Às vezes, as pessoas não têm muito tempo para procurar por elas próprias e de descobrir por elas próprias... Então, limitam-se a ouvir aquilo que passa. Está um bocadinho viciado, ou seja, aquilo que tem muita massificação é o que as pessoas veem e acabam por não descobrirem novas coisas porque não têm tempo. Depois queixam-se que não tendo tempo, é tudo igual... É um ciclo. As pessoas andam a correr muito, andam muito focadas.

G. – Falaste na questão do crescimento da oferta. Sentes que isso pode vir a ser um problema para os músicos? 

H. C. – A boa música é sempre bem-vinda. Eu acho que o maior problema são as pessoas que não fazem música, ou seja, aquelas pessoas que simplesmente usam músicas que já foram tocadas três milhões de vezes. Eu acho que as bandas de coversneste momento são uma praga para a criatividade... Essas sim, porque se limitam a tocar o que já foi tocado. E se existem bandas de covers, é porque houve alguém a criar as músicas. Eu respeito todos os músicos enquanto compositores e intérpretes, mas parece que as coisas são cada vez menos arrojadas e originais. A arte é arrojo, é um risco. Se começas a fazer arte pela quantidade de viewsplays ou streamings, começas a deixar de ter esse risco. Havia uma pessoa dizia que só existem dois tipos de música: a boa e a má. Portanto, a boa música é sempre bem-vinda. 

G. – Tu és natural de Barcelos e vives em Braga. O Minho tem crescido imenso culturalmente. Como é que olhas para essa evolução?

H. C. – No geral, penso que o Norte do país tem uma abertura muito grande para o meio artístico e para os espetáculos musicais. Barcelos, a nível musical, desde há algumas décadas, pelo menos que eu conheça e possa falar, tem sido uma cidade profícua em relação ao nascimento de novas bandas a lançarem discos e a fazerem coisas. Braga também me parece que tem crescido a nível de oferta. Eu vejo isto com satisfação, como é óbvio, e às vezes penso, sem estar a querer ser provinciano, que era importante as pessoas do Minho valorizarem os artistas do Minho. Mas penso que estamos numa fase positiva e muitos eventos de cultura e música alternativa acontecem no Minho. Isso também mostra que nós somos capazes de fazer acontecer sem medos e dramatismos, mas com vontade de arriscar. Quando há vontade de arriscar, as coisas acontecem. Se ficarmos presos ao que pode não acontecer é que nunca vai acontecer. 

G. – Mas a descentralização foi um problema no início de carreira?

H. C. – Certamente, com o advento da Internet, acabas por estar um bocadinho mais perto de todos os locais. Eu acabo por tocar bastante em Espanha e não é propriamente perto. É uma questão de fazer as coisas com os meios que tens. É óbvio que a nível de comunicação promocional é obrigatório tu teres de ir passar uns dias a Lisboa ou coisas do género. Há vantagens e desvantagens. É inegável que Lisboa é a capital e o Porto uma cidade maior, mas isso são factos, e nós também temos de apreciar as vantagens de vivermos num espectro mais pequeno e as desvantagens de não estarmos num grande centro. 

G. – Por falar em carreira, que balanço fazes destes anos que passaram?

H. C. – Tento ser pragmático e que, apesar de tudo, o balanço tem sido positivo. O disco anterior, Viagem Interior, é um disco que continua atual, e as pessoas continuam a falar dele. Este novo disco está a ser bastante bem aceite também. Estou bastante satisfeito... Claro que é uma vida precária, porque nunca temos muita certezas. Mas a incerteza também é um condimento para fazer música e para a arte e eu gosto é que as pessoas deem feedback. Se eu faço música para as pessoas, não posso estar desligado delas.

Entrevista por Gabriel Ribeiro
Fotografia de Sónia Fernandes

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