Seja qual for a sala de cinema em que nos sentamos para ver Alva, o espaço vai parecer sempre pequeno para que lá caiba a respiração de Henrique, cuja intensidade vai moldando a cadência do filme e a posição de quem está do lado de cá, sentado a ouvi-la. Numa manhã que podia ser como todas as outras, Henrique dá início a uma narrativa que vive do e com o silêncio - onde apenas se diz o necessário.

Só o saberemos mais tarde, mas este homem é um dos habitantes de uma aldeia em Oliveira do Hospital que vive isolado, em condições insalubres, numa casa de madeira construída como uma espécie de manta de retalhos por onde facilmente o frio rigoroso do Inverno consegue passar. Vive sozinho e foi afastado das suas filhas por ordem da segurança social. É quando as procura e acaba por cometer um crime pouco ou nada expectável que inicia um processo de fuga aos outros e a si mesmo.

Depois de traçar uma narrativa em imagens entre Maputo e Inhambane, em Nyo Vweta Nafta (2017), Ico Costa situa-se entre Avô e Coja para nos pôr a pensar em empatia. Durante as quase duas horas de filme rodadas em película de 16mm, justapõe texturas da fauna e camadas da vida. Por entre a vegetação, Henrique foge de quem calcula que o procure pelo que fez, enquanto foge de si e do sentimento de culpa que o vai assaltando enquanto continua a sobreviver não muito longe de casa, tendo sempre como referência o rio, que por sinal tem o nome de Alva. Na verdade, Henrique sobrevive desde o primeiro momento – talvez por isso tenha achado que não tinha nada a perder.

O elenco de Alva é composto por não-atores, habitantes das localidades de Avô e Coja

A semelhança com a história de Manuel Palito não é pura coincidência. A história do homem que atacou quatro mulheres da sua família por não aceitar o divórcio com a ex-mulher, e que acabou por se refugiar nas montanhas, serviu de referência a Ico Costa para a construção da história – tal como já tinha acontecido com Miguel Gomes no filme As Mil e Uma Noites.

Numa nota que assina para a imprensa, o realizador contextualiza o lugar em que situa as suas personagens, dizendo que pretendeu “fazer um filme sem a estrutura narrativa em que o público sabe desde o início quem são os heróis e os vilões” e que “no final, não há acusações nem absolvições”. Apontar Henrique Bonacho como vilão seria cair na armadilha que é pensar que a vida se situa entre o bem e o mal, o preto e o branco, o litoral e o interior.

Aliado à sensibilidade estética de Hugo Azevedo, diretor de fotografia do filme, Ico Costa lança em Alva chaves de empatia numa viagem que tem o conforto visual de uma certa familiaridade, que logo identificamos de todas as visitas ou vivências que tenhamos em qualquer aldeia de Portugal, e a desconcertante inquietação da condição humana num momento de fuga.

Alva integrou a Competição Nacional do Indie Lisboa 2019

Quase um ano depois de ter estreado no Festival de Roterdão, Alva tem estadia marcada a partir do próximo dia 16 de janeiro nas salas Cinema City Alvalade (Lisboa), Alma Shopping, Cinema City de Leiria e uma sessão única no Cinema Trindade no dia 22 de janeiro, esta última seguida de uma conversa entre o realizador e Adolfo Lúxuria Cabral.

Os momentos de reflexão estendem-se às restantes cidades, estando marcada para o dia de estreia uma sessão com Ico Costa e a equipa do filme, um debate sobre direção de fotografia com Hugo Azevedo e Acácio de Almeida no dia 17 de janeiro, e uma conversa de Ico com Vasco Câmara, jornalista e editor do Ípsilon, no dia 18 de janeiro.

Alva é uma coprodução da Terratreme, Oublaum, Um Puma e La Belle Affaire Productions, e Ico Costa dedica-a aos habitantes de Oliveira do Hospital afetados pelos incêncios de 2017.

Texto de Carolina Franco
Still de Alva de Ico Costa

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