The Beginning, the Medium, the End and the Infinite é o novo álbum que une a dupla “IKOQWE”, composta por Batida (Pedro Coquenão) e Ikonoklasta (Luaty Beirão). Lançado a 5 de março, pela belga Crammed Discs, apresenta-se, agora, pela primeira vez em disco.

Nas palavras de Batida, o álbum “conta a história de dois personagens que dizem chegar de um outro espaço, e tempo, e que se queimam ao entrarem em contacto com a realidade vigente, com a normalidade neste planeta.”

O Gerador embarcou nesta viagem com a ajuda de Pedro Coquenão, e foi tentar descobrir, ao longo das 11 músicas do álbum, a nova realidade com que se depararam. Em conversa, com o Gerador, o artista refletiu sobre o nascimento desta dupla, o conceito do álbum, falou acerca das letras que o compõem, e sobre a particularidade da música eletrónica africana.

Gerador (G.) – Recentemente, lançaste um novo álbum intitulado de “The Beginning, The Medium, The End and The Infinite”, em conjunto com o artista Ikonoklasta. Esta junção originou os IKOQWE. Gostava que me começasses por contar como é que surgiu esta parceria e este novo projeto? E porquê a escolha do nome de IKOQWE? Tem algum significado em específico?

Pedro Coquenão (P.C) – Significa a necessidade de ter um nome com significado e identidade própria. Nada melhor do que juntar dois nomes e fazer uma palavra nova e estranha para uns, familiar para outros. Nasce dos dois nomes dos personagens principais: Iko de Ikonoklasta e Coqwe de Coquenão. Os personagens têm vida própria, porém. Tal como a realidade e a ficção que tentámos concretizar nesta peça. A parceria existe há muitos anos. Já fizemos muita coisa juntos, incluindo música e outros personagens, mas não tinha ainda surgido o momento certo para o nosso disco.

(G.) – Que conceito está por trás deste novo álbum?

(P.C) – Idealmente nenhum atrás. Espero que tudo esteja à frente. Por dentro, ele assenta em cumplicidade entre os dois e a inevitabilidade em continuarmos a fazer coisas juntos. Umas menos públicas e outras mais, como esta que conta a história de dois personagens que dizem chegar de um outro espaço, e tempo, e que se queimam ao entrarem em contacto com a realidade vigente, com a normalidade neste planeta. As reações e as observações deles são o sumo da peça. Há um imaginário criado, mas há uma impossibilidade de dissociar da realidade. Há beats, poesia, dança, imagens, arquivos, história real e ficcionada. O conceito assenta nos personagens e no que eles nos vão dizendo.

Fotografia da cortesia da organização

(G.) – Ao longo das 11 músicas do álbum, muitas das letras que escutamos falam sobre neocolonialismo e história falsificada. São temas que, ainda, nos dias de hoje, te inquietam?

(P.C) – Interferem na minha vida como humano comum. Sinto-o todos os dias. Não encaixo. Não entranho. Seguindo a ideia de deixarmos tudo um pouco melhor do que encontrámos, nada podemos fazer contra factos, mas podemos pensar em lê-los melhor, relatá-los melhor, ensiná-los mais próximo da realidade e do presente em que vivemos para que, naturalmente, as gerações futuras cresçam num lugar mais próximo de uma justiça social verdadeira, mais igual. Gabo a sorte de quem consegue viver dissociado de tudo ou apenas focado no seu umbigo. Essa maioria dá-nos cabo da vida a todos.

(G.) – Olhando particularmente para a música “quarentena”: “Minha fase de saltitão foi bem curta”; “adepto da solidão desde os 20”; “estar trancado não me assusta.” Sabendo que o setor da cultura foi uma das áreas mais afetadas pela pandemia, como é que tens vivido estes tempos, em termos de criação musical?

(P.C) – Teria de perguntar ao Iko. Parece-me que se refere a feitos românticos, por oposição ao prazer de gostar de estar sozinho em casa. Não me foco na música. Criar pode partir e chegar a uma coisa qualquer. Gosto muito de música e dança, mas tenho mantido o meu programa Oceano Atlântico na Antena 1 e RDP África, criei conteúdos vídeo, acabei uma curta, escrevi... Musicalmente, remisturei coisas de que gosto muito e lancei muitos temas, colaborações com outros artistas (Criolo, Elza Soares, Octa Push, Dj Dolores, Bandé Gamboa), um disco coleção chamado UM (lançado pela Soundway no final de 2020), um single histórico há umas semanas (João Morgado, lenda dos Tambores de Angola que editou um 45 que quer dar seguimento aos anos da época dourada da música Angolana) e tentei participar no resistir socialmente em que muitos de nós nos envolvemos. Há mais espaço, menos distração, muita coisa para dizer. Criativamente feliz. Tenho trabalhado muito. “Só” o dinheiro é um problema de todos os que vivem de cultura a esta altura. Um perigo para a reconstrução social de que se fala. Gostava que se falasse mais em reformular.

(G.) – De momento, tens algum tema com que te identifiques mais, do novo álbum? Se sim, qual deles e porquê?

(P.C) – Há um que me vai sempre fazer sorrir mais: o “Bulubulu”. O processo criativo envolveu uma refeição muito boa no Gambuzino, uma sesta, enganos a gravar e uma viagem feita em conjunto de uma forma ainda mais próxima do que o habitual. Tudo num dia. Continuámos a rir quando ouvimos a coisa final. Ainda rimos.

Fotografia da cortesia da organização

(G.) – Atualmente, és considerado um artista da nova geração de música eletrónica Africana. Aliás, muitas das tuas músicas, e olhando para álbuns anteriores, surgem como uma forma de preservação e difusão da música angolana. Queres falar-nos um pouco desta tua relação “bonita” com este continente? O que achas que a música angolana pode oferecer de diferente à tua música, no geral?

(P.C) – Em Angola existem várias Angolas. O país foi agregado e mapeado por conveniência e violência Colonial. Esta Angola atual continua a ter muitas coisas únicas como muitos territórios no mundo inteiro. O desafio é celebrar essa unicidade por oposição ao efeito esfoliante da globalização, começando no período colonial até ao momento em que estamos, passando pelas décadas de guerra e governação criminosa. Simplificando: Angola tem instrumentos únicos, histórias únicas, uma melancolia menos esperada na idealizada música Africana e tem, acima de tudo, muitas pessoas talentosas com coisas únicas para partilhar.  A melhor forma de contribuir para a tradição é renovando-a.

(G.) – Neste seguimento, sentes que esta particularidade musical tem vindo a ser bem aceite pela comunidade portuguesa? Ou sentes que foi um evoluir dos anos?

(P.C) – Nada aparece do nada. IKOQWE, talvez. Essa participação tem vindo a ser aceite desde os Pretos de S. Jorge, da mesma forma que é estranhada e, por vezes, tolerada.  Aceita-se a mão de obra e o contribuinte mais facilmente do que a pessoa ou a sua cultura. Ainda somos muito nabos a enriquecer-nos culturalmente. E a palavra particularidade evidencia que a não aceitamos como nossa, como parte da identidade colectiva, mas faz e é, somos. Nos últimos 40 anos assistimos a várias vagas que são consideradas com condescendência. Dos primeiros artistas pós 25 de Abril muitas vezes colocadas num contexto do exótico, à dificuldade em reconhecer como gigantes e insuperáveis os talentos da Cesária, do Bonga ao lado da Amália, até à geração Rapublica. Há resistência. Há medo. Talvez por não termos as melhores aulas de história. Hoje, parece que estamos numa fase de entranhar mais. Entranhemos. Faz-nos bem. Não custa nada. Faz-nos maiores e mais interessantes e mais fortes no desporto e nos bancos.

(G.) – No álbum “The Beginning, The Medium, The End and The Infinite” a música e as letras foram escritas por IKOQWE e produzidas por ti. Ainda assim, contaste com algumas colaborações como Celeste Mariposa, ou o artista Spoek Mathambo. Porquê a escolha destes artistas para estas colaborações?

(P.C) – Tudo feito por IKOQWE. O que faço a mais é dirigir o universo artístico em que nos movimentamos, mas é um trabalho musical conjunto. Nesse trabalho, como em quase tudo em que estive envolvido, acho sempre interessante entranhar outros talentos e sensibilidades. O todo ganha. Cada um ganha. Eu já ganhei neste: o Luaty adora o disco. Essa é a opinião que mais me importa. As outras participações são todas feitas por afinidade artística. Adoro-os a todos, de maneiras diferentes.  Conheço-os a todos pela arte e pela admiração que tenho pelo seu percurso e forma de estar. São todos marginais essenciais.

Fotografia da cortesia da organização

(G.) – Para as pessoas que querem escutar o novo álbum, por onde o podem encontrar?

(P.C) – Muito difícil não tropeçarem nele. Google ou, o meu favorito, falando com um humano atrás de um balcão de uma loja de discos local. Se não tiver, encomendem. Está mesmo espalhado pelo planeta. Não só digitalmente como em CD e vinil.

(G.) – Por curiosidade, nos dias de hoje, há quem te conheça pelo nome artístico de “Batida”. Como é que surgiu esta denominação?

(P.C) – Já usei muitos, mas espero que me conheçam por esse, sim. Trabalho com esse nome há 14 anos. Editei cinco álbuns, muitos vídeos, documentários e quase tudo o que tenho feito artisticamente sob esse nome. Como surgiu? O nome é algo com que não gosto de perder muito tempo. Batida é uma palavra em português. A ideia surge em Luanda, inspirado nas compilações que repetem a palavra e retratavam, fora da rádio, tudo o que era música/dança. É como Cachupa Psicadélica ou Celeste Mariposa, mas menos criativo.

(G.) – Há algo que, ainda, gostasses de acrescentar relativamente a este projeto?

(P.C) – Sim. Ao vivo a coisa apresenta-se sob a forma de Teatro Musical e há também uma curta feita e que era para ter sido exibida dia 26 de fevereiro. Sê-lo-á num Festival de Cinema assim que abram as portas das salas mágicas que nos salvam a vida.

Texto de Isabel Marques
Fotografias da cortesia da organização