Decidi mudar de ares.

Achei que mal não me faria…no meio de tanta incerteza, que é possivelmente o único status garantido para qualquer artista residente em Portugal.

Diz o ditado popular que quem está mal, mude-se! Ora, não tenho bem a certeza de estar assim tão mal, nem tão pouco de ficar melhor com a mudança, mas o certo é que decidi fazê-lo.

Tal como eu, vários amigos próximos, quase todos colegas de profissão, decidiram abandonar a capital, a vida tornou-se insustentável, em tantos aspectos.

Vejo-nos agora espalhados um pouco por todo o território: uns em modo retorno às origens, alguns como eu, em busca de ar fresco, novas perspectivas, e outros ainda num movimento de êxodo à precariedade absoluta.

Não me interpretem mal, trabalho não nos falta, a nós trabalhadores da cultura e das artes, são projetos atrás de projetos, aliás, o que nunca nos faltou, foram ideias e vontade de trabalhar, o que também acontece amiúde é não existir uma correspondência com a viabilidade financeira, infeliz dessincronia.

Quer o meu eu romântico olhar para esta realidade com olhos empreendedores, eis aqui a solução para o combate à crescente desertificação do território, podemos ser peças valiosas nas comunidades que nos viram nascer, ou que agora nos acolhem.

Forçados a abandonar a capital, que é sabido concentrar a maior fatia do investimento nesta área, voltamos à condição de saltimbancos, arautos da esperança através da Música, da Dança, das Artes plásticas, do Teatro e tantas outras manifestações essenciais para a manutenção saudável de uma sociedade. Somos um símbolo da resistência e talvez a única solução para um país com a população envelhecida, que empurra a sua juventude para o litoral e além fronteiras. 

A passo desta mudança, todo um rol de afazeres burocráticos que a ninguém estimula, atados à ânsia de estabelecer alguma rotina na nova paisagem, bairro, café, mercearia, novas amizades, reencontros. Nas sábias palavras da canção de Ivan Lins, “Começar de novo, vai valer a pena…” 

Enquanto espero pela instalação da Internet, que no meu caso se está a revelar assustadoramente Kafkiana, os meus dias desenham-se à moda antiga.

Estou sem net em pleno 2020, só posso ser uma freak

Que bom acordar para um pequeno almoço a acompanhar a leitura, nada de respostas apressadas a e-mails que chegam com a urgência de resposta do eterno ontem. Contrariamente ao hábito, posso dar aos meus olhos o tempo para se acostumarem à nova realidade, em vez de ser vítima daquele impulso traiçoeiro do visor do telemóvel que me sugere a pergunta: o que já perdi eu?

Em vez de despertar com a sensação de que já vou tarde para entrar na faixa de rodagem da auto-estrada da existência, acordo com a serenidade de quem tem o dia todo pela frente, a promessa de alegria ainda em fase de desponte.

Tenho agora tempo para ler uma biografia da Ella Fitzgerald enquanto oiço os seus discos que coleciono desde adolescente. Posso tocar, ou melhor tatear, o piano sem ser assaltada pelos deadlines dos arranjos todos que deveria estar a compôr, nem a sentir a pressão das canções que deveria escrever, qual operária invisível da indústria da música para, ter sempre à mão, não vá a oportunidade bater-me à porta!

Sinto-me livre e, por momentos, sou livre, a Rita dos 16 anos que acreditou que tudo o que bastava para ser feliz era amar. Chamem-me romântica e antiquada mas eu gostava de voltar a ser essa Rita, era mais feliz.

I´m Old Fashioned

I am not such a clever one about the latest fads
I admit I was never one adored by local lads
Not that I ever tried to be a saint
I’m the type that they classify as quaint

I’m old fashioned, I love the moonlight
I love the old fashioned things
The sound of rain upon a window pane
The starry song that April sings
This years fancies are passing fancies
But sighing sighs, holding hands
These my heart understands
I’m old fashioned but I don’t mind it
That’s how I want to be
As long as you agree
To stay old fashioned with me
I’m old fashioned but I don’t mind it
That’s how I want to be
As long as you agree
To stay old fashioned with me

-Sobre Rita Maria-

Rita Maria começou a estudar música aos oito anos e desde os catorze a cantar jazz. Estudou canto lírico no Conservatório Nacional de Música de Lisboa, Jazz na Escola de Jazz do Barreiro, ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo), no Porto, e também na Berklee College of Music em Boston como aluna bolseira. Passou parte da sua vida adulta entre Portugal, Estados Unidos e Equador. Deambula entre a improvisação do Jazz e a nostalgia do Fado, o Experimentalismo, a fusão com world music e o rock, já tenho partilhado o palco com diferentes músicos e integrando variadas orquestras. É cantora da Banda Stockholm Lisboa Project, lançou, em novembro de 2016, com o guitarrista e compositor Afonso Pais o disco “Além das Horas” e é cantora da banda Saga Cega. Recebeu o Prémio de Artista do Ano, Prémios RTP/Festa do Jazz 2018. Neste momento, está a desenvolver o seu trabalho artístico com o pianista e compositor Filipe Raposo com quem já lançou o primeiro disco “Live in Oslo”, em 2018, e lançará, em finais de 2020, “The Art of Song vol.1: When Baroque Meets Jazz”. Círculo é o mais recente trio colaborativo do qual faz parte e que se estreou em disco a janeiro de 2020 com os músicos Mário Franco e Luís Figueiredo.

Texto de Rita Maria
Fotografia de Alice Bracchi
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