De 19 a 24 de Outubro, a Galeria Ocupa, no Porto será ocupada pela exposição “Indicadores da Carne”, de Tales Frey, que procura pelos lugares dos corpos neste tempo de pandemia, que acentuou o tempo dos ecrãs.

Apesar do artista já ter prevista uma exposição individual, as transformações avassaladoras e repentinas que entraram em cada vida, fizeram-no repensar nas criações a apresentar. “(…) Resolvi expor processos
não necessariamente concluídos, mas que foram reflexões que fiz justamente durante um período de reclusão intensa na quarentena, onde percebi que desenhos eram projetos/esboços fundamentais para as minhas criações até mesmo de performances ao vivo. Pensei assim em apresentar as materializações de croquis, desenhos-esquemas e “esculturas”, sendo tudo feito com restos de papéis que reciclei e dei novos significados. Quase nada foi comprado, porque, definitivamente, eu percebi que seria muito mais importante dar utilidade às coisas que estão jogadas no mundo”, explica.

Antes do novo caminho que a exposição tomou, Tales planeava criações através do contacto, isto é, de tactos entre pessoas, através de “situações de convívio”, de encontro dos corpos “por meio de roupas e adornos”. “(…) Ou seja, eu aglomerava pessoas para que, juntas, pudessem refletir sobre uma possível harmonização das diferentes singularidades de uma sociedade e, assim, promovia uma reflexão sobre noções de democracia de um modo prático.” Embora em novos formatos, “a adaptação foi naturalmente acontecendo e, em dois vídeos que integrarão a exposição e que surgiram durante a quarentena (assim como as demais obras), tentei justamente apresentar a mesma premissa através da reunião de todos
os corpos que estavam distantes fisicamente um do outro durante cada processo de criação, mas totalmente unidos num plano videográfico, onde se transformaram num único conjunto formado por um grande corpo híbrido. Assim, mesmo separados, num plano estético, aconteceu a união e a reflexão sobre as transformações corpóreas que estamos sempre sujeitados (considerando as nossas subjetividades e identidades).”

O corpo nunca desiste de si mesmo, 2020

Sublinhando a sua assinatura, o questionamento da relação entre a norma e o corpo, onde a primeira surge na tentativa de domesticação do segundo, Frey esclarece o título: “Pensei nas relações que estabelecemos com as referências de corpos que surgem nos nossos ecrãs. Hoje, mais do que nunca, passamos horas diante de telas e, obviamente, nós nos regulamos através dessas imagens bidimensionais que são constantemente apresentadas nos nossos aparatos tecnológicos pessoais (celulares, tablets, computadores etc.). Indicador é o dedo que aponta, que mostra algo, mas que impõe também. Claro, também, há a relação com o próprio espaço expositivo no título, pois a Galeria Ocupa foi um talho antes de ser espaço de arte e, ali, os elementos de um açougue foram mantidos como signo.”

As imagens que chegam às nossas casas, através das redes sociais, são infiltrações ideológicas nos corpos. Apresentam-se como a felicidade e, ao fazê-lo, tocam na fragilidade humana, o seu desejo último, dando-lhe uma solução, que é o modelo, através do qual o sistema capitalista se reforça. Tales Frey aponta o período de isolamento como um exemplo claro. “A realidade atual é sinistra e o capitalismo se reinventa sob qualquer circunstância, então se os modelos corpóreos ditos padrões do pré-covid-19 já eram inatingíveis, os que são ditados massivamente neste atual momento se tornam ainda mais impraticáveis por quem não se enquadra num modelo hegemônico. O capitalismo fabrica um ideal de felicidade que circula na web de maneira irrefreável. Vemos todo o tempo aquela pessoa bem-sucedida em situação de isolamento, mas que tem uma casa enorme para fazer práticas de exercícios físicos online com auxílio de um personal trainer. Não por acaso essa é uma pessoa magra, mas muito bem alimentada com uma dieta equilibrada, que tem acesso a educação plena, que pode consumir roupas caras em composição com seus sorrisos formados por dentes extremamente brancos. Esse é o corpo que o capitalismo nos induz a tentar obter, mas a verdade é que a desigualdade social está a ser intensificada, portanto os corpos reais são opostos aos
dessa construção que tenta nos adestrar como meros consumidores. A grande maioria dos corpos que o contexto pandémico está a criar é o que está em situação precária para servir essa minoria que vira propaganda de um modo dito adequado. Há uma grande ilusão de uma possível felicidade pautada numa ideia de que estamos vivendo uma pausa apenas e que tudo voltará ao que sempre chamaram de “normalidade” e, também, há uma insistência em um mesmo modo de viver que simplesmente desconsidera que os nossos recursos naturais estão claramente sendo esgotados. A humanidade caminha para um terrível fim se continuar a viver do mesmo modo como sempre esteve habituada.”

Dos gestos que vivem em nós, 2020

Para quem não tiver oportunidade de se deslocar à galeria ou, por questões de segurança, não o quiser fazer, o artista disponibilizará, no seu site pessoal, a exposição. Apesar de apontar os problemas trazidos pela plataforma digital, considera que esta iniciativa não se trata de um contrassenso. “(…) O que eu coloco em causa a respeito das nossas relações com os ecrãs é o conteúdo nocivo que absorvemos dele diariamente e constantemente, portanto, quando eu me proponho a apresentar algo para ser visto por meio deste mesmo dispositivo tão consumido nos dias atuais, eu quero subverter o conteúdo que molda corpos pautados em padrões tão
normalizantes e isso não atravessa regularmente o nosso feed de notícias nas redes sociais.”

Sabe mais, aqui.

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografias de Tales Frey