Inês Malheiro é uma jovem artista emergente bracarense. Atualmente, é a partir da sua voz que constrói música. Uns dias mais improvisada, outros dias mais composta. Com um caminho ligado ao jazz e à dança, nos dias de hoje, é através da performance e do som que move o seu corpo. Ainda assim, desde os últimos tempos, a voz e a eletrónica têm sido as características que lhe têm despertado uma maior atenção.

Desde a chegada da pandemia a Portugal, a jovem artista já teve a oportunidade de gravar um disco, Canal-Conduto, a pedido do Gnration, de compor e tocar a solo, nomeadamente, a série de músicas the endless chaos has an end, tendo-se consagrado, ainda recentemente, vencedora do Concurso da Edição Fonográfica de Intérprete de Música Contemporânea promovido pelo Município de Braga e pela Braga’27.

Numa fase atual de exploração e descoberta, o Gerador esteve à conversa com Inês Malheiro para embarcar neste “íntimo” musical da artista. Ao longo deste diálogo, Inês procurou refletir sobre a particularidade do seu estilo vocal, sobre a dança, sobre o processo de composição da sua música, incidindo ainda sobre alguns projetos que teve a oportunidade de realizar.

Gerador (G.) – Nos dias de hoje, é através da voz que constróis a tua música. Às vezes mais composta, outras vezes com um estilo mais improvisado. Quando é que te começaste a aperceber da capacidade de instrumentalização que podias construir através da tua voz? Por curiosidade, sentes que já encontraste o teu estilo?

Inês Malheiro (I.M.) – O meu estilo…. Sinto que não, ainda sou muito pequenina. Em relação à voz, teve algumas fases. Estudei clássico, depois passei para o jazz e sinto que essa passagem foi um abrir de portas para improvisar e mudar o timbre de voz que usava. Depois, já na faculdade, tive uma disciplina de eletrónica e comecei a brincar com software e com a voz e comecei a perceber que conseguia fazer muita coisa com ela. Talvez este até tenha sido o maior passo.

G. – Tens, também, um passado ligado à dança, relativo à estrutura de criação da Arte Total Braga. Numa entrevista ao Gnration afirmavas que a performance e o som são as áreas que te movem. De que forma tens procurado juntar as duas? Sentes que a prática performativa dá um caráter mais “expressivo” ao teu trabalho?

I.M. – Se dá um caráter mais expressivo, não é algo que pense. Quando estou a fazer música, e quando vou para concertos, não estou a pensar muito na componente performativa. Gosto que seja uma coisa mais orgânica. Quero que a componente performativa, nos meus concertos, seja verdadeira em termos sonoros e tento evitar pensar nisso. Nos últimos anos, afastei-me um bocado do mundo da dança. Continuei a ver coisas e depois conheci a Francisca Marques, uma amiga minha, que tem imensas ideias e com quem costumo pensar sobre elas. Acho que é a linha de performance que vai continuando. Agora estou mais focada na música, mas sei que mais tarde essa linha pode voltar a aparecer.

G. – Atualmente, és autora da série de músicas “the endless chaos has an end”, disponível, já, no teu soundcloud. Podes falar-nos um pouco sobre o processo de produção e composição destes temas?

I.M. – Esses temas foram as minhas primeiras composições. Queria mesmo fazê-las. Comecei a perceber que só fazia essas músicas quando precisava, então comecei-lhes a dar o mesmo nome. Nelas, o texto é muito importante e é, precisamente, o que conduz a energia da composição.

Já me perguntaram se não queria fazer um disco com estas músicas, mas para mim não faz sentido ser em disco porque é um processo contínuo. Agora, estou a pensar em que plataforma as partilhar. Aliás, deram-me a ideia de fazer um site e estou a trabalhar com a designer e grande amiga minha, Marta Areosa, nesse sentido.

G. – A partir de uma encomenda do gnration, apresentaste ainda em 2020, juntamente com Gonçalo Penas, um disco-EP Canal-Conduto e uma performance que podem ser lidos como uma reflexão sobre o tempo que cada um atravessa. Queres-nos falar como surgiu o Canal-Conduto? Já se conheciam anteriormente?

I.M. – Sim! Eu conheci o Gonçalo na ESMAE, e demo-nos logo bem. Na altura, até fizemos uma coisa com som e movimento em que tinha sensores no corpo, e ele trabalhava a parte sonora. Gostamos muito disso e a nossa amizade foi-se mantendo.

No ano passado, no auge da pandemia, o Luís Fernandes fez-nos a proposta incrível de fazermos um disco. O processo de fazer o disco foi bastante curioso. Eu e o Gonçalo damo-nos muito bem, mas somos muito diferentes artistica e musicalmente. Então, combinar as duas linguagens e fazer com que dialogassem foi um processo interessante. Foi uma ginástica que me fez crescer. Fez-me perceber melhor o que queria.

G. – Um dos aspetos que mais me despertou a atenção em relação a este EP é que este tem a particularidade de se tratar de uma história contínua dividida em três partes, em que a música eletrónica e a voz são o foco. Porquê a aposta pela história contínua e não por singles repartidos?

I.M. – O processo começou um bocado por limitar e perceber como tudo ia acontecer. Assim sendo, começamos por definir que seria uma narrativa contínua. Não construímos peça a peça, construímos 32 minutos de música e dividimos em três partes.

G. – Ao longo do teu percurso, tiveste ainda a oportunidade de fazer projetos com a Francisca Marques, Jean Claude Roberto, ZABRA Records. Destes projetos há algum que te tenha marcado de uma forma especial?

I.M. – Não sei…. Acho que na verdade não consigo escolher. São coisas diferentes e todas elas me trazem diferentes estímulos.

G. – Recentemente foste uma das vencedoras do Concurso de Edição Fonográfica de Intérprete de Música Contemporânea promovido pelo município de Braga e pela Braga’27. Os apoios destinavam-se a suportar custos relacionados com a gravação e produção de novas obras fonográficas de bandas e músicos bracarenses. Face a isto, quando é que poderemos começar a ouvir novas obras tuas?

I.M. – Esse disco ainda está num processo muito inicial. Estou, neste momento, numa fase de pesquisa, de leitura. É a primeira vez que tenho uma oportunidade tão grande para trabalhar enquanto artista a solo. Como gosto de muitas coisas tenho de ter cuidado para não me entusiasmar demasiado. Portanto, quando podem ouvir coisas novas minhas? Lá para o final do ano…

G. – Para terminarmos a nossa conversa, qual é a tua maior ambição a nível pessoal e profissional?

I.M. – Acho que é ter a oportunidade e disponibilidade para fazer o que eu quero e sinto.


* A entrevista surge a propósito da parceria entre o Gerador e a Braga’27 (Capital Europeia da Cultura).

Texto de Isabel Marques
Fotografia de Sofia Sá