Podemo-nos tratar por “tu”?, pergunta-me Inês, quando nos encontrámos à porta da sua casa. Mal entrámos, fomos até ao quarto, onde estava parte da colecção que vai desfilar na final do Sangue Novo, o concurso do ModaLisboa para jovens designers. Um vestido de crochê, uma saia, gargantilhas e um cinto com cordão de malha de aço sobre a cama. Num cabide, um vestido comprido, transparente. Inês agarra nos casacos de pele e passa as mãos sobre as mangas, para sentir a rugosidade. Vamos até à sala para conversar. Inês senta-se no sofá como uma bailarina.

Gerador. - Como contarias a tua história a partir de tecidos, texturas, linhas, cores?

Inês Manuel Baptista. - Tudo começou com a dança, porque foi na dança que me comecei a descobrir como indivíduo e como criadora. Tínhamos aulas de dança criativa e éramos incentivados a fazer coreografias. Essa altura, consigo associar aos tules, ao cor-de-rosa, essencialmente o tom que vestíamos, às licras, muito macias e suaves, mas também àquela parafernália de acessórios e de coisas que nos colocavam em cima. Comecei a crescer e a coisa começou a acalmar, a suavizar. Pessoalmente, identifico-me muito com texturas muito suaves, tecidos muito esvoaçantes e leves e delicados. Se bem que também adoro peles. Gosto de texturas pesadas, rugosas e fortes. Gosto de sentir o tecido no corpo. Neste momento, estou em fase de transição, exploração, porque é um mundo completamente novo para mim e sinto que me começo a apropriar de outros materiais, introduzir materiais não expectáveis e improváveis, que é o que estou a fazer neste momento na minha colecção. Daí estar a trabalhar com cordão de aço. Neste momento, estou a descobrir-me, portanto consigo identificar-me com tudo aquilo que me rodeia porque estou mais receptiva a tudo.

G. - Como foi a transição do balé para a moda?

I.M.B. - Acabou por ser muito gradual. Sempre me vi como bailarina e era isso que eu achava que ia acabar por fazer e a minha vida sempre se organizou em torno da dança, porque isso era a minha prioridade número um, tanto como bailarina, como professora. Dei aulas de dança durante muitos, muitos anos, até há três, quatro anos. A transição para a moda aconteceu quando decidi ir viver para fora. Tive quase quatro anos em Copenhaga. Foi aí que me redescobri. Conheci a verdadeira Inês. Até aqui, estava na minha zona de conforto. Tinha tudo o que precisava, o que achava que precisava. Deparei-me com uma realidade completamente diferente. Conheci outras pessoas, outro mundo, no fundo, e comecei a perceber que, se calhar, havia mais para além da História de Arte. Na altura, tinha congelado a minha inscrição em História de Arte. Só terminei a licenciatura quando regressei. Percebi que, se calhar, podia fazer outras coisas e que havia outros mundos, através dos quais me podia expressar criativamente. Talvez influências também. Entretanto, comprei a minha primeira máquina de costura doméstica. Comecei a experimentar, a ver que gostava. Tornei-me autodidacta a fazer as minhas próprias peças. Quando regressei a Portugal, decidi acabar a licenciatura. Queria fechar esse capítulo da minha vida. Entretanto, surgiu a oportunidade de vir para Lisboa e de ingressar no mestrado. Não sei se foi a decisão ideal, tendo em conta que não tenho grandes bases. Sinto que tenho muito para aprender. Não estou à vontade com aquilo que faço. Isto tem sido um processo de descoberta e aprendizagem constante. Foi gradual. Se bem que, quando era pequena, não ligava muito à moda, nem àquilo que vestia, muito pelo contrário, foi algo que me passou ao lado.

G. - A História de Arte continua a acompanhar-te?

I.M.B. - Continua a acompanhar-me. Esta colecção tem muito de surrealismo. Foi inspirada na obra de Man Ray e sinto que vai ser uma influência para sempre no meu processo. O meu motor de busca vai sempre ter à arte.

G. - Quando te vestes, o que queres dizer?

I.M.B. - Nada. Quero passar o mais à margem possível. Sou extremamente discreta e uso maioritariamente preto. Gosto de me sentir confortável. Para mim, o conforto é absolutamente essencial. Cor não é para mim. Para vestir, não.

G. - Foste seleccionada para a final do Sangue Novo. O que pensas que o júri viu em Catarse?

I-M.B. - Viu essencialmente sinceridade, porque a minha colecção é muito pessoal, e eu tive de partilhar, não a história toda que envolveu o desenvolvimento do conceito, mas acho que isso foi um dos pontos fortes. Acho que consegui transmitir aquilo que queria. A questão da simplicidade… Se calhar, ter tido a capacidade de desenvolver uma criação sem ter grande conhecimento em moda. Tanto é que todos os vestidos que fiz foram feitos em draping, porque ainda não tinha noção do processo de modelagem. Ainda não tenho. Estou agora a aprender. Tive de me desenrascar com as ferramentas que tinha na altura, que foi literalmente pegar no tecido e começar a desenhar a peça no corpo do manequim. Se calhar, também o lado sustentável das camadas exteriores porque eu fiz upcycling de peles. O facto de ter adquirido casacos de pele em segunda mão e os ter reconstruído. Alguns deles não, fiz questão de manter a silhueta que eles tinham porque achei que fazia sentido. Apoderei-me da pele para fazer novas peças.

G. - Qual a razão da predominância do preto?

I.M.B. - Era o que fazia sentido na altura. Estava numa fase muito negra da minha vida e emocionalmente estava muito para baixo e foi a forma que arranjei para, através da cor, ou da ausência de cor, neste caso, transmitir essa força, esse negrume que me sobrevoava na altura. E também conseguir esse contraste entre o material das camadas interiores, uma espécie de seda muito leve, e a parte de fora, que acho que funciona muito melhor do que quando há cor, pelo menos na minha opinião.

G. - Também daí Catarse…

I.M.B. - Exactamente. Foi um renascimento, no fundo.

G. - Sentes que os teus colegas também têm um envolvimento emocional intenso no seu trabalho?

I.M.B. - Acho que não, muito sinceramente. A maioria das pessoas, pelo menos as que conheço, não o faz de forma tão emotiva. É mais superficial, não vem tão de dentro. Não sei se isso será um defeito meu, atenção. Achas que não? Já fui acusada disso, de que não tenho maturidade profissional suficiente dentro da área para dar tanto de mim. Mas, muito sinceramente, acho que não consigo exprimir-me de outra forma, sem ser através das minhas emoções e das minhas vivências. Neste trabalho, consigo fazê-lo, mas, lá está, tem uma ligação. Cada imagem que escolhi e cada estampa que criei têm um motivo, e um motivo muito pessoal. Ainda não consigo pegar numa televisão, num banco, o que seja, e fazer disso uma criação. É demasiado superficial para mim.

G. - Como se educa o olhar para ler moda?

I.M.B. - Isso depende muito de cada um, do background, e daquilo que sentes. Para mim, moda-roupa é muito emotiva. Não consigo olhar para a roupa como mero objecto, uma matéria física. Não sei se consigo materializar as minhas ideias e as minhas noções nas peças.

A roupa é para ser vestida. A maior parte das pessoas é assim que olha. Eu própria antes de entrar neste mundo… Para mim, roupa era uma peça que eu usava para cobrir o meu corpo, para me proteger.

G. - Em relação à colecção que vais apresentar na final do Sangue NovoComo se cria moda a partir de uma fotografia, neste caso de Man Ray?

I.M.B. - Não surgiu a partir de uma fotografia, necessariamente. Sempre adorei o surrealismo. Na altura em que estudava História de Arte, foi um dos movimentos com que mais me identifiquei e gostei de estudar. Entretanto, isso ficou parado no tempo. Há uns tempos, reli André Breton, e isso fez-me entrar no mundo. E, agora, quando estava a desenvolver esta colecção, lembrei-me. Comecei a folhear um livro de Man Ray. Comecei a perceber que, se calhar, podia ser uma forma inteligente de fazer a transição da minha colecção passada para esta. Até porque percebi logo que já não queria trabalhar o preto, mas também não queria trabalhar cores muito vivas. Então, fazia sentido o cinzento como cor transitória. Nós fomos incentivados a manter uma linha, uma continuidade, do primeiro projecto para este. Não foi necessariamente uma fotografia. Foi a obra dele. Depois comecei a ler, a ver e a estudar, a aprofundar a obra dele e percebi que, através da fotografia, conseguia trazer ao de cima alguns temas e mundos que queria abordar.

G. - Que mundos?

I.M.B. - Que mundos?... Eu, inicialmente, queria ser muito literal e comecei a fazer um moodboard com várias obras, com as quais me identifiquei por algum motivo. Fiz, literalmente, uma montagem com todas as fotografias de que gostei e que tinham algum elemento com o qual me inspirava. Seria interessante ser literal e transpor para a roupa muitos desses elementos que vi na obra dele. Entretanto, a coisa começou a ficar muito mais profunda e comecei a limpar as imagens porque tinha muita informação inicialmente. Comecei a perceber que se calhar era interessante criar no conceito de surrealismo, propriamente dito, um paradoxo entre a fantasia e a realidade. Quando comecei a desenhar, comecei a brincar com as sobreposições. Quis trazer as camadas interiores para as exteriores. Tentei fazer esse jogo. Daí quatro ou cinco das minhas peças, terem todas uma racha traseira nas costas para que possas sobrepor a camada interior sobre a exterior. Quis trazer as camadas interiores para a exterior. Mas, ao mesmo tempo, de um dos lados, tens uma camada exterior, ou seja, vais conseguir ver as duas.

G. - Esse aspecto tem que ver com o consciente e o inconsciente, muito trabalhados pelo surrealismo?

I.M.B. - Sim.

G. - A dança está presente nesta criação?

I.M.B. - Sem dúvida alguma, sobretudo a questão do corpo. Só agora me começo a aperceber. Esta é a minha segunda colecção. Fiz trabalhos de mestrado, mas o projecto que tive de materializar é este. É muito curioso porque gosto de silhuetas grandes, mas ao mesmo tempo gosto muito de mostrar o corpo. Tenho muitas transparências nesta colecção. O corpo é tão natural. E, depois, foi um instrumento de trabalho meu durante tanto tempo que, desta vez, quero trazê-lo ao de cima, quero que ele se veja. Isso foi um dos grandes problemas. Tivemos várias reuniões de acompanhamento e a questão das transparências, o facto de ter muito corpo à mostra e não o querer tapar, foi um grande problema, um problema que tive de contornar, o que eu não estava à espera. Não posso ter peito à mostra. Julgo que é pelo facto de as modelos que estão a desfilar para nós serem muito novas. Muitas não têm sequer 18 anos. Era um problema com o qual achava que não me ia deparar. Tive de cobrir zonas do corpo que não esperava cobrir. É óbvio que elas tinham sempre umas cuecas. Mas, por exemplo, eu tinha um vestido com o peito à mostra e, neste momento, ainda estou naquele dilema se coloco uma sombra ou não. Mas não era isso que eu queria. Quero que se veja o corpo dela. O vestido é muito volumoso, mas vai-se ver o delinear do corpo dela.

G. - Porque escolheste criar moda para mulher?

I.M.B. - Revejo-me bastante naquilo que faço. Inicialmente, não conseguia pensar nas minhas criações se não fosse eu a vesti-las. Isso tem que ver com o facto de não ter grande experiência na área. Gostava muito de desenhar para homem. Uma área que gostaria de explorar era a alfaiataria, mas ainda não tenho as ferramentas necessárias. E calçado também é uma área que espero vir a explorar.

G. - Em que contextos imaginas a tua roupa?

I.M.B. - Na realidade, o que acontece é que são usadas em contextos de festa. Mas gostava que as usassem em contextos mais pessoais, para si próprias, mais do que para mostrar, para usufruir, seja em que contexto for ou que motivo for. Queria que se sentissem verdadeiramente confortáveis e bonitas.

G. - O que a roupa permite ao ser humano usufruir?

I.M.B. - Tanta coisa, mas sabes que mais do que a imagem é mais aquilo que a pessoa sente e os motivos que a levam a vestir determinada peça. Às vezes, dou por mim a vestir aquela roupa e nem sei bem o porquê. Na realidade, não preciso de a usar, mas apetece-me. Quero que as pessoas queiram vestir aquilo porque se sentem bem consigo.

G. - Vives a Moda, também, como expressão política?

I.M.B. - Para mim, moda é uma forma de me exprimir. Ainda vivo as coisas de forma muito virada para mim. De que forma se liga com outras áreas, fora aquilo que estou a fazer, é algo que não é uma prioridade para mim.

G. - Há uma preocupação de sustentabilidade no teu trabalho?

I.M.B. - Sim, há. Confesso que neste trabalho, não fiz. Neste momento, arrependo-me solenemente disso. Mas não fez sentido, tendo em conta o desenvolvimento que tive de dar ao projecto. Meti-me por caminhos que desconhecia. Passei por uma fase de experimentação exaustiva, primeiro, porque não fazia a mínima ideia do que era tricotar ou fazer crochê. Tive de aprender a fazê-lo. Não dominava a arte em linha. Que fará em cordão? Depois, deparei-me com problemas como as questões do peso. Isso levou-me muito tempo e acabei por ter de tomar decisões em cima da hora, que me impediram de dar o mesmo seguimento que dei à outra colecção. Mas gostava de o ter feito. Mas, por exemplo, as peles que utilizei são de desperdício de uma fábrica. As peles não são sequer para confecção, são para acessórios. Apoderei-me daquilo que me disponibilizaram. Acredito que é possível fazer moda sem desperdício. Se vier a ter uma marca, terá de ser esse o meu lema.

G. - Consideras que a sustentabilidade, agora, no caso da moda, pode ser uma técnica de marketing?

I.M.B. - Pode, claro, sem dúvida alguma. Nunca o vou fazer. A prova viva é a minha última colecção. O processo foi incrível, porque, ao ir à procura de determinadas peças, tu nunca sabes o que vais encontrar. Acabas por te deparar com peças antigas. E é uma coisa que quero muito fazer, pegar em peças antigas e reutilizar para novas peças.

G. - A próxima edição, AWAKE, tem que ver com este tema. Soubeste-o antes de iniciar o processo de criação?

I.M.B. - Não, soube há pouco tempo. Não fazia a mínima ideia.

G. - Como tem sido o teu quotidiano, neste período de preparação para a final do Sangue Novo?

I.M.B. - É caótico. A minha vida virou-se do avesso, desde que comecei o Sangue Novo. É o dia inteiro, de manhã à noite. Full on, completamente. Em Lisboa, não tenho veículo próprio, as distâncias são muito grandes. Em casa, tenho máquina doméstica, mas não tenho industrial. Tenho de trabalhar na faculdade e ando sempre com as coisas de um lado para o outro. Tem sido uma correria, mas, se não fosse assim, não tinha o mesmo sabor. Depois, o facto de ter a minha irmã aqui comigo… Ela está a estudar moda, aqui ao lado, no Modatex. Tem sido muito estimulante, porque estamos a trabalhar em conjunto. Ela está a participar no Bloom, por isso também está em contexto de competição. Temos aprendido imenso.

 

O gravador parou, mas a conversa não terminou. Voltámos ao quarto novamente. Inês partilha a sua preocupação com as transparências e o desejo de que, um dia, os seus manequins sejam bailarinos, porque, no que cria, “tem que se notar o corpo, como se movimenta”. Fica a olhar para este tempo de trabalho, focando os vários pontos do espaço, onde tem as peças. Saímos juntas. Inês regressaria à faculdade, para continuar a dar forma ao caminho que se recorta. A sua simplicidade e humildade, o seu gesto sereno e a doçura dos seus traços, abriram-me as possibilidades do que pode ser um / uma designer de moda. Afinal, há camadas interiores de “texturas muito suaves e tecidos muito esvoaçantes”.

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografia de Paulo Ramos
O Gerador é parceiro da ModaLisboa