Conhecer e mergulhar no património através da fotografia. Esta é a premissa do InstaHeritage, uma forma de conhecer o município da Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria, juntando instagrammers, jovens curiosos e fotografia.

«Os jovens portugueses são dos europeus mais afastados do consumo patrimonial», conta Catarina Valença Gonçalves, fundadora da Spira, empresa especializada em projetos de revitalização do património e responsável pela AR&PA – Bienal Ibérica de Património Cultural – um evento referência do setor, e que este ano se realiza em Leiria de 15 a 17 de outubro. A solução? Juntar o Instagram ao património e fazer nascer o InstaHeritage, o desafio lançado pela Spira e pelo Gerador para estreitar a relação entre os jovens e a história da região de Leiria.

A Patrícia e o Pedro, dois dos participantes do InstaHeritage, no castelo de Pombal

Há mais de 20 anos que a Spira existe para promover a aproximação das pessoas do Património Cultural e transformar o seu olhar relativamente a uma herança comum a todos, por meio de «conhecimento, criatividade e ação, investigando, desenhando, organizando e promovendo projetos centrados». «Consideramos o Património Cultural um ativo estratégico para a geração de mais equidade social entre cidadãos», explica Catarina Valença Gonçalves. A Bienal Ibérica de Património Cultural tem sido uma ponte e em 2021, a bienal dedica-se ao tema dos «Jovens e Património», não fosse Portugal detentor dos mais baixos índices europeus de consumo de património cultural por parte dos jovens com idade entre os 15 e os 24 anos. Esta faixa etária é consumidora assídua de música, cinema e tecnologia, mas vive distante do património do seu país, por isso, e com o objetivo de criar uma «relação afetiva e identitária com o património cultural», o InstaHeritage juntou entre julho e agosto, durante cinco sábados, aprendizes entre os 18 e 30 anos, mestres do Instagram e representantes de cada local, em passeios fotográficos pelos municípios da Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria.

As dez localidades escolhidas foram Marinha Grande, num percurso singular pelo património da Praia da Vieira de Leiria; a cidade pelo rio Lis beijada, Leiria, num roteiro em torno do importante sítio do Menino do Lapedo; Pedrógão Grande, desde o caminho romano à Ribeira de Pera; a descoberta dos Poços de Neve e do Museu do Nevoeiro, do Lagar e da Praia Fluvial do Corga, em Castanheira de Pera (e o dialeto oral local: o Laínte da Casconha); a cidade e o património de Pombal e as várias épocas de Ansião; os bosques de carvalho, agricultura, arquitetura tradicional e natureza de Porto de Mós; o roteiro pela vila da Batalha, da ponte neomanuelina da Boutaca ao Mosteiro de Santa Maria da Vitória; um percurso que conjuga os Trilhos de Al´baizir e Megalapiás, em Alvaiázere; e ainda a Volta dos Artistas, em Figueiró dos Vinhos. Nestes passeios, os participantes tiveram a oportunidade de conhecer a fundo o município e captar a essência e a identidade do património local, com dicas de instagrammers como, Inês Albuquerque (@ifalbuquerque), José Miguel Lopes (@voodoolx), Bruno Silva (@bruno.f.silva), José Pinheiro (@o_pinheirojose), Margarida Pinto (@maggie.pi), Filipe SJ (@filipesj), Zé Vitro (@zevitro), António Fonseca (@tozzzze), Jéssica Reis (@_jessica_reis) e Pedro Dias (@morfeum). Os trabalhos fotográficos resultantes das descobertas pelos municípios originarão uma exposição a inaugurar em outubro na galeria da Biblioteca Municipal de Leiria, e um concurso, cujo prémio final será um smartphone Samsung Galaxy S21 5G, para futuras deambulações pelo património cultural português.

Questionados sobre o porquê da escolha da região de Leiria nesta edição, a Spira destacou a presença da Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria, sempre com entusiasmo, na bienal (tanto na edição portuguesa, como na espanhola), o território privilegiado em termos de património cultural e natural, “assim como do ponto de vista de práticas artísticas”, e uma proximidade de Lisboa e de cidades culturalmente importantes como Coimbra.

Para a Spira, o InstaHeritage gerou dinâmicas interessantes em vários domínios. «Sendo uma ação articulada com dez diferentes autarquias e envolvendo uma dimensão territorial assinalável, revelou-se uma iniciativa motivadora para os próprios poderes locais que encontram nela uma oportunidade para mostrar patrimónios menos conhecidos – e por vezes mais desvalorizados – dentro das próprias comunidades, trazendo a eles a atenção dos fotógrafos (instagrammers e amadores) e, através destes, do público que acompanha as ações nas redes sociais», salienta Catarina Valença Gonçalves. Por outro lado, Catarina destaca a participação dos jovens e o contacto com fotógrafos que admiram, «a possibilidade do networking», de «trocar impressões técnicas com os especialistas» e, claro, «os cenários apetecíveis e variados desta região do país, que detém uma assinalável riqueza patrimonial».

Castelo de Pombal

Que o diga o Pedro, da Marinha Grande, e a Patrícia, de Leiria, que aproveitaram a expedição por Pombal e por Ansião para aprender com os instagrammers Maggie Pi e Filipe SJ e verem com outros olhos dois sítios já familiares.

Para Pedro, participante pela terceira vez, a motivação para participar foi pelo «contacto com a fotografia, com o património e para conhecer pessoas novas», já Patrícia, que participou pela primeira vez, seguia o Filipe e decidiu aprender com ele, acrescentando ainda que, apesar de ser vizinha de Pombal, «nunca tinha visitado a cidade nem o castelo», fazendo uma visita que, de outra forma, «não faria sozinha».

Os participantes do InstaHeritage puderam descobrir Pombal partindo do imponente castelo templário, contado pela técnica especializada do município, que, entre lendas, factos e símbolos característicos da cidade – como uma sineta do reinado de D. Manuel I, mandada transferir, mais tarde, pelo Marquês de Pombal para o edifício da Cadeia -, guiou os participantes (de câmara ou telemóvel em punho), pela Rota Pombalina, num percurso pedestre de ruas estreitas e museus, até ao centro da cidade.

Maggie Pi e Filipe SJ puderam ainda, em Ansião, dar dicas e asas à imaginação no Complexo Monumental de Santiago da Guarda e no Paço Manuelino, que guardam várias épocas históricas num só espaço. Para Maggie Pi, é importante «a partilha de fotos de uma região que se situa no interior» pelo reconhecimento que esta pode vir a ter. Para além disso, «a partilha de conhecimento e troca de ideias» fazem desta uma experiência envolvente para mentores e pupilos.

«No geral, foi uma experiência interessante pela dinâmica que criou entre participantes e instagrammers porque, do nosso ponto de vista, pensámos não só em criar conteúdos criativos, mas envolver as pessoas nesses conteúdos e pensar mais além, não só criar uma foto bonita. Juntámos o lado cultural à criatividade para produzir conteúdos, e por isso, conseguimos juntar o melhor dos dois mundos», acrescenta Filipe SJ.

Para além do InstaHeritage, a Spira tem procurado trazer o património cultural para perto do público a partir do olhar de quem está do outro lado: «Colocar o outro como protagonista é um dos aspetos centrais da aproximação dos públicos ao património cultural, ao invés da visita ou explicação passiva e assente num monólogo. Por outro lado, nos últimos anos, temos vindo a desenvolver a dimensão sensorial, isto é, iniciar a abordagem não tanto pela dimensão cognitiva e intelectual, mas pelas sensações, dando espaço privilegiado às manualidades, ao corpo, à interação física com a matéria.»

Maggie Pi e Filipe SJ foram os instagrammers que acompanharam o InstaHeritage em Pombal e Ansião

A Bienal Ibérica de Património Cultural, de caráter itinerante, pretende destacar territórios «sempre tão diversos no nosso pequeno país» e promover, de forma mais equitativa, «o que de melhor se faz no campo cultural e patrimonial» em regiões como a escolhida para esta edição. Este ano, Leiria recebe quatro dias de iniciativas que podem ser continuadas e replicadas no pós-bienal, de forma «muito ágil». A criadora da iniciativa acredita que, mais uma vez, «a Bienal deixará a sua semente no território e contribuirá, para além de reunir o setor do Património Cultural, para a promoção do desenvolvimento desta área de atuação num território específico de forma mais acentuada». De 14 a 17 de outubro, a programação inclui seminários, atividades de Educação Patrimonial, concertos-performance, workshops de Artes & Ofícios, visitas e roteiros, exposições, cerimónia de Prémios, concursos digitais e muito mais.

Da partilha de conhecimentos e vivências, ao aprender, este pré-bienal que pôs o Instagram de braço dado com o património, possibilitou não só o registo de técnicas e memórias, mas a valorização de um património até então «desconhecido».

Reportagem de Patrícia Nogueira
Fotografias de Álvaro Ponte
O Gerador é parceiro da Spira
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