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Intra Collective: “Queremos ser diferentes, mas o diferente nem sempre é aceite”

O Intra Collective, constituído por Carolina Duran, Leonardo Moura e Mafalda Fidalgo, sagrou-se vencedor da categoria de Moda na Mostra Nacional de Jovens Criadores 2022. Inspirando-se na dança japonesa butoh, recorrendo à sustentabilidade e tendo como objetivo expor as suas frustrações face ao atual mundo da moda, o grupo criou a coleção INTRA e apresentou-a como um “manifesto” e uma exploração daquilo que consideram ser a “vertente mais conceptual” da área.

Mafalda Fidalgo, Leonardo Moura e Carolina Duran. Créditos: Bárbara Monteiro

Carolina Duran, Mafalda Fidalgo e Leonardo Moura conheceram-se na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa durante a licenciatura em Design de Moda. Em 2022, apresentaram, pela primeira vez, a sua coleção INTRA na plataforma Bloom, no âmbito do Portugal Fashion. Consequentemente, e de forma a se diferenciarem dos restantes estilistas, decidiram criar um coletivo artístico ao qual deram o nome Intra Collective.

INTRA foi também a coleção que apresentaram na Mostra Nacional de Jovens Criadores 2022 e com a qual conseguiram sagrar-se vencedores. Tal como descreveram, a coleção procurou evidenciar a “revolta” e a “frustração” que o grupo sentia – e ainda sente – relativamente ao “sistema individualista e capitalista da moda”. Para além disso, depois de atravessarem momentos complicados devido à pandemia que se instalou no país em 2020, sentiram uma necessidade de reencontrarem a sua paixão pela moda e de reconstruírem o caminho que ficou por percorrer quando terminaram a licenciatura.

Durante a nossa conversa, o grupo revelou que sempre se manteve unido, sem nunca deixar de partilhar o interesse que tem pela moda. Leonardo Moura começou, recentemente, a tatuar e garante que, com o curso, ganhou “as bases necessárias para se poder expressar”. Porém, está num “momento de pausa”, como o descreveu, e pensa voltar a estudar mais tarde, na área das belas artes, de forma a “completar o que aprendeu até hoje”. Por outro lado, Mafalda Fidalgo encontra-se a tirar um mestrado em Estudos de Arte com especialização em Museologia e Curadoria. Gosta de trabalhar com diferentes materiais e admite que, se não fosse o Intra Collective, não teria conseguido aprofundar tanto esse interesse. Já Carolina Duran, depois de terminar a licenciatura, tirou um curso de escultura e pintura, de forma a manter-se “ligada às belas artes”. Atualmente, está focada nas artes do espetáculo, mais concretamente na construção de figurinos, pois sente que só assim consegue explorar o verdadeiro significado de “ser designer de moda”.

Em entrevista ao Gerador, Carolina, Mafalda e Leonardo falaram de como exploraram o lado menos convencional do mundo da moda com o seu projeto, de como procuraram inserir materiais mais sustentáveis nas suas peças, dos desafios com que se depararam e das suas principais inspirações, nomeadamente, a dança japonesa butoh que, para o Intra Collective, foi a maneira perfeita de representar as emoções que experienciaram aquando das suas dificuldades e a forma como se libertaram de todos os pensamentos negativos.

Gerador (G.) – Que desafios sentem ao serem jovens emergentes no mundo da moda em Portugal?

Leonardo Moura (L. M.) – Acho que o maior desafio, para mim, é o facto de o mundo da moda ser muito pequeno aqui em Portugal e estar muito ligado às relações que as pessoas estabelecem entre si. Não sinto que haja muitas oportunidades. Por isso é que procuramos concursos como a Mostra Nacional de Jovens Criadores, para podermos mostrar o nosso trabalho. Para além disso, as coisas estão cada vez mais digitais, não só em Portugal, mas no mundo inteiro, e acho que a moda não se adapta tão bem a essa componente. O digital não estimula criativamente. A moda também é uma indústria cara e muito exclusiva. Acho que devia ser tudo mais acessível. Não estou a falar das peças necessariamente, mas da parte cultural da moda. A vertente monetária e industrial da moda é um grande desafio para nós.

Carolina Duran (C. D.) – Foi exatamente isso que procurámos criticar com o nosso projeto.

Mafalda Fidalgo (M. F.) – Existe outra coisa que eu também considero desafiante e que se relaciona com o percurso académico que os jovens artistas sentem que devem seguir. Parece que todos temos de ter as mesmas bases para conseguir entrar no mundo da moda em Portugal. Existe uma certa pressão para participar em certos eventos, concursos, algo que nos permita ter acesso às mesmas coisas. Parece que não dá para fugir a esse nicho que é tão pequeno. Às vezes, sujeitamo-nos a realizar coisas que não queremos, apenas porque sabemos que se não o fizermos não teremos tantas oportunidades. Queremos ser diferentes, mas o diferente nem sempre é aceite. Estamos numa fase muito inicial da nossa carreira, mas a verdade é que, a grande maioria dos designers de moda que conhecemos, percorreram caminhos muito semelhantes para chegarem até onde estão hoje. Por exemplo, a nossa intenção não é criar uma marca de roupa, daí termo-nos caracterizado como um coletivo.

G. – Como é que os vossos caminhos se cruzaram?

C. D. – Cruzámo-nos no curso da faculdade e acabámos por perceber que nos identificávamos uns com os outros, principalmente no tipo de trabalho.

L. M. – O nosso curso era muito intenso e desgastante. Percebemos que, ao aproximarmo-nos de pessoas com as quais nos identificávamos, teríamos força para continuar a explorar aquilo em que acreditávamos. Aproximámo-nos no fim do primeiro ano, depois de termos visto o trabalho e os projetos uns dos outros. Uma apresentação de um trabalho é sempre um momento vulnerável e era nessas alturas que percebia quem partilhava a mesma forma de pensar que eu. Conseguimos criar um grupo onde podíamos partilhar as nossas ideias, mesmo que fossem diferentes, e mantermo-nos unidos.

C. D. – Sim, isso foi um grande incentivo. Aquilo que o Leonardo está a dizer é muito importante. Não foi só uma questão de nos identificarmos uns com os outros. Também nos tornámos numa rede de suporte uns dos outros.

G. – Qual é “a vertente mais experimental e conceptual da moda” que pretendem explorar?

C. D. – Acho que a moda sempre teve uma linha de pensamento tradicional. Como a Mafalda disse há pouco, a maioria dos designers segue um determinado caminho, não só a nível da criação das peças e das suas coleções, mas também a nível da indústria. Eu nunca me identifiquei com esse lado da moda, nem com essa forma de criar algo. Sempre quis explorar o que não é convencional, quis ultrapassar alguns limites e desconstruir as formas e os conceitos que estão, normalmente, associados à moda. É tentar explorar para além do óbvio.

Vera Teles na apresentação do projeto INTRA na MNJC 2022, com acessórios de Eduarda Novita. Créditos: Guilherme Costa

G. – Apresentaram o vosso primeiro projeto na plataforma Bloom, no âmbito do Portugal Fashion. De que forma isso vos impulsionou a criar o Intra Colletive?

M. F. – O Bloom foi o começo de tudo. Tínhamos a oportunidade de ir sozinhos, mas acabámos por nos juntar, porque fazia sentido. Não é muito comum verem-se trios no mundo da moda. Acho que isso é o mais interessante, foi isso que nos diferenciou. Para nós, o trabalho em grupo, e uns com os outros, sempre foi importante. Sempre partilhámos tudo entre nós, até os trabalhos individuais. Partilhávamos ideias e, às vezes, construíamos os projetos no mesmo espaço. Quando apresentámos a coleção INTRA, percebemos que tínhamos de criar um coletivo: o Intra Colletive. Foi algo natural, acho que não pensámos muito sobre isto [risos]. Foi também a forma de nos distanciarmos um pouco daquilo que era o conceito de “coleção” ou “marca” de moda.

L. M. – Investimos muito neste projeto. Foram semanas longas e de muito trabalho. Ao viver essa experiência no Bloom, fiquei com vontade de repetir e de voltar a apresentar a coleção, mas de uma forma ainda mais ponderada. Por isso é que procurámos oportunidades como a da Mostra. Queríamos reviver aquele momento.

G. – Para o projeto INTRA, quiseram criar “um manifesto de oposição ao sistema individualista e capitalista da moda”. Porquê?

M. F. – Antes de responder à pergunta concretamente, acho que é importante referir qual era a nossa situação pessoal na altura em que criámos o projeto. Tínhamos acabado a faculdade e vivido metade da licenciatura em pandemia. Estudar moda pode ser angustiante e criar alguma confusão na nossa cabeça. Por vezes, questionamo-nos se estamos realmente a contribuir para esta área enquanto jovens. E a situação da Covid-19 acabou por enfatizar ainda mais o que sentíamos. Era inevitável ficarmos revoltados com tudo o que estava a acontecer no mundo e no país. Não só a nível pessoal, mas também a nível do próprio ensino da moda. Foram momentos muito intensos. Dessa forma, era quase impossível não falarmos disto ao criar esta coleção. Tudo o que estávamos a sentir naquela altura tinha que ver com essas mesmas frustrações. O sistema, a dúvida sobre o que iríamos fazer quando terminássemos a licenciatura, não saber se estávamos verdadeiramente preparados para o mundo profissional, visto que não tínhamos tido aulas presenciais e práticas ao longo de mais de metade do curso… Tudo isso tinha de estar presente no projeto de alguma forma. Sempre nos manifestámos em relação a essas questões e isso acabou por se intensificar com a pandemia e o momento que atravessámos. Claro que não estamos à espera de uma grande mudança a nível da indústria ou do sistema. Talvez seja mais uma mudança pessoal, não sei bem explicar. Contudo, se conseguirmos criar algo diferente, se nos mantivermos fiéis ao nosso trabalho, já pode ser o início de qualquer coisa. Daí fazer sentido, para mim, continuar a trabalhar com a Carolina e com o Leo.

C. D. – Temos noção de que precisamos de tempo até começarmos a ter visibilidade. Ainda estamos no início do nosso percurso. Mas queremos fazer isso da nossa forma. Estamos a tentar mostrar a nossa perspetiva e aquilo que faz sentido para nós.

L. M. – Por isso é que é tão importante irmos apresentando os nossos projetos e explicando em que consiste o nosso trabalho. Acabamos por conseguir difundir as nossas ideias e a nossa mensagem, mesmo que ainda não seja de uma forma muito impactante. Havemos de lá chegar.

David Amado e João Szpacenkopf na apresentação do projeto INTRA na MNJC 2022, com acessórios de Eduarda Novita. Créditos: Guilherme Costa

G. – Porque se inspiraram na dança japonesa butoh e de que forma isso se revela nas peças?

L. M. – Ao longo da licenciatura, foi-nos pedido que realizássemos projetos com base em ideias com as quais nos identificássemos. Num desses trabalhos, acabei por me inspirar na dança do butoh. Sempre foi uma referência para mim. Depois, quando nos reunimos para criar o INTRA, percebemos que essa dança se relacionava muito com a ideia de recomeço, de comunidade, tudo aquilo em que nos revíamos. Para além disso, é uma dança que recorre muito a silhuetas e à forma como o corpo se expressa. Essas silhuetas são, por norma, mais robustas e mais intensas. Não é como uma dança contemporânea que é esteticamente mais bonita e mais leve. A ideia do butoh é mesmo apresentar algo que seja mais realista e forte. Foi isso que quisemos mostrar na nossa coleção.

C. D. – Também quisemos que o nosso projeto fosse mais sustentável e não tínhamos os meios para comprar todos os materiais. Estávamos dependentes de parcerias com fábricas para os adquirir. Posto isto, acabámos por colocar isso um pouco de parte e decidimos focar-nos mais nas formas e nas silhuetas. A coleção pode ser dividida em quatro momentos, estando o primeiro relacionado com a maneira como nos sentíamos quando terminámos o curso. O bloqueio, a rigidez, e a vontade de nos libertarmos dessas emoções. A ideia era explorar o percurso que percorremos desde essa sensação de bloqueio até à nossa libertação. Por exemplo, para o primeiro coordenado, tentámos criar estruturas mais rígidas e usar materiais que transmitissem a ideia de se estar “preso”, como a barba de baleia. Também recorremos à simetria de modo a simbolizar aquilo que nos tentaram incutir ao longo do nosso ensino. Nos restantes coordenados, essa simetria vai-se perdendo e as estruturas desintegram-se. Os tecidos começam a ir em direção ao chão e vão desfazendo-se.

M. F. – Também é importante referir a parte conceptual de todo este projeto. O butoh relaciona-se muito com a ideia do corpo grotesco e acho que isso passou para a nossa coleção. O corpo grotesco está em constante mutação e o INTRA acaba por ser uma representação da nossa evolução, da nossa caminhada. Podemos até observar isso nas cores que escolhemos. Por exemplo, começámos por usar uma paleta de cores mais forte e terminámos com uma certa leveza ao recorrermos ao branco.

G. – Foi por isso que descreveram o projeto como uma “necessidade de regressar ao início, ao centro e ao interior”?

C. D. – Na altura, estávamos muito isolados e, quando idealizámos o projeto, chegámos à conclusão de que tínhamos de criar algo relacionado com a comunidade e com o que estávamos a viver. Sentíamos, sobretudo, um peso sobre nós. Estávamos cansados de estar em casa, não fazíamos nada, estávamos sempre sozinhos. Para além disso, “ao voltarmos ao interior”, também estávamos a tentar recuperar a paixão que tínhamos pela área quando entrámos no curso. Acho que essa paixão se foi perdendo devido à nossa desmotivação.

G. – Com que dificuldades se depararam ao longo da criação destas peças?

L. M. – O que me deixou mais revoltado foi a falta de prática. Ao longo da licenciatura, não conseguimos ganhar a experiência que achámos que iríamos ter. Isso acabou por se tornar numa dificuldade técnica, pois tínhamos idealizado uma coisa que acabou por não ficar exatamente como queríamos devido às nossas limitações. A própria confeção das peças foi desafiante. Também quisemos manter a coleção o mais sustentável possível e optámos por procurar outro tipo de materiais como tecidos que foram desperdiçados de outros trabalhos. Foi a primeira vez que confrontámos a sustentabilidade numa escala maior. Acabámos por perceber que, para construirmos um projeto de grande dimensão, como este, iríamos precisar de imensos materiais e os desperdícios são difíceis de encontrar. Tentámos contactar várias fábricas, mas nem sempre obtivemos resposta. Acho que esses foram os principais problemas com que nos deparámos.

G. – Para vocês, o que representa ganhar este prémio?

M. F. – Independentemente de tudo, acho que é sempre importante ter validação. Existe muita competição nas áreas artísticas, principalmente na moda. Ter validação significa, sobretudo, que estamos a conseguir passar qualquer coisa lá para fora e que as pessoas estão a observar o nosso trabalho. A interpretá-lo. Sabes que, apesar de estarmos a trabalhar em conjunto, a moda não deixa de ser um mundo muito isolado, no sentido em que, para nós, estilistas, faz sentido, mas para os outros pode não fazer sentido nenhum. É um processo muito pessoal e vulnerável. Não sabemos se as pessoas vão sentir alguma coisa com aquilo que estamos a mostrar. Vivemos no nosso próprio universo, mas, se a nossa mensagem conseguir chegar às outras pessoas, então já iremos sentir que estamos a construir algo que afinal pode ser partilhado.

Soninbolor Khuvsgul na apresentação do projeto INTRA na MNJC 2022, com acessórios de Eduarda Novita. Créditos: Guilherme Costa

G. – Quais são as vossas ambições para o futuro, a nível pessoal e do Intra Colletive?

C. D. – Essa é uma pergunta difícil [risos]. Acho que estamos mais focados no presente. Sei que quero descobrir o que me dá prazer fazer a 100%. Estou à procura de uma área que reúna tudo o que eu gosto de fazer. Ainda não encontrei, estou nesse processo. Quero expressar-me sem ter de percorrer um caminho mais restrito e direcionado para o mercado comercial. Relativamente ao coletivo, gostava muito de continuar a trabalhar com eles e de participar em mais projetos.

L. M. – Como não me identifico a 100% com as áreas que estudei, a moda e os figurinos, ainda estou a tentar perceber o que quero fazer com a minha carreira. Gostava de me sentir satisfeito com aquilo que estou a fazer e isso nem sempre é fácil numa área que é tão subjetiva, como a moda. Espero que os meus trabalhos não fiquem só para mim, mas sim, que comuniquem com as pessoas e que transmitam uma mensagem que permita a tal criação de uma comunidade unida. Também gostava de encontrar o gosto pelo digital e de explorar essa vertente, de forma a criar moda mais sustentável e acessível a todos. Por sua vez, o Intra Colletive tem que se manter ativo. Foi algo a que nos dedicamos muito, logo, só faz sentido continuarmos nisto.

M. F. – Uma das coisas que temos em comum é a necessidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo e de explorar vários caminhos. Neste momento, estou a tirar o mestrado, estou a aprender a tatuar e também componho música. Gosto de trabalhar em grupo, de conhecer pessoas novas e de outras áreas. Acho que isso é muito importante e espero que assim continue. No meu futuro, gostava de explorar mais a área da curadoria e do design de moda, e conectá-la às várias representações que a moda pode ter. Sempre tive uma ideia muito fixa do que iria ser o meu futuro, mas cada vez mais acredito que a vida é um processo de descoberta.

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