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Introdução ao comunitarismo radical – parte I

©Catarina Vultos

Em 2012, James Cheshire e Ollie O’Brien colocaram sobre o mapa do metro de Londres a esperança média de vida de acordo com as zonas da cidade onde se cresce e vive. Nesse mapa, por cada estação de metro era possível verificar a esperança média de vida das crianças em cada um desses bairros. Este mapeamento permitiu revelar as tremendas disparidades que se verificam entre as diferentes zonas da cidade, facilmente identificadas com as estações de metro, e como elas se relacionam com desigualdades económicas e sociais em cada um dos territórios. Ora, quanto maior fosse a privação de rendimentos disponíveis por pessoa (e, em especial, por criança) naquelas zonas, menor seria a sua esperança de vida.

Ao contrário do que poderíamos desejar, aqui há correlação e causalidade. Na verdade, o estudo mostra que, sem a introdução de fatores corretivos, nomeadamente os de redistribuição e de oferta de serviços públicos gratuitos, o destino estatístico das pessoas quanto à sua esperança média de vida, fica traçado à nascença: crianças de famílias pobres viverão menos que crianças de famílias ricas.

A segunda conclusão está relacionada com a organização e distribuição social da capital britânica, quando se analisam os bairros a que correspondem as estações do metro. Não se trata de um exclusivo de Londres – é, aliás, um fenómeno que se repete um pouco por todas as capitais e grandes centros urbanos dos países europeus. As cidades vão-se organizando por bolhas de maior ou menor dimensão, com zonas cada vez mais exclusivas e de menor cruzamento entre si.

Em Paris, os bairros tornaram-se guetos, de tão impenetráveis e pouco interconectados com o resto da cidade e, em Bruxelas, estão bem presentes as imagens no bairro de Mooleenbek, na sequência dos atentados terroristas de 2016. Em Lisboa, há várias empresas que se recusam a fazer entregas de comida em determinados bairros, embora muitos dos seus distribuidores venham desses mesmos bairros. Em Chelas, por exemplo, as trotinetes apitam ao entrar no bairro e não é permitido estacionar naquele perímetro. É, sucessivamente, em vários guias turísticos, o patinho feio de Lisboa, a “zona a evitar” – “Chelas é frequentemente manchete de jornais e televisão portugueses. Tiroteios, perseguições de carros, assaltos, vandalismo... A poucas estações de metro do centro da cidade, Chelas fica [como o] bairro a evitar em Lisboa.”.

Com mais de 70% da população europeia a viver em cidades, o desafio de pensarmos o território como forma de combate às desigualdades torna-se um dos mais prementes dos nossos tempos. Um dos principais pontos apontados por Sandel para o agravamento da polarização social, que deriva não só da hubris meritocrática, mas do agravamento das desigualdades socioeconómicas, como tive oportunidade de explorar em crónicas passadas, é a falta de cruzamento de realidades interclasses.

O que isto significa é que hoje é estatisticamente menos provável que pessoas de classes sociais diferentes acabem por se cruzar e ocupar os mesmos espaços públicos. Não frequentam as mesmas escolas, os mesmos espaços de saúde, restaurantes ou espaços culturais. Os meios de transporte são diferentes. A dicotomia quase sempre entre o público e o privado. As desigualdades económicas e sociais – até de estatuto – agravam este afastamento entre realidades dentro do mesmo território.

As cidades, tal como desenhadas até aos nossos dias, pouco contribuíram para atenuar ou eliminar estas desigualdades e as bolhas mutuamente exclusivas que se foram criando. A criação de “bairros sociais” periféricos, cujos equipamentos sociais se cingiram ao mínimo indispensável, e em que existe uma dificuldade de atração de técnicos e profissionais das diferentes áreas de especialidade, certamente não facilitam ou potenciam a criação de novas oportunidades e a resolução das desigualdades estruturais existentes.

Como se parte da situação atual para a definição de territórios que sejam, efetivamente, de todas e de todos? Que promovam a equidade e combatam as desigualdades? Como se utiliza o território para criar espaços que permitam o cruzamento de pessoas de todas as proveniências socioeconómicas? Como se promove a criação, enfim, de um verdadeiro espaço público, de comunhão, destinado à plenitude dos diferentes seres individuais que constituem as nossas sociedades? As respostas a algumas destas questões são hoje, felizmente, cada vez mais uma realidade aplicada no terreno. Mas, para que sejam realmente eficazes, temos de consensualizar o ponto de partida e o de chegada. O ponto de chegada é a transformação de espaços urbanos em verdadeiras comunidades; o ponto de partida é ouvir as populações e ter coragem para as envolver no processo de transformação - com elas, não apesar delas.

Continua.

- Sobre o João Duarte Albuquerque -

Barreirense de crescimento, 35 anos, teve um daqueles episódios que mudam uma vida há pouco mais de um ano, de seu nome Manuel. Formado na área da Ciência Política, História e das Relações Internacionais, ao longo dos últimos quinze anos, teve o privilégio viver, estudar e trabalhar por Florença, Helsínquia e Bruxelas, onde reside e trabalha atualmente - algures pelos corredores do Parlamento Europeu. Foi presidente dos Jovens Socialistas Europeus e candidato ao Parlamento Europeu, nas eleições de 2019.

Texto de João Duarte Albuquerque
Fotografia de Catarina Vultos
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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