Terminei 2020 a pensar em inumanidade. Esta qualidade que não tem humanidade é algo em que raramente pensei, reflecti ou até verbalizei (e que até sinto dificuldade em articular).
Incrivelmente, há palavras que começamos a usar, nem que seja em pensamento, que não nos são frequentes e que pouco significado lhes damos até ao momento em que se inserem no nosso vocabulário. Esta ficou-me.

A inumanidade é hoje, para mim, a palavra que melhor expressa o que foi 2020 nas relações humanas. O que a pandemia provocou, provoca e vai provocar por algum tempo.
2020 acabou, entretanto já passaram dois meses de 2021 (foi logo de seguida) e o que queria que fosse um novo “respirar” foi apenas o retomar do que se vivia: a ausência de sentir o outro. A segunda saga da inumanidade.

Sou alguém com um forte sentido de sentir, se assim o posso afirmar. O estar com outras pessoas, provocar encontros e ocupar espaços, que nem sempre são meus, é um sentido de vida e uma provocação para o outro. É-me fundamental tocar e ser tocada! Sim, em todos os sentidos. E sei que é vital para a humanidade. O calor que tanto necessitamos não se prende aos raios de sol, está, igualmente, no abraçar outros corpos. Esse alimento é-nos agora limitado e até incentivado a não “ser comido” e essa provocação de mudança no nosso comportamento cria hiatos que não serão fáceis de conquistar.
É essencial voltar a estar com os outros, faz parte do desenvolvimento da condição humana. Há que combater uma pandemia, ninguém o nega, e ninguém se vê a ser a força opositora de tal “missão mundial”, mas a fisicalidade é fundamental para tal. E hoje ao voltarmos a estar em casa, sem viver e conviver com quem mais gostamos e com os estranhos, que sorrisos e resmungos nos davam diariamente, é perder força anímica. É deixar de contribuir para o que tanto prezo: ser social.
Nada me convence de que o facto de as crianças estarem privadas dos seus avós, os namorados amarem-se nas redes sociais, os profissionais trabalharem em teletrabalho, os artistas criarem virtualmente, entre tantas outras situações, será mais humano do que voltarmos a viver ocupando espaços, a provocar encontros e comunicar cara a cara?
Preocupa-me que se ganhem rotinas que limitem o contacto físico, pois como seres rotineiros, o nosso quotidiano ancora-se de tal comportamento e estamos há demasiado tempo limitados ao nosso espaço físico e territorial. Somos incentivados a deixar a nossa parte sensorial (que nos é fundamental) para sermos um bom cidadão. Mas avaliamos as consequências? Não é estranho para todos nós passarmos por alguém na rua e desviarmo-nos para evitar um possível contacto físico? Estamos assim tão longe de chegar a uma normalidade que nos afasta do desenvolvimento humano?
Eu não quero deixar de provocar o contacto físico com o outro, e em conjunto voltarmos a ocupar espaços.

Segundo o Dicionário Priberam, Inumanidade é a “qualidade do que tem falta de humanidade; acto que demonstra falta de respeito pela vida humana ou pelos valores considerados humanos; CRUELDADE”.

*Texto escrito com o antigo acordo ortográfico

-Sobre Marta Guerreiro-

Nasceu em Setúbal de pais com naturalidade nos concelhos de Almodôvar e Castro Verde e cresce numa aldeia perto de Palmela. Aos 19 anos muda-se para o Alentejo, território que não imaginava que um dia poderia ser a sua casa, e agora já não sabe como será viver fora desta imensa planície. Licenciou-se em Animação Sociocultural, vertente de Património Imaterial, onde desenvolveu competências sobre investigação e salvaguarda de tradições culturais e neste percurso descobre as danças tradicionais e a PédeXumbo, dando assim continuidade à sua formação na dança. Ao recomeçar a dançar não consegue parar de o fazer e hoje acredita que esta é, para si, uma das formas mais sinceras e completas de comunicar. A dança tradicional liga-a ao trabalho desenvolvido pela PédeXumbo, onde desenvolve o seu projeto de final de curso com o tema “Bailes Cantados” e a partir desse momento o envolvimento nos projetos da associação intensifica-se. Atualmente coordena a PédeXumbo onde desenvolve projetos ligados à dança e música tradicional.

Texto de Marta Guerreiro
Fotografia de Catarina Silva
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